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A mão portuguesa que ajuda a construir saídas da pobreza em África

Helpo
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Autor: Dírcia Lopes (colaborador do idealista news)

José (nome fictício), muitas vezes com fome, pedala quilómetros diariamente, em terra batida, para chegar à escola e voltar depois a casa. Antes ia a pé... Na sua tenra e curta idade sabe que o esforço vale a pena. É o trampolim - o seu e o de dezenas de milhares de outros meninos - para tentar escapar à ratoeira da pobreza, em que vive a grande parte da população moçambicana. A escola onde estuda José é uma das cerca de 70 que foram já construídas no país pela Helpo, uma Organização Não Governamental de Desenvolvimento (ONGD) portuguesa, que se dedica à promoção da escolarização e educação de crianças, desde o pré-primário, e da boa nutrição materno infantil.

Helpo
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Fundada em 2008 por Joana Lopes Clemente, que já tinha experiência de intervenção na política de desenvolvimento, a Associação Helpo nasceu da junção de um grupo de amigos e companheiros de universidade com pouco mais de 20 anos, sem qualquer ânimo político, ideológico ou religioso.

Criada então com a missão de apadrinhar crianças à distância, sem as tirar do seu contexto e em consonância com as políticas oficiais locais, a Helpo tem vindo a crescer - e a ser reconhecida - contando hoje com quatro mil padrinhos e madrinhas, que contribuem, todos os meses, para um afilhado que ajudam a progredir nos estudos, até o mais longe possível. Além das escolas, já construiu para ajudar a este propósito 16 bibliotecas em Moçambique.

Helpo atua em 101 focos de intervenção

  • Construção de escolas
  • Bibliotecas
  • Creches
  • Centros de nutrição
  • Cantinas escolares
  • Sistemas de aproveitamento de águas pluviais
  • Formação comunitária
  • Educação para a saúde
  • Assistência
  • Formação contínua

Sem dívidas e com dinheiros públicos só em casos pontuais

“Passados 11 anos temos 35 pontos de trabalho concretos. Temos um conjunto importante de comunidades no Norte de Moçambique nas províncias de Nampula e Cabo Delgado”, detalha em entrevista ao idealista/news o presidente da Helpo, António Perez Metelo, destacando que a ação da Helpo já se estendeu, entretanto, também a São Tomé e Príncipe e mais recentemente a Guiné Bissau.

Helpo
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Dependente quase exclusivamente de si própria no que se refere a financiamentos, o presidente da associação sublinha que não dependem do Orçamento do Estado para levar a bom porto a sua missão. “Só temos dinheiro público para os projetos aos quais nos candidatamos. A esmagadora maioria dos nossos rendimentos, e que permite a nossa ação, vem dos padrinhos, dos amigos, das empresas que fazem doações. E também de projetos financiados por entidades nacionais e internacionais”, diz o mesmo responsável.

António Perez Metelo, antigo jornalista, reconhece que “estamos cercados de um oceano de dificuldades que não são nossas, mas dos nossos meninos e das comunidades onde estamos, que enfrentam a extrema pobreza que assola Moçambique”. E lembra que a escolaridade obrigatória e gratuita são sete anos, mas muitas crianças não têm uma sala de aula e estudam debaixo de uma árvore. Em tempo de chuvas não há aulas. É aqui que a Helpo intervém e constrói, nada mais, nada menos, do que salas de aula para dar um ambiente protegido aos alunos.

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Como se constróem estas escolas?

O coordenador da Helpo Moçambique, Carlos Almeida, conta, por sua vez, ao idealista/news que a Helpo já construiu 67 salas de aulas no norte de Moçambique, nas províncias de Nampula e Cabo Delgado. Para tal, “utiliza nas suas construções uma máquina de origem sul-africana, chamada Hydraform, que permite fazer blocos prensados de terra vermelha com uma baixa percentagem de cimento”.

A grande vantagem deste método, segundo o responsável, é que esses blocos têm um lado fêmea e um lado macho, que permite um encaixe que faz com que não se gaste cimento na junção dos blocos, fazendo baixar significativamente o custo da obra. Ao longo dos anos de existência o valor investido na construção de espaços “já ultrapassa claramente os 600.000 euros”, avança.

Quando as crianças terminam a primária chega o novo desafio de como continuar os estudos que deixam de ser gratuitos. Os miúdos dos meios rurais estão inseridos em famílias que não têm o equivalente a 35 euros para se inscreverem e comprar o uniforme escolar para prosseguirem os estudos no secundário. Mais uma vez a Helpo intervém.

Oportunidade agarrada pelos mais jovens

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“Dar cadernos, material escolar na primária, assegurar uma papa diária, construir salas de aula, fornecer coleções de manuais escolares no secundário. Tudo isto são ações essenciais para aumentar a capacidade e o acesso dos meninos que não têm nada”, tal como realça António Perez Metelo. Que lamenta ainda que “nada continuariam a ter e estariam metidos nesta ratoeira da pobreza e fariam aquilo que os pais e os avós e bisavós fizeram que é serem camponeses de subsistência em meio rural muito pobre”.

Graças à intervenção da ONGD, que tem a noção que a sua ação “é uma gota no oceano”, no ano passado, o conjunto das várias medidas que tem no terreno chegou a 57 mil crianças. No que se refere à progressão depois da primária, a Helpo apoiou através do programa Futuro Maior 18 jovens em 2012. Neste ano letivo, são 1.221 os beneficiários desta bolsa de estudo, quase 70 vezes mais.

Carlos Almeida acrescenta que “o que muitos jovens têm começado a perceber é que a Helpo é uma oportunidade no prosseguimento dos estudos, sobretudo na barreira grande que existe na passagem da escolaridade obrigatória, da 7ª para a 8ª classe, onde a entrada para o Ensino Secundário significa um grande desafio”.

O coordenador da Helpo em Moçambique diz que ter de suportar a deslocação para um sítio mais distante, o pagamento de uma propina e um uniforme obrigatório, “são coisas simples que muitas vezes fazem com que os meninos e as meninas deixem de estudar”.

E recorda que para as raparigas o cenário muda completamente, pois uma menina mesmo com 14 ou 15 anos está "pronta para casar" e o facto de não haver um grande investimento na educação é muitas vezes visto no número de gravidezes precoces e casamentos prematuros. “Aos poucos os jovens vão ganhando consciência para esse problema”, e preparam-se para ser, quem sabe, um dia futuros presidentes.

Uma dúzia de salas de aula construídas em 2018

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O coordenador da Helpo Moçambique sublinha que, no ano passado, a associação bateu recordes no número de salas de aula construídas, num total de 12. “Este ano já construímos uma e estamos, neste momento, a construir nove salas no distrito da Ilha de Moçambique, graças a um financiamento da Embaixada do Japão, tendo previstas mais seis até ao final do ano graças ao dinheiro recolhido na campanha dos 0,5% do IRS”.

Ainda há muitas escolas com défice de salas. Mas com a melhoria de infraestruturas o número de alunos tende a aumentar, pelo que é sempre preciso mais. Carlos Almeida destaca, a título de exemplo, a Escola Primária de Napacala que tinha 650 alunos em 2017. E hoje, passados dois anos e com a construção de cinco salas de aula de alvenaria, biblioteca e sala administrativa o número de alunos já ultrapassa os mil.

Escolas da Helpo sobreviveram à destruição dos ciclones

O passado mês de março ficou sob os holofotes do mundo com as notícias da devastação que o ciclone Idai trouxe a alguns países do continente africano, entre os quais Moçambique. O centro do país, sobretudo a cidade da Beira, foi onde a devastação foi maior e causou várias vítimas mortais. Quando ainda se contava as vítimas e estragos do Idai, outro ciclone, desta vez o Kenneth, entra em ação com um grau maior de violência: o Idai foi de grau 3 e o Kenneth de grau 4.

“Não era possível ficarmos quietos por não ser na nossa comunidade. Até porque passadas algumas semanas veio o ciclone Kenneth que caiu em cima de Cabo Delgado [onde se concentra a atividade da associação]. Reagimos com tudo o que podíamos”, relata o presidente da direção da Helpo, António Perez Metelo.

Entre organizar o transporte de 30 toneladas de bens de primeira necessidade para a Província de Manica, o envio de três nutricionistas e de um logístico para ajudar as populações, sobretudo crianças, sinistradas na emergência no centro de Moçambique, enviar contentores - foram quatro, num total de 101 toneladas de bens - para responder também ao desastre trazido pelos ventos de 220 quilómetros/hora do Kenneth são alguns dos exemplos da atuação da ONGD para minimizar o sofrimento de quem tudo perdeu em poucos dias.

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No meio da desgraça, houve pontos de esperança. Isto porque todas as 67 salas construídas em alvenaria pela Helpo “aguentaram bem". "As nossas escolas não estão danificadas”, realça António Perez Metelo. Mas outras que estão, por exemplo, na Ilha do Ibo (Norte de Moçambique) que sofreu com a passagem do Kenneth ficaram danificadas.

Face a este cenário, o Ministério da Educação e Desenvolvimento reportou a perda de 480 salas de aula na província de Cabo Delgado. E nas palavras do coordenador Nacional da Helpo em Moçambique, Carlos Almeida, a associação “já assumiu a reconstrução de 24 salas, em três escolas, Ancuabe, Macomia e Ibo”.