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Holanda: mais de 100 mil casas danificadas pela lucrativa exploração de gás de Groningen

Annemarie e Albert, donos de uma quinta desfeita, estão entre as muitas vitimas deste fenómeno / Tiago Carrasco, Observador
Annemarie e Albert, donos de uma quinta desfeita, estão entre as muitas vitimas deste fenómeno / Tiago Carrasco, Observador
Autor: Redação

A Holanda - cujas eleições de hoje, opondo a extrema direita e os conservadores, marcam o pontapé inicial do calendário eleitoral de um ano-chave para a Europa -, é o maior produtor europeu de gás natural. E Groningen, uma zona agrícola e verdejante longe das cosmopolitas Amesterdão e Haia, é a jóia da coroa. Alberga uma das reservas mais lucrativas do mundo, que rende cerca de um milhão de euros por hora a Haia e muitos dos edifícios e serviços públicos do país foram financiados com esta receita. Mas há um lado negro neste negócio: a exploração de gás natural está a provocar tremores de terra que já danificaram 100 mil casas e este tema está a incendiar o debate político.

A professora Annemarie Heite e o seu marido, Albert, estão entre as muitas vitimas deste fenómeno. Há sete anos compraram uma quinta tradicional do século XIX na vasta planície verdejante a norte de Groningen, onde planeavam viver o resto da vida e criar as suas duas filhas. Hoje, no preciso local onde esse sonho foi edificado, não mais nada do que umas fundações de ferro e areia revoltada. A quinta foi demolida.

“Quando vives num país como a Holanda, não estás à espera de ficar desamparado quando alguma coisa corre mal”, desabafa Annemarie ao jornal online, garantindo, no entanto, que foi isso mesmo que aconteceu. "O governo abandonou completamente esta região e os seus habitantes. Acabaram-se os planos, os passatempos e a estabilidade. A vida deixou de nos pertencer”.

A menos de duas semanas das eleições, o primeiro-ministro holandês Mark Rutte foi confrontado num programa de debate político por furiosos habitantes de Groningen. O chefe de governo perdeu a calma, sem conseguir explicar a falta de reparação para com as vítimas de um desastre ecológico que, provou o Dutch Safety Board, era desde o primeiro dia da extração do conhecimento do governo e da empresa petrolífera NAM (detida pela Shell e Exxon Mobil e onde o governo holandês detém 40%).

NAM extrai 4 vezes mais gás natural do que devia

O aquecimento de 13 milhões de casas na Europa Ocidental está atualmente dependente dos recursos do subsolo do norte da Holanda. A exploração controlada desta reserva de gás durou quatro décadas, mas a crise financeira de 2008 veio mudar este cenário e o nível de sustentabilidade passou a ser ignorado. Em 2013 a NAM estava a extrair quatro vezes mais do que os 12 mil milhões de m3 anuais recomendados. 

E à medida que o tempo vai passando, mais fendas se abrem e mais fazendas vão ao chão: a folha de indemnizações da NAM já vai num valor estimado em 20 mil milhões de euros, um rombo para o governo holandês e para o setor energético europeu.

Groningen, segundo conta ainda o Observador, não assenta sobre qualquer falha tectónica e jamais houvera registos sísmicos antes da chegada da Shell e da Exxon Mobil. Desde 1992 a província assinalou a ocorrência de mais de mil pequenos terramotos, com intensidades entre os 0.1 e os 3.6 e os estudos chegaram rapidamente a uma conclusão: os abalos são causados por dedo humano.

E, se um tremor de terra de 3.6 não causa muito transtorno, vários pequenos terramotos vão lentamente desgastando a superfície terrestre e as casas. “Quando se extrai gás, altera-se a pressão nos reservatórios, o que causa a compactação da camada de arenito. Isso provoca terramotos”, explica Manuel Sintubin, professor de geodinâmica de Leuven, na Bélgica, citado pelo jornal.

Como o fenómeno acontece a apenas 3km de profundidade e a maioria das casas de Groningen são feitas de pedra argilosa, os abanões terrestres têm mais impacto do que a sua intensidade pode sugerir: o departamento jurídico da NAM já recebeu 100 mil queixas por estragos em casas.

Tiago Carrasco, Observador
Tiago Carrasco, Observador