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Barcelona e Berlim mostraram ao Porto vantagens e os melhores projetos de cohousing

São várias as iniciativas de habitação partilhada a funcionar e com bons resultados nestas cidades. Mas também ha problemas a superar.

Spreefeld Berlin / Arcdaily
Spreefeld Berlin / Arcdaily
Autor: Elisabete Soares (colaborador do idealista news)

Com os preços em alta e a oferta de casas em baixa, há novas formas de habitação a nascer em Portugal, inspiradas em casos internacionais. E, por exemplo, aqui mesmo ao lado em Espanha, e mais a norte na Europa, na Alemanha, são vários os projetos de cohousing - conceito de habitação partilhada - que estão a funcionar e com bons resultados em Barcelona e Berlim.  

A experiência das duas cidades na implementação destes projetos - bem como as dificuldades encontradas, as diferentes formas de financiamento e as vantagens de um modelo onde o intercâmbio entre vizinhos e a partilha de espaços tem um papel fundamental -, foram ouvidas com atenção por uma plateia constituída por várias dezenas de pessoas, sobretudo jovens, muitos arquitetos, que se juntaram, esta semana, no Mira Forum, um novo espaço cultural, localizado perto da Estação de Campanhã, no Porto. 

O caso de Barcelona, no evento Pensar o comum: cohousing como solução habitacional, foi partilhado pelo arquiteto e urbanista Josep Maria Montaner, vereador da Habitação e Urbanismo da Câmara Municipal de Barcelona, de 2015 até ao momento, que contou o que a cidade está a fazer para moderar a especulação dos preços e criar habitação para a classe média baixa. Por sua vez, a experiência de Berlim chegou pela voz de Inka Drohn, arquiteta e fundadora da arch.id GmbH, um atelier focado na vertente ambiental e socialmente sustentável e no planeamento urbano ecológico. 

O convite aos dois especialistas em habitação colaborativa para participarem no evento, partiu do Goethe-Institut da Friedrich-Ebert-Stiftung Portugal no âmbito do ciclo Retomar a Cidade, no Porto,

Cooperativas e cidades portuguesas foram inspiração para Berlim 

São diversas as experiências de Berlim em termos de habitação colaborativa – um modelo de habitação que já está implantado na cidade há mais de década e meia e que surgiu numa altura em que o preço dos terrenos era acessível. “Em 2013 o preço m2 era de 250 a 300 euros, agora é de cinco mil euros/m2”, começa por referir Inka Drohn.   

Destaca, “há mais de cinco mil projetos de cohousing, muitos são criativos e sustentáveis e outros não”, frisando que “alguns desses projetos são de pessoas que compraram uma casa e a transformaram, planearam e envolveram-se na sua construção”. 

Contudo, o atelier de arquitetura de Inka Drohn, tem sobretudo uma vasta experiência em grupos que se juntaram e formaram “associações e cooperativas sem fins lucrativos” e no desenvolvimento de “centros de vizinhança” especialmente criados para pessoas com necessidades especiais. 

E é, neste contexto, que conta que “sempre veio a Portugal e às cidades do Porto e Lisboa buscar inspiração”, e ao modelo das cooperativas de habitação social. 

Spreefeld é o caso mais conhecido em Berlim 

Arcdaily
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Inka Drohn apresentou o caso de uma das cooperativas mais conhecidas na cidade. Chama-se Spreefeld Berlin, um projeto de vida e trabalho compartilhado no centro de Berlim, localizado nas margens do rio Spree, entre Mitte e Kreuzberg. 

O projeto inclui três edifícios contíguos, apresenta um total de 8.000 m2 de espaço útil, onde vivem 130 pessoas. “Partilha-se a grande cozinha, a despensa, tem uma sala comunitária e até um barco”.   

As estruturas comuns são “geridas pelos residentes, sem hierarquias”, precisando, contudo, “pedimos algum dinheiro no projeto”. Trata-se de “uma vinculação ao projeto”. 

Sobre este empreendimento, que se encontra em fase de expansão, a arquiteta destaca que “as pessoas não precisam partilhar tudo”, podem “manter-se independentes, saem quando querem e partilham quando querem”.  

Inka Drohn apresentou também o projeto de alojamento integrado Suedwetsome, destinado a pessoas com deficiências a nível físico e, que, por isso, se desenvolve só no rés-do-chão de um edifício, cujos andares superiores foram vendidos, a preços mais acessíveis. 

Barcelona avançou mais tarde para combater especulação 

Para Josep Maria Montaner, a solução para limitar a especulação imobiliária e impedir o aumento da gentrificação do centro da cidade passa por projetos de habitação colaborativa, que possam dar resposta às necessidades de habitação da classe média baixa. 

A aposta em Barcelona passou por disponibilizar terrenos e edifícios públicos para entidades privadas que se organizem em cooperativas e “apresentem propostas viáveis e sustentáveis - tanto económica, como ambiental”, precisa.  

“Temos 50 edifícios que estão a ser geridos por associações sociais e que apresentam essas características”, destaca Josep Montaner. Frisa, “são espaços recuperados e geridos por grupos de pessoas, por jovens, pessoas dos bairros”. 

Um dos mais emblemáticos, para o responsável, é projeto La Borda, um edifício construído em madeira e gerido por uma cooperativa, com 28 habitações, inaugurado em 2018.    

“Este projeto funciona bem”, porque, “aqui foram as pessoas que trabalharam desde início”, refere, dando nota de que“tem espaços de recreio, lavandaria, biblioteca, e alguns locais ondem prestam serviços”. Contudo, até lá, frisa, “foram realizadas muitos encontros, reuniões e workshops com os moradores”. 

O responsável apresenta, ainda, outros projetos de cohousing em fase já adiantada e que podem avançar em breve. Trata-se do La Barceloneta, da cooperativa Xarxaire, localizado numa zona de pescadores; o projeto La Balma, do grupo Sostre Cívic ou o edifício Els Cirerers, localizado na zona de Nou Barris. 

Cooperativas disputam concursos públicos 

Eldiário.es
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Embora no caso de La Borda o projeto não tenha resultado de um concurso publico – “foi uma adjudicação direta, de forma a ultrapassar o problema político criado”, tendo em conta que o edifício tinha sido ocupado anteriormente - o responsável da autarquia de Barcelona destaca que, neste momento, “já há cinco outros projetos”, estando a ser realizados concursos públicos para a escolha das cooperativas que os vão gerir. 

Estes concursos públicos “são muito disputados e chegam a ter cinco cooperativas interessadas”, diz. Ganha a cooperativa que “apresentar um melhor projeto e modelo de financiamento”, precisa Josep Montaner. 

Refira-se que os terrenos ou edifícios a concurso ficam com um direito de superfície por um período de 75 anos (com prazo adicional de mais 50 anos).