Notícias sobre o mercado imobiliário e economia

"Não estamos no 'toca e foge'. Estamos para ficar", garante a Helpo

Autores: Dírcia Lopes (colaborador do idealista news), César Passinhas (colaborador do idealista news)

Na Helpo dar um passo maior do que as pernas está fora do radar de atuação. O presidente da ONGD, António Perez Metelo, garante em entrevista ao idealista/news que a maior parte do financiamento para os projetos em que a associação está envolvida, 60%, depende das contribuições da rede de padrinhos e madrinhas que vai conquistando ao longo dos anos.

O resto do dinheiro - e esta componente tem vindo a crescer à medida que o trabalho é conhecido e valorizado por outras organizações internacionais - “vamos candidatando e obtendo financiamento. Por outro lado, também vamos tendo doações livres de particulares e de empresas”, explica o responsável.

E aponta como exemplo a parceria criada, recentemente, com a Galp Energia (envolvida na extração de gás natural na Bacia do Rovuma), "através da qual financiam um conjunto de meninos no secundário para que possam continuar a estudar”. É com base nesta estratégia que reforça que “o nosso princípio é nunca dar um passo maior que a perna. Não temos dívidas. Temos um fundo modesto, mas suficiente para uma emergência”. Na hora de tomar decisões, o fio condutor é ir “expandindo e retificando as nossas práticas em todas as componentes da nossa ação ao nível escolar e nutricional infantil fazendo uma avaliação daquilo que vamos fazendo”. 

Helpo
Helpo

As receitas com que a Helpo se cose 

  • No ano passado, as receitas rondaram 1,3 milhões de euros  
  • 80% deste valor tem de chegar em bens e serviços aos beneficiários 
  • Os restantes 20% serão para as despesas de ‘backoffice’ indispensáveis para que tudo funcione 
  • Este ano recebeu 132 mil euros de contribuintes que consignaram 0,5% do seu IRS 

IRS ajuda cada vez mais

As contribuições via IRS começaram com valores modestos, mas há seis anos que têm dado o salto. Este ano “recebemos 132 mil euros de contribuintes que consignaram 0,5% do seu IRS com o objetivo específico de construirmos salas de aula”, contabiliza António Perez Metelo.  

Helpo
Helpo

E lembra que um euro em Moçambique vale muito mais em termos reais. “Uma contribuição de 70 cêntimos por dia, 21 euros por mês, de cada padrinho não tem comparação num país onde as pessoas ganham, em média, 20 vezes menos que os portugueses”. Por isso, conclui que “com pouco dinheiro, com poucas verbas individuais mudamos a vida das pessoas. E de ano para ano estamos a ajudar mais". 

Caminhar, sem dar passos maior que as pernas

E para provar que ponderação é quem mais ordena na Helpo, António Perez Metelo sublinha que “hoje temos ambições e ideias que não conseguimos por em prática por falta de base financeira”. Por exemplo, a ONGD “gostaria de ter uma ação mais importante do ponto de vista da qualidade do ensino da língua portuguesa, que é, como costumo dizer, para comer, é a saída. A formação profissional ou académica é a saída da ratoeira da pobreza”. 

Construir mais salas de aula para responder ao facto de cada turma em Moçambique ter 60 alunos é outro objetivo que poderia ser concretizado se houvesse mais base financeira. “O investimento numa sala representa uma melhoria significativa para 150 meninos", diz o mesmo responsável.  

Pelas contas do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH), faltam cerca de 35 mil salas de aula em alvenaria em Moçambique. “As nossas 67 salas em alvenaria e as 48 salas em materiais tradicionais, reforçados, são uma parte muito pequenina. Mas é aquilo que a cada ano vamos conseguindo fazer”, diz o presidente da Helpo. 

Helpo
Helpo

Equipar mais escolas secundárias que não têm livros seria outra meta, tal como já faz ao disponibilizar manuais escolares moçambicanos do 8º ao 12º ano para as bibliotecas escolares. 

Uma das conquistas recentes foi conseguir oferecer, através da parceria com a empresa Mozambikes, bicicletas aos meninos que têm de andar durante duas horas para chegar à escola secundária. 

Futuro passa por fazer mais e melhor 

O futuro da Helpo irá passar pela especialização naquilo que faz bem. Esta é a convicção do presidente da associação, que acredita que deve haver “a noção nas populações que nós não estamos no “toca e foge”. "Não estamos numa ação pontual, estamos para ficar e para continuar a apoia-los e ir reforçando aquilo que fazemos bem”.  

Uma das metas de futuro tem em mente as meninas que acabam por ter uma vida muito mais difícil do que os rapazes, já que quando se tornam férteis estão em idade de casar. “O pensamento tradicional não está ligado à valorização profissional das meninas da mesma maneira que os rapazes. E por isso temos de apoiá-las”, diz António Perez Metelo. Para isso, a Helpo tem uma linha de trabalho chamada “Maria Menina” dedicada ao seu apoio. 

Helpo
Helpo

Repto às empresas para ajudarem mais nesta luta

Mas o presidente da Helpo não esconde que, no futuro, gostaria que mais entidades se juntassem à ONGD para, em conjunto, fazer mais para reforçar a escolarização obrigatória. Para lutar contra o absentismo, melhorar a qualidade do ensino do português e trazer mais meninos e meninas até ao seu potencial para que possam viver os sonhos de vir a ter uma vida melhor. 

Carlos Almeida confirma a meta de se conseguir fazer mais no futuro. “Queremos chegar a mais crianças e jovens e fazê-los estudar mais tempo e com mais qualidade, com principal destaque para as raparigas”. No caso das meninas realça que, se estudarem mais tempo e com mais qualidade, serão mães mais tarde e com mais consciência e com conhecimento poderão vir a ser a verdadeira alavanca para a melhoria de todo o país. 

“Queremos ser aposta de empresas que queiram fazer Responsabilidade Social Corporativa com quem conhece o terreno e investe na educação, onde a semente pode gerar frutos em todas as áreas”, conclui o coordenador da Helpo em Moçambique.   

Presença em São Tomé e Príncipe e Guiné Bissau  

Helpo
Helpo

Em São Tomé e Príncipe, a Helpo está presente há cerca de nove anos onde já fez a reconstrução de creches e apoia na instrução com cursos escolares.  

A ONGD tem no terreno o PANMI - Programa de Acompanhamento Nutricional Materno Infantil, em Cantagalo, onde já houve redução significativa de crianças com desnutrição aguda. 

Criou com o Ministério da Saúde e profissionais de saúde uma rede de visita às comunidades no distrito de Cantagalo, consultas de nutrição e internamento nos casos de desnutrição grave aguda. O objetivo é replicar esta iniciativa no distrito de Caué e, mais tarde, também em Lembá.  

Na Guiné Bissau a presença é mais pequena, mas está em parceria com a ONGD Vida que trabalha em São Domingos, a atuar no setor da saúde. Neste momento, está a avaliar qual será a próxima etapa da ação neste país.