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Sismos em Portugal: "Preparar a capital para reagir tornou-se prioritário para a Câmara de Lisboa"

Autores: Tânia Ferreira, Dani Castillo, Luis Manzano

A prevenção do risco sísmico da capital portuguesa entrou no topo das prioridades da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Em entrevista ao idealista/news, o vereador com o pelouro da Proteção Civil revela como é que a autarquia está a preparar a cidade e a população para reagir se voltar a repetir-se um desastre natural como o terramoto e tsunami que devastaram Lisboa em 1755, tal como antecipam os especialistas que vai acontecer. Carlos Manuel Castro deixa um aviso ao setor imobiliário: "Quando se compra um imóvel é preciso ter a noção se é ou não resiliente, porque nada nem ninguém é imune a uma catrástrofe".

Esta entrevista faz parte de uma série de artigos que o idealista/news está a publicar sobre sismos em Portugal. 

A comunidade científica reitera que Lisboa enfrenta um enorme risco de sofrer outro sismo como o de 1755. Como está a Câmara Municipal de Lisboa (CML) a preparar-se para um evento destes?

Estamos cientes disso e a questão dos desastres naturais estão na linha da frente das preocupações da Câmara. Nesse sentido, estamos a promover várias iniciativas, trabalhando no urbanismo, mas sobretudo no âmbito da proteção civil, focando a consciencialização e sensibilização das pessoas para saberem ter comportamentos adequados.

"Os desastres naturais estão na linha da frente das preocupações da Câmara"

Em concreto, o que estão a fazer?

Uma boa forma de preparar a população é começar logo com os mais novos. E temos um projeto com bastante sucesso, há mais de duas décadas, que é a "Casa do Tinoni” e que ao longo de um ano forma cerca de 6500 crianças em bons comportamentos a ter em caso de risco sísmico. Ao mesmo tempo, estamos a trabalhar com a população adulta e sénior, para adequar os seus comportamentos face ao inesperado, porque os sismos infelizmente não enviam mensagens antes.

Por outro lado, temos um projeto com todas as juntas de freguesia, porque é importante que cada uma tenha um plano local de emergência, adaptado à realidade local. Um exemplo muito interessante, e que as pessoas não têm noção disso, é o risco de ter um zoo perto de casa em caso de desastre natural, como acontece em São Domingos de Benfica.

"Temos um projeto com todas as juntas de freguesia, porque é importante que cada uma tenha um plano local de emergência, adaptado à realidade local, como os bairros históricos, a frente ribeirinha ou o zoo..."

A CML aderiu ao programa de cidades resilientes da ONU. Em que consiste?

Uma cidade resiliente passa desde logo por cuidados de inovar do ponto de vista urbanístico, para termos um edificado mais sólido e adaptado para resistir fàs adversidades. Por outro lado, existe panóplia de atores na cidade, que vão desde o público ao privado, que têm de estar em consonância e articulação para que nada falhe num resgate. Isto significa atuar, em caso de desastre natural, de forma sincronizada para que não haja nem duplicação de trabalho, por exemplo.

E faz sentido a autarquia atribuir algum tipo de incentivo para que os edifícios públicos respeitem este tipo de preocupações?

O Regimento de Sapadores de Bombeiros de Lisboa, por exemplo, está a construir um novo quartel, e vai construir mais, em que dimensão da segurança face ao sismo já está contemplada por nós. É, aliás, uma prioridade porque, em caso de catástrofe, os quartéis não podem cair.

Lisboa tem uma dificuldade num resgate que é a tipologia de certos bairros onde os carros de bombeiros têm dificuldades em chegar...

Também estamos a trabalhar para ter melhores respostas nestes bairros históricos, que são naturalmente difíceis de intervir dadas as suas características muito antigas. Há ainda um outro ponto importante que não devemos desconsiderar da experiência do terramoto de 1755, que é a nossa frente ribeirinha que foi responsável pela morte de milhares de pessoas nessa altura. Temos que ter bem presente que, além da dimensão da terra, também temos a frente do rio que pode ser um obstáculo. Vejamos também o que aconteceu há pouco mais de cinco anos, em Fukushima, onde o pior foi o tsunami depois do terramoto.

"A falta de memória histórica em Portugal torna mais difícil passar a mensagem. Mas vamos ser persistentes e continuar a trabalhar para consciencializar e preparar a população e instituições públicas e privadas"

A falta de memória pode fazer com que esse risco seja descurado. Isso dificulta a consciencialização?

Sim, é verdade, não havendo memória histórica, é mais difícil passar a mensagem. Mas o mais importante é não esmorecer pelo facto das pessoas, numa fase inicial, estarem um pouco indiferentes à situação existente. Sabemos que muitas das vezes a mensagem não passa à primeira, nem à segunda e nem à terceira, mas à medida que o tempo vai avançando acaba por passar e cada pessoa que possamos sensibilizar é sempre um ponto ganho.

Além disso, os trágicos acontecimentos mais recentes a nível internacional, como no Nepal, fazem-nos recordar a necessidade de termos medidas e, sobretudo, comportamentos adequados para fazer face a estes desastres. Temos o exemplo japonês, que é o melhor a nível mundial, onde há uma grande preparação da população e das várias instituições (públicas privadas e sociais), no sentido de ter o edificado e o comportamento humano em condições de dar uma resposta adequada.

"É fundamental que quando se realiza um investimento na compra de um imóvel exista a consciência dos riscos sísmicos"

E os japoneses dizem que, em caso de desastres naturais, 80% da população é resgatada pelas pessoas que estão perto e as autoridades só chegam num período posterior. Isto mostra que é necessário que haja uma consciencialização e também uma formação da população para saber adequar as suas atitudes face ao risco.

E alertar mais a população para o risco sísmico no momento de compra ou recuperação de imóveis

A segurança do edificado é muito importante e, por isso, é preciso sensibilizar as pessoas para que valorizem essa questão na aquisição de um imóvel, porque de facto não há ninguém nem nada em Lisboa, ou em outros locais no mundo, que esteja imune a um desastre natural. É fundamental que quando se realiza um investimento deste tipo exista essa consciência dos riscos e saber se o imóvel é resiliente, ou seja, que está preparado para lidar com eles.