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Cadeira Portuguesa: o saber fazer nacional que se tornou num marco do design internacional

Procura de espaços exteriores, devido à pandemia, alavancou o negócio da centenária Adico, tal como conta a empresa ao idealista/news.

Cadeiras de esplanada
Adico
Autor: Elisabete Soares (colaborador do idealista news)

São confortáveis, versáteis e um marco do design português, com fama internacional. E agora, com os cafés e restaurantes outra vez abertos, podem encontrar-se em muitas das esplanadas do nosso país - e em muitos outros. Falamos da Cadeira Portuguesa, produzida pela centenária Adico, um produto clássico e intemporal, com cerca de 90 anos de existência, que leva a que se possa dizer, sem grandes exageros, que “não há um português que nunca se tenha sentado numa cadeira Adico”, dada a forma consistente e uniforme com que os estes produtos estão distribuídos pelo país e têm resistido ao tempo. 

E mesmo em plena pandemia a Cadeira Portuguesa deu provas da sua resiliência, fazendo com que 2020 - um ano extremamente atípico e muito instável  - tenha sido para a Adico um período "muito interessante" e de crescimento. “Registamos um crescimento nos nossos resultados operacionais, de mais 10%, para os 3,2 milhões de euros”, revela ao idealista/news Miguel Carvalho, administrador da Adico, precisando que “este produto representa um grande peso na atividade comercial da empresa".

Esplanada à beira-mar
Adico

Na verdade, os constrangimentos provocados pela pandemia da Covid-19, que geraram uma forte tendência de procura por espaços exteriores, foram um importante impulsionador do negócio no ano passado. Registou-se um aumento da procura por soluções de mobiliário outdoor, sobretudo “mais acentuada nas mesas para o cumprimento do distanciamento social imposto”, detalha o responsável.

Uma história com um século de existência

Foi em 1920 que Adelino Dias Costa, filho de um pequeno serralheiro, fundou a Adico, em Avanca, freguesia do concelho de Estarreja, a sua terra natal. “Era um homem com uma visão bastante moderna e com um espírito empreendedor, invulgar para a época em que vivia”, dizem sobre ele.

E assim foi. A mais antiga fábrica de mobiliário metálico de Portugal – que celebrou 100 anos de vida em dezembro passado, de forma discreta devido à pandemia - e a segunda mais antiga da Europa, começou pela produção de mobiliário doméstico, como camas de ferro e lavatórios. Rapidamente, porém, a atividade se alargou ao mobiliário hospitalar. Em 1940 já era uma marca bem posicionada nas duas áreas: hospitalar e esplanadas.

Desde o início da atividade da empresa que se encontra a cadeira ‘modelo 5008’, a “Cadeira Portuguesa, original, feita integralmente em aço”. E embora não haja uma data exata do ‘nascimento da cadeira’, há dados em arquivo, como fotos, que provam ter nascido na década de 30. “No final desta década já existia, e isso podemos dizer com segurança absoluta”, destaca Miguel Carvalho.

“Esta cadeira, símbolo das esplanadas portuguesas, terá inspiração nos modelos da Bauhaus dos anos 20, ou do modelo do francês René Herbst (1928)”, diz. 

Acrescenta, “as características mais marcantes da Cadeira Portuguesa são a intemporalidade do seu design, a simplicidade das suas linhas, o seu conforto e a sua durabilidade”.  É, por isso, que esta peça se tornou um clássico no mobiliário português. Um verdadeiro ícone nacional pela sua longevidade. 

Esplanada à beira-rio
Adico

Um case study do design nacional e da nossa portugalidade

“É a conjugação de todos estes atributos que posicionam hoje a Cadeira Portuguesa como um case study do design nacional e um elemento central da nossa portugalidade”, afirma o responsável.

Isto porque, não há registo de muitos objetos que tenham sobrevivido 90 anos com a atualidade e a modernidade da Cadeira Portuguesa. “Ao longo destas nove décadas de existência, o modelo tem sofrido ligeiras alterações mais em termos de materiais (com o lançamento da cadeira em alumínio e em polipropileno), do que no design”, destaca. 

Frisa ainda que as poucas variáveis introduzidas prendem-se com as opções em termos de tampo, que pode ser feito em aço, em madeira ou em ripas de madeira. Tendo em conta as características de alguns mercados, o modelo é ligeiramente ajustado, por exemplo, e a título de curiosidade, a Cadeira Portuguesa para alguns países do norte da europa tem uma altura ligeiramente diferente (mais 5 cm) dada a estatura média dos nórdicos.

Adico marca presença pelo mundo fora

A marca está presente de norte a sul do nosso país e um pouco por todo o mundo, sendo de registar o aumento da procura interna, mas também nos mercados externos. 

Em 2020, as exportações tiveram um peso global de cerca de 22% na faturação da Adico. Atualmente está presente em mais de 30 países, entre os quais se destacam França, Espanha, Itália, Bélgica, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Malta, Japão, Coreia do Sul, EUA, Austrália entre outros. 

“Os nossos mercados de proximidade, Espanha e França, contribuíram com cerca de 30% do valor total das exportações. O seu peso tem vindo a crescer de uma forma consistente e de acordo com as nossas previsões”, diz o seu responsável.

Afirma, “queremos, nos próximos anos, fazer uma aposta clara na internacionalização dos nossos produtos com especial enfoque no mercado dos EUA, onde já estamos presentes em alguns espaços e lojas, mas pretendemos reforçar”. 

Uma grande parte dos clientes da Adico vem da área da hotelaria e da restauração. Apesar destes setores terem sofrido um forte impacto devido à pandemia, a situação foi compensada pela “grande aposta e por um aumento da procura por mobiliário outdoor, um dos nossos setores primordiais de atividade”. 

As perspetivas de negócio para este ano

“Para 2021 queremos continuar a crescer de forma estruturada e sustentada nos diferentes mercados onde estamos representados. As previsões apontam para um crescimento na ordem dos 10%”, adianta o gestor

Sobre os desafios que se colocam a esta marca centenária, Miguel Carvalho mostra grande confiança. “Estamos a desenhar o futuro da Adico. Estamos muito confiantes no futuro da Adico e nos enormes desafios que se nos vão colocar”. Reforça, “temos a certeza de que estamos preparados para mais 100 anos de enormes sucessos”.

Para o responsável, a inovação está no ADN da Adico e, como tal, estão constantemente a auscultar o mercado para que possam desenhar e oferecer as soluções mais ajustadas às suas necessidades.

É que, na sua opinião, “a tradição da Adico é o mobiliário outdoor, sobretudo pela resistência e durabilidade dos materiais, mas também pelo design e tecnologia com os quais nos temos distinguido no mercado nacional e internacional”. Assim, a partir da década de 90 e até aos dias de hoje, a empresa tem concentrado esforços no desenvolvimento de novas linhas de mobiliário para indoor e outdoor. 

Cadeiras de esplanada
Adico

“Mais de 100 modelos diferentes de peças de mobiliário metálico”

Atualmente, a Adico produz e comercializa mais de 100 modelos diferentes de peças de mobiliário metálico para interior e exterior, estando as suas linhas divididas por Outdoor, Indoor e Clássicos.

Este ano, a propósito do centenário da empresa, a marca vai lançar uma nova coleção indoor, mas também alargar a oferta da gama de produtos para outdoor. Diz, “queremos ser reconhecidos como ‘a marca’ de mobiliário metálico em Portugal e na Europa e continuar a ‘desenhar’ o próximo centenário”.

Destaca, por fim, a forma rápida e ágil como os diferentes setores de atividade se reajustaram, quase de um dia para o outro, a toda uma nova realidade que resultou do surto pandémico. “A Adico, tal como grande parte da estrutura produtiva do país, não interrompeu nunca a sua produção no período de emergência”.

Esta situação, reforça Miguel Carvalho, “só foi possível graças à dedicação, ao empenho, ao profissionalismo e até à coragem dos seus colaboradores que nunca baixaram os braços e mantiveram sempre a empresa operacional”.