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Ribeiro Telles: o arquiteto que desenhou os jardins da Gulbenkian (e muito mais) morreu aos 98 anos

Figura pioneira na arquitetura paisagista em Portugal, os seus projetos moldaram de forma significativa a capital e a área metropolitana.

Wikimedia commons
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Autor: Lusa

O arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, figura pioneira na arquitetura paisagista em Portugal, morreu esta quarta-feira, dia 11 de novembro de 2020, em Lisboa, aos 98 anos, revelou à agência Lusa fonte próxima da família. O arquiteto, cuja carreira também se destacou na cidadania, ecologia e na política, faleceu em casa, rodeado pela família.

Nascido a 25 de maio de 1922, em Lisboa, Gonçalo Ribeiro Telles é autor de projetos relevantes em Lisboa, como os Corredores Verdes e os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. E detém um lugar central entre os pioneiros do urbanismo, em Portugal, na organização do território e na sua definição como espaço de habitação humana.

Foi um dos principais responsáveis pelo desenho das áreas verdes de Lisboa, de Monsanto às zonas ribeirinhas, oriental e ocidental, do Vale de Alcântara, ao Jardim Amália, no Parque Eduardo VII, sem esquecer o mais antigo Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, que fez em parceria com Viana Barreto, pelo qual recebeu o Prémio Valmor, em 1975, nem projetos noutras zonas do país, como o Vale das Abadias, na Figueira da Foz.

Grande defensor da proteção legal dos parques naturais, dos jardins e hortas urbanas, os seus projetos como arquiteto paisagista moldaram de forma significativa não só a capital, mas também a área metropolitana.

O Corredor Verde de Monsanto e a integração da zona ribeirinha oriental e ocidental na Estrutura Verde Principal de Lisboa, bem como os projetos da Radial de Benfica, do Vale de Chelas, e do Parque Periférico também são da sua autoria.

História de uma vida quase centenária

Gonçalo Pereira Ribeiro Telles licenciou-se em Engenharia Agrónoma, e formou-se em Arquitetura Paisagista, no Instituto Superior de Agronomia, onde iniciou a vida profissional como assistente e discípulo de Francisco Caldeira Cabral.

Foi professor catedrático convidado da Universidade de Évora, criando as licenciaturas em Arquitetura Paisagista e em Engenharia Biofísica, e destacou-se na intervenção pública contra o regime salazarista, nas sessões do Centro Nacional de Cultura, em Lisboa.

Ainda na política, fundou, em 1957, com Francisco Sousa Tavares, o Movimento dos Monárquicos Independentes e, depois, o Movimento dos Monárquicos Populares, apoiando, um ano mais tarde, a candidatura presidencial de Humberto Delgado.

Em 1969, foi candidato à Assembleia Nacional nas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD), a que estava associado Mário Soares, com a Acção Socialista Portuguesa.

Em 1971, ajudou a fundar o movimento Convergência Monárquica e, após o 25 de Abril, foi um dos fundadores do Partido Popular Monárquico, a cujo diretório presidiu, e que, em 1979, fez parte da Aliança Democrática, liderada por Francisco Sá Carneiro.

Foi subsecretário de Estado do Ambiente nos I, II e III Governos Provisórios, e secretário de Estado do Ambiente no I Governo Constitucional, foi deputado na Assembleia da República, pelo PPM (1979) e como independente eleito nas listas do PS (1985).

Foi ministro de Estado e da Qualidade de Vida, no VIII Governo Constitucional, de 1981 a 1983.

Durante a sua gestão, criou as zonas protegidas da Reserva Agrícola Nacional, a Reserva Ecológica Nacional, e lançou as bases do Plano Diretor Municipal de Lisboa.

Como deputado na Assembleia da Republica lutou pelo estabelecimento da Lei de Bases do Ambiente, da Lei da Regionalização, da Lei Condicionante da Plantação de Eucaliptos, da Lei dos Baldios, da Lei da Caça e da Lei do Impacte Ambiental.

Em 1984, já afastado do PPM, viria a criar o Movimento Alfacinha, para se candidatar à Câmara Municipal de Lisboa, tendo sido eleito vereador e, em 1993, o Movimento o Partido da Terra, cuja liderança abandonou em 2007.

O reconhecimento da obra

Em 2013, Gonçalo Ribeiro Telles foi distinguido com o 'Nobel' da Arquitetura Paisagista, o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe, que lhe seria atribuído em Auckland, na Nova Zelândia, pelos profissionais do setor, reunidos na Federação Internacional dos Arquitetos Paisagistas (IFLA).

O prémio tem como objetivo "reconhecer um arquiteto paisagista cuja obra e contribuições ao longo da vida tenham tido um impacto incomparável e duradoiro no bem-estar da sociedade e do ambiente, e na promoção da profissão".

O cineasta João Mário Grilo dirigiu "A Vossa Terra - paisagens de Gonçalo Ribeiro Teles", documentário sobre o arquiteto paisagista e a sua obra, estreado em 2016, no festival de cinema IndieLisboa.

Em junho, Lisboa inaugurou na antiga Casa dos 24, na rua da Fé, em Lisboa, a exposição o "Mester da Paisagem", dedicada ao arquiteto, percorrendo o seu pensamento e forma de trabalho.

Na Gulbenkian, o jardim serve de suporte ao Centro Interpretativo Gonçalo Ribeiro Telles.

Professor Honoris Causa pela Universidade de Évora e professor Emérito desta instituição, Gonçalo Ribeiro Telles foi distinguido com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, em 1969, com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, em 1988, com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, em 1990, e com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 2017.

Gostava de dar como exemplo os frescos de Ambrogio Lorenzetti, no Palácio Comunal de Siena, vindos do século XIII, com exemplos de “Bom Governo” e “Mau Governo”, na gestão e ordenamento das cidades.

No primeiro caso, sublinhava a imagem de uma cidade de portas abertas, numa comunicação entre o campo organizado e a urbe, com gente a entrar e a sair.

No segundo caso, a mesma cidade mas com as portas encerradas, como num grande condomínio fechado, e as representações da crueldade, da traição, da maldade, da vã glória e da soberba, lado a lado com o tirano.