O arquiteto do atelier Orgânica Arquitectura defende a responsabilidade necessária porque cada projeto "é cultura, é memória, é futuro".
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Esta é uma conversa sobre sensibilidade, responsabilidade e respeito. É desta forma que Paulo Serôdio vê a profissão pela qual continua apaixonado, mesmo nos dias difíceis em que volta aos livros para recordar a essência da arquitetura.

A Orgânica Arquitectura, fundada em 2006 em conjunto com Teresa Courela, desenvolve um trabalho num atelier que se distingue pela clareza prática e pela atenção ao valor histórico e emocional dos espaços. Exemplo disso é o novo Hotel Palmira, um projeto nascido em Lisboa, na Rua Palmira, em pleno bairro de Arroios, num edifício de habitação do início do século XX. Ou a requalificação das minas da Urgeiriça.

"O arquiteto é alguém que transforma: muda a paisagem, a sociedade." Seja na reabilitação, na reinterpretação, ou na modernidade. Sempre com um profundo sentido de identidade e território. Um "herói" que resolve, exactamente como Paulo Serôdio acreditou na infância quando se apaixonou pela arquitetura.

Duas Casas na Calçada dos Mestres
Duas Casas na Calçada dos Mestres Orgânica Arquitectura

O que o levou a escolher a arquitetura como profissão?

Curiosamente, foi por acaso. Os meus pais alugavam uma casa no Algarve, praticamente despida, mas com dois volumes do Bruno Zevi sobre a história da arquitetura. Eu era filho único, estava no secundário e aqueles livros tornaram-se a minha companhia. Foram a minha entrada intelectual na arquitetura. Mais tarde, consegui reencontrá-los num alfarrabista, paguei uma fortuna, mas eram já parte da minha história.

E para além dessa inspiração inicial, o que o fascinava nesta profissão?

A ideia de que não seria uma profissão padronizada, mecânica. Que estaria ligada às humanidades, às pessoas, às emoções. E também a visão quase juvenil do arquiteto como alguém que transforma: muda a paisagem, a sociedade. Havia a ideia do “herói” que resolve o que não está bem.

Hoje, passados tantos anos, ainda mantém essa essência?

Sim, mas com sacrifício. Continuo a ir buscar força aos livros, à cultura da arquitetura. Volto às humanidades, à paixão pelo transformar para melhor, seja esteticamente, seja no vivido.

Hotel Rua Palmira
Hotel Rua Palmira Orgânica Arquitectura

Falemos de projetos. Quais destacaria no seu percurso?

Felizmente, temos conseguido realizar projetos que nos orgulham: habitação a custos controlados, uma escola para o Politécnico de Leiria, a reabilitação das minas da Urgeiriça, e agora um centro de visitas em Castelo de Paiva, nas minas do Pejão. Também um pequeno espaço polifuncional em Sintra, num jardim romântico, que servirá para concertos, exposições, uma cafetaria.

Nota-se uma preocupação conceptual, de memória e significado.

Tudo o que construímos fica para além de nós. Não é só uma resposta imediata a uma necessidade. Pode ser uma casa, um monumento ou um equipamento público, mas fica inscrito na memória das pessoas e da cidade. Isso exige responsabilidade.

Reabilitação e Valorização das Antigas Minas da Urgeiriça
Reabilitação e Valorização das Antigas Minas da Urgeiriça Orgânica Arquitectura

Fala também de uma “maldição” da arquitetura. O que quer dizer?

A maldição é a paixão que nunca nos larga. Mas também o peso de um sistema cheio de regulamentos, muitas vezes importados de países com economias muito diferentes da nossa. Normas que aumentam custos, sem relação com a realidade portuguesa. A arquitetura corre o risco de ser encarada como simples produto de consumo, normalizado, certificado, mas sem desejo.

E os prémios, tantas vezes associados à profissão?

Têm dois lados. Ajudam a dar visibilidade, mas muitas vezes servem mais as marcas que os promovem do que a arquitetura em si. Há muito marketing envolvido, e às vezes a obra fica reduzida a uma imagem infeliz.

Reabilitação e Valorização das Antigas Minas da Urgeiriça
Reabilitação e Valorização das Antigas Minas da Urgeiriça Orgânica Arquitectura

Se não houvesse limitações, o que gostaria de construir?

Não acredito que a criatividade dependa da ausência de regras. As regras são o jogo. O problema é quando os diferentes intervenientes não têm visão para além delas. A arquitetura tem de acrescentar significado, ser verdadeira no seu tempo, para que daqui a 200 anos alguém olhe e reconheça que fomos capazes de criar com paixão e autenticidade.

O que falta então para que isso aconteça mais?

Tempo. Valorização dos projetos. Que os critérios não sejam apenas preço mais baixo, prazos curtos, promoções de supermercado. A arquitetura não é só construção. É mais do que isso: é cultura, é memória, é futuro.

Hotel Rua Palmira, Lisboa
Hotel Rua Palmira, Lisboa Orgânica Arquitectura
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