Esta tarde, milhares de pessoas em Portugal vão olhar para o céu para acompanhar o eclipse solar.
Em território continental, a ocultação do Sol será muito elevada, variando entre os 92% e os 100%, embora a totalidade só possa ser observada numa pequena área do Parque Natural de Montesinho, em Bragança. Em Viseu, por exemplo, a cobertura deverá rondar os 98%, enquanto na Madeira ficará próxima dos 80%.
No resto do país, haverá sempre uma parte do Sol visível e, por isso, olhar diretamente para o fenómeno sem proteção adequada continua a representar um risco para a visão e pode gerar danos oculares irreversíveis. Eis os cuidados de última hora para veres o eclipse solar com a máxima segurança.
O que acontece aos olhos quando olhas diretamente para um eclipse?
Durante um eclipse, o facto de grande parte do disco solar estar escondido pela Lua pode criar uma falsa sensação de segurança. No entanto, a parte do Sol que continua visível emite radiação suficientemente intensa para danificar a retina.
É precisamente por isso que o fenómeno não deve ser observado à vista desarmada nem com óculos de sol comuns. A lesão provocada pela exposição direta ao Sol é conhecida como retinopatia solar.
A retina, localizada no fundo do olho, contém os fotorrecetores responsáveis por transformar a luz em sinais que depois são interpretados pelo cérebro. Quando existe exposição solar intensa, estas estruturas podem ficar lesionadas, particularmente na região central responsável pela visão de detalhe.
A retina não sente dor, mas pode sofrer lesões graves
Um dos aspetos mais perigosos é precisamente a ausência de um aviso imediato. Podes olhar para o Sol, não sentir qualquer desconforto naquele instante e acreditar que não aconteceu nada.
A luz solar direta pode não provocar dor no momento, embora seja capaz de causar danos irreversíveis, incluindo manchas escuras, distorção da visão ou perda permanente de visão.
Seis segundos podem ser suficientes para fragilizar a visão
Um caso clínico registado depois do eclipse de 2017, nos Estados Unidos, mostra como uma exposição muito curta pode ter consequências. Uma jovem de 26 anos olhou diretamente para o Sol sem proteção durante cerca de seis segundos. Embora tenha utilizado posteriormente óculos de eclipse, acabou por desenvolver lesões compatíveis com retinopatia solar.
Os primeiros problemas surgiram algumas horas depois e os exames realizados nos dias seguintes revelaram alterações diferentes em cada olho. O mais afetado apresentava uma zona cega no centro do campo visual, menor sensibilidade da retina e alterações nos fotorrecetores, as células responsáveis pela captação da luz.
O caso é particularmente importante porque demonstra que não é necessário ficar vários minutos a olhar diretamente para o eclipse para haver risco. A duração exata capaz de provocar uma lesão varia, mas não existe um período de exposição direta que possa ser considerado uma aposta segura.
Prova disto mesmo é que, também durante o eclipse solar de 1999, as autoridades de saúde francesas registraram mais de 140 casos oficiais de lesões na retina devido à falta de uso de óculos de proteção adequados.
Que sintomas devem deixar-te em alerta?
As alterações nem sempre aparecem no momento em que olhas para o Sol. Podem tornar-se evidentes nas horas seguintes e afetar um olho de forma diferente do outro. Depois do eclipse, presta especial atenção a sinais como:
- Visão desfocada: ou redução da capacidade de ver detalhes;
- Mancha escura ou ponto cego: no centro da visão;
- Linhas retas que parecem onduladas: ou imagens distorcidas;
- Alterações na perceção das cores;
- Diferenças inesperadas: entre a visão dos dois olhos.
Se olhaste diretamente para o Sol e notas uma alteração persistente na visão, o mais prudente é procurar avaliação oftalmológica sem esperar que o problema desapareça por si só.
A Sociedade Portuguesa de Oftalmologia reforçou, antes do eclipse, a importância da proteção ocular e dos cuidados específicos necessários durante a observação do fenómeno.
Que óculos deves usar para ver o eclipse solar?
Os óculos de sol comuns não servem, mesmo que as lentes sejam muito escuras. Para olhar diretamente para as fases parciais do eclipse são necessários óculos próprios para observação solar, concebidos para reduzir a radiação solar a níveis seguros.
Como os óculos para observar o eclipse estão praticamente esgotados em Portugal e Espanha, confirma com atenção se os que tens oferecem a proteção adequada antes de os utilizares:
- Norma ISO 12312-2: devem cumprir esta norma internacional específica para a observação direta do Sol. As farmácias portuguesas já venderam 63.259 óculos;
- Marcação CE: verifica se está presente e devidamente identificada;
- Lentes em bom estado: não devem apresentar riscos, furos, rasgões ou outros danos;
- Fabricante ou importador identificado: a embalagem ou os próprios óculos devem indicar claramente quem os produziu ou comercializou;
- Informação de conformidade e utilização: confirma se incluem indicações sobre certificação e instruções para uma utilização segura.
Lembra-te de que colocar óculos de eclipse e depois olhar através de binóculos, telescópios ou uma câmara não é seguro. Estes equipamentos concentram a luz e precisam de filtros solares específicos colocados na parte frontal da ótica.
Como ver o eclipse desta tarde sem colocar os olhos em risco?
A regra é manter os óculos de eclipse sempre que olhares diretamente para o Sol. A percentagem de ocultação varia bastante consoante o ponto do país, sendo mais elevada no nordeste de Portugal continental e mais baixa nos arquipélagos:
- Parque Natural de Montesinho: 100%, numa pequena zona onde o eclipse será total;
- Bragança: cerca de 99,8%;
- Braga, Porto e Viseu: aproximadamente 98% a 99%;
- Aveiro e Coimbra: cerca de 97%;
- Lisboa e parte do Alentejo: aproximadamente 95% a 96%;
- Algarve: a ocultação desce para cerca de 92% a 93%. Em Faro, deverá rondar os 92,7%;
- Madeira e Açores: a cobertura ficará aproximadamente entre 74% e 77%, dependendo da ilha. No Funchal, deverá rondar os 77,4% e, em Ponta Delgada, os 76,9%.
A única exceção à utilização dos óculos acontece durante o breve período de totalidade, quando a Lua cobre completamente o disco solar. Em Portugal, isso ocorrerá apenas numa pequena área do Parque Natural de Montesinho e noutras cidades da Península Ibérica. Mesmo aí, os óculos só devem ser retirados quando o Sol estiver totalmente ocultado e têm de voltar a ser colocados assim que reapareça qualquer parte da superfície solar.
Se não tens óculos certificados, não improvises. Podes acompanhar o fenómeno do eclipse através de métodos de projeção indireta, sem olhar diretamente para o Sol, ou através do YouTube do Pavilhão do Conhecimento, Ciência Viva.
Como estará o tempo para ver o eclipse solar?
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê nebulosidade significativa ao longo da faixa costeira entre o Cabo Raso e Caminha, uma situação que poderá comprometer a visibilidade do eclipse solar desta quarta-feira e, em alguns locais do Norte e Centro, impedir mesmo a sua observação.
Mesmo assim, caso tenhas os óculos corretos, deverás fazer um esforço para te deslocares para um local com boa visibilidade, isto porque o próximo eclipse total do Sol visível em Portugal continental só acontecerá em 2144.
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