Lês o folheto de um empreendimento de luxo, piscina, campo de golfe, spa, segurança permanente, e a meio da lista de comodidades aparece outra coisa: uma quinta a funcionar, uma vinha, ovos do galinheiro do condomínio, cestos de legumes apanhados nessa manhã.
Isto tem nome no mercado imobiliário internacional e começa a ganhar forma em Portugal. Chamam-lhe agrihood, da junção de "agriculture" com "neighborhood". O modelo explica-se em poucas palavras: em vez de se organizar à volta de um relvado e de um court de ténis, a urbanização organiza-se à volta de terra que produz. Mas atenção, aquilo que o cliente procura é a sensação de fazer parte do ecossistema, não o trabalho de o construir.
A quinta deixa de ser uma atividade económica para passar a ser aquilo a que se poderia chamar um ativo de experiência. Não está ali para dar lucro com a venda da produção, está ali para dar sentido ao sítio e para justificar o preço das casas.
Onde nasceu o conceito
O fenómeno nasceu e cresceu nos Estados Unidos. O Urban Land Institute, uma das organizações de referência na análise do imobiliário, acompanha estes projetos há anos e, num relatório de 2018, já contabilizava comunidades deste tipo em pelo menos 27 estados norte-americanos e províncias canadianas. Ed McMahon, investigador da instituição, resumiu a lógica numa frase que ficou: "trata-se de usar a agricultura como uma amenidade, da mesma forma que antes se usava uma piscina" - usufruiu do serviço e pagar pela manutenção.
Os exemplos mais conhecidos ajudam a perceber a escala:
Serenbe, na zona rural a sul de Atlanta, na Geórgia, ergueu-se à volta de uma quinta biológica de cerca de dez hectares, com mercado semanal e entregas de cabazes aos moradores. As casas chegaram a vender por valores muito acima da média da região, várias vezes superiores ao que custava o imobiliário em redor.
Agritopia, no Arizona, fez o caminho inverso ao habitual: uma família de agricultores, em vez de vender a propriedade à especulação imobiliária quando a cidade de Phoenix se aproximou, transformou-a numa comunidade de várias centenas de casas com uma horta biológica ao centro e uma loja de produtos que funciona na base da confiança.
Willowsford, na Virgínia, foi mais longe em dimensão, com centenas de hectares de terra agrícola e uma equipa contratada só para organizar a vida no campo, das aulas de cozinha às corridas de bicicleta.
Porquê agora?
A explicação não está só no imobiliário, está em como mudou aquilo que as pessoas com dinheiro procuram. Durante décadas, o luxo mediu-se por consumo e agora define-se pelas experiências - comida fresca, contacto com a natureza, vida ao ar livre, a sensação de pertencer a uma comunidade e de estar perto da terra.
O movimento da "comida de proximidade", ou seja privilegiar produtos de produtores locais, regionais, começou por transformar restaurantes de grandes chefes, mas amplifou-se. A expressão carrega normalmente algumas ideias associadas:
- Frescura e a sazonalidade, quem compra perto tende a comer aquilo que está na época, colhido há pouco tempo, sem longas cadeias de transporte e armazenamento.
- Pegada ambiental, menos transporte significa menos emissões, daí a ligação frequente ao discurso da sustentabilidade.
- Economia local, comprar a quem produz por perto mantém o dinheiro a circular na comunidade e ajuda os pequenos produtores.
- Relação e a confiança, há uma componente de conhecer a origem, saber quem produz, ter uma cadeia curta entre o campo e a mesa (o chamado "circuito curto").
A pandemia obrigou muita gente a reavaliar o que queria de uma casa e deu fôlego ao trabalho a partir de qualquer lugar, o que tornou possível viver longe dos centros sem abdicar da carreira. E há um cansaço evidente face à vida urbana, que faz com que o campo passe a ser lido como privilégio.
As versões portuguesas que já existem
Os exemplos em Portugal assentam nas tradições portuguesa que o resto do mundo agora redescobre como tendência: o agroturismo, as herdades, o montado de sobro e azinho, a cultura da vinha e do azeite fazem parte da nossa paisagem há séculos. O que mudou foi o enquadramento: aquilo que era a vida normal de uma propriedade agrícola passa a ser embalado e vendido como estilo de vida premium, sobretudo a estrangeiros e a portugueses das cidades à procura de uma segunda casa no Alentejo ou junto a Comporta.
A cultura do vinho no Alentejo
Em Portugal, o exemplo mais claro e mais antigo deste raciocínio é o L'AND Vineyards, em Montemor-o-Novo, a pouco mais de uma hora de Lisboa. O projeto da família Cunhal Sendim, na Herdade das Valadas, foi apresentado como o primeiro condomínio do vinho do país. A lógica é exatamente a do agrihood, traduzida para a paisagem alentejana. Cada villa tem a sua própria vinha, e os proprietários podem inscrever-se no clube de vinho da propriedade para produzir, todos os anos, o seu lote pessoal na adega, com o apoio da equipa de enologia, na ordem das cem a cento e vinte garrafas.
"O projeto resulta de um convite, em 2005, de uma empresa familiar de produção vinícola e agroindustrial para conceber o master plan de um conceito inovador de resort, capaz de aliar a experiência rural da produção de vinho e azeite às comodidades de um destino de lazer", explica o gabinete de arquitetura responsável Promontório. "Com 66 hectares, o terreno situa-se em Montemor-o-Novo, no Alentejo, perto da cidade de Évora, classificada pela UNESCO. Implantado num vale suave virado a sul, com vista sobre a silhueta do castelo medieval da vila, o master plan foi pensado num sistema de villas agrupadas e casas em banda dispostas em socalcos, evocando os montes alentejanos", acrescentam.
Além de desenhar o master plan, o hotel, os apartamentos e um núcleo de villas, a Promontório foi convidada para a curadoria do convite a outros quatro ateliers para projetarem os restantes núcleos de villas, a saber: Peter Märkli, de Zurique, Sergison Bates, de Londres, Carrilho da Graça, de Lisboa, e José Paulo dos Santos, do Porto. O atelier lisboeta de Diogo Seixas Lopes e Patrícia Barbas atuou como arquiteto local de Peter Märkli e projetou o edifício do escritório de vendas e showroom do empreendimento. E há gestos que transformam a casa em instrumento de paisagem: as sky suites têm claraboias colocadas por cima das camas, para se adormecer sob o céu estrelado do Alentejo.
Apanhar laranjas algarvias e aprender jardinagem
No Algarve, o Ombria Resort, nas colinas de Loulé, é uma propriedade de 150 hectares, rodeada por extensos pomares de citrinos, figueiras e alfarrobeiras, pequenas explorações agrícolas e aldeias. À volta das casas, vendidas como residências de marca com serviço de hotelaria, há laranjais, figueiras, um viveiro de plantas próprio e uma cozinha que se abastece em produtores locais. Os moradores e hóspedes são convidados a entrar na coreografia - oficinas de olaria e de fabrico de pão, provas de azeite, observação de aves e visitas às aldeias vizinhas.
Nas palavras do atelier Promontório: "os volumes simples de cobertura de duas águas, que constituem a maior parte do conjunto, inspiram-se nas aldeias e lugarejos caiados do Algarve. O embasamento do piso térreo, construído com uma técnica de taipa em betão pigmentado à vista, reduz a altura aparente de 3 para 2 pisos. O recurso a elementos decorativos, como azulejos feitos à mão e chaminés de terracota, além de corrimãos e balaustradas em metal forjado. De ornamentação contida, busca inspiração em nomes como José Luis Fernández del Amo, Gio Ponti, Piero Portaluppi, Fernand Pouillon ou Rudolf Olgiati, procurando conciliar uma expressividade contemporânea com as inflexões regionais trazidas pela cultura, pela paisagem e pelo clima".
O resultado distribui-se por cerca de duas dezenas de edifícios em redor de uma praça central, ligados por caminhos de calçada portuguesa entre alfarrobeiras, citrinos e figueiras, com um campanário a marcar o centro da aldeia.








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