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Mítica pastelaria Suíça fecha em agosto - no quarteirão do Rossio comprado por Nadal

Estabelecimento, localizado na Praça D.Pedro IV da Baixa lisboeta, está aberto desde 1922
Estabelecimento, localizado na Praça D.Pedro IV da Baixa lisboeta, está aberto desde 1922
Autor: Redação

A funcionar desde 1922 - somando vários prémios pela qualidade dos seus bolos e servindo de palco a encontros políticos, intelectuais e da rotina social dos lisboetas e turistas ao longo de quase um século -, a emblemática pastelaria Suíça, em Lisboa, vai fechar as portas em agosto. A gerência decidiu renunciar ao espaço arrendado no Rossio, no quarteirão recentemente comprado, por 62 milhões de euros, pela Mabel Capital, (empresa espanhola em que Rafael Nadal participa como investidor), e para onde está projetado um hotel.

A notícia do fim da histórica pastelaria, que se confirmou nos últimos dias, tem vindo a gerar uma crescente onda de indignação na sociedade civil e levou o Fórum Cidadania Lx a escrever uma carta ao tenista espanhol, em jeito de sensibilização para a importância que a Suíça (e não só) tem na história da cidade.

“Estimado Rafael Nadal, não mate as nossas memórias”, diz a missiva escrita em castelhano, frisando que a sua “história na cidade é tão importante que não há ninguém em Lisboa que não saiba onde é o ‘Quarteirão da Suíça’”, segundo transcreve o Público.

Outras lojas históricas em risco no Rossio

Além da Suíça, localizada na Praça D.Pedro IV, no documento são referidas outras casas do quarteirão como a Pérola do Rossio (loja de renome de chá e cafés), a Casa da Sorte (apostas), a Ourivesaria Portugal, a Antiga Casa do Bacalhau, destacando que “todas estas lojas têm um grande valor para o investimento de Rafael Nadal em Lisboa, se essa (a salvaguarda destas lojas) for a sua decisão”, escrevem os cidadãos. 

Ao longo dos últimos anos, vários grupos imobiliários foram pedindo informações sobre o imóvel em causa. “Andaram sempre a pescar, até que o senhorio acabou por vender o prédio a este fundo”, por 62 milhões de euros, segundo conta o sócio-gerente da Suíça, Fausto Roxo, citado por vários meios de comunicação.

A pastelaria tem nove frações arrendadas, pelas quais paga cerca de 5.000 euros mensais, no âmbito de um contrato que vence no dia 31 de outubro de 2018. 

Roxo cedeu a Nadal devido à falta de negócio

O estabelecimento chegou a concorrer ao programa municipal “Lojas com História”, com uma candidatura apresentada a 20 de julho de 2017, mas acabou por desistir de receber tal classificação depois de ter iniciado negociações com o novo senhorio “no sentido de chegar a acordo para cessar atividade”, indica, por outro lado, o vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Duarte Cordeiro.

“Sucede que, desde o momento da aludida candidatura até à presente data, ocorreram várias vicissitudes que tiveram, e têm tido, um impacto negativo na exploração comercial da Pastelaria Suíça, impossibilitando a sua viabilidade, subsistência e continuidade no futuro”, refere uma carta, assinada por Fausto Roxo, enviada à autarquia da capital com data de 15 de junho de 2018.

Por isso, continua o texto, os proprietários do negócio desistiram do processo de candidatura a esta classificação, “dado que o mesmo deixou de se justificar”, lê-se no documento citado pela Lusa.

Na decisão de fechar pesaram as obras nas fachadas voltadas para Praça da Figueira, que, segundo Roxo (de 92 anos), têm complicado o negócio, nos últimos dois anos, como nunca. “Atualmente fazemos 50% da receita que fazíamos” e, "já não estamos a conseguir suportar os encargos. Como temos que indemnizar os empregados, resolvemos aceitar a oferta do senhorio e fechar já", acrescenta o responsável.

Suíça ao seu estilo dos 60 seria "ideal para o futuro hotel de Nadal"

Prestes a cumprir um século, a pastelaria foi ponto de encontro de intelectuais judeus que fugiam da II Guerra Mundial, como Peggy Guggenheim, Max Ernst, Hannah Arendt, que pararam em Lisboa antes de conseguirem chegar aos Estados Unidos. Anos depois, também Orson Welles, Maria Callas e Edward Kennedy ali foram clientes, escreve o Fórum Cidadania, que acredita ainda que se a Suíça for recuperada à imagem do que foi nas décadas de 1960 e de 1970, “será o espaço ideal para o futuro hotel de Nadal em Lisboa, uma referência de que este necessita".

O Fórum Cidadania pede ainda que se recuperem os edifícios e se preservem as mansardas pombalinas. No final, deixam ainda uma crítica à intervenção feita na fachada do edifício que está voltada para a Praça da Figueira: “Aproveitamos também para lhe pedir que mande retirar, rapidamente, das fachadas dos edifícios os azulejos horríveis que foram colocados e lhes sejam devolvidas as paredes pintadas como sempre foram e assim era apanágio do pós-terramoto de 1755”. 

Lisboa tem mais de 120 estabelecimentos protegidos

Da lista inicial de 47 lojas propostas nesta candidatura a lojas históricas, 44 chegaram ao fim do processo e vão gozar de algumas proteções especiais. No quarteirão em que fica a Pastelaria Suíça há duas novas Lojas com História: a Casa da Sorte e a Ourivesaria Portugal. Na lista estão ainda restaurantes como o Gambrinus, o Vá-Vá, o Senhor Vinho, a Bota Alta ou o Laurentina, a ervanária Rosil, a espingaradaria Belga, a loja de desporto Casa Senna, a livraria Barata e a papelaria Fernandes, entre outras.

No total, a capital conta agora com um total de 126 estabelecimentos distinguidos, aos quais se juntam 19 oficinas e unidades de produção tradicionais que também estão protegidas.