Com a chegada de um novo ano, muitas pessoas prometem renovar a casa e libertar espaço – mas entre a intenção e a execução vai uma grande distância. A meta de organizar o lar e eliminar a desordem, habitual nas listas de resoluções de ano novo, raramente se transforma num plano de ação concreto.
Para compreender os principais obstáculos e descobrir como transformar a vontade em resultado, o idealista/news conversou com Sarah Baccenetti, organizadora profissional e especialista em 'decluttering', que partilha estratégias para conquistar mais espaço em casa sem stress.
Porque é que organizar os espaços em casa surge como uma necessidade tão generalizada? E porque se fala tanto disso?
A sua popularização moderna deve-se em grande parte ao Feng Shui, a antiga prática oriental que ensina a harmonizar os espaços para melhorar o fluxo de energia e o bem-estar diário. A esta visão juntou-se, nos anos 70, o Space Clearing, uma abordagem que trabalha a qualidade energética dos ambientes, promovendo leveza, ordem e a sensação de uma casa mais livre e cheia de vitalidade.
Hoje, este conceito continua a evoluir: já não é apenas uma tendência, mas uma escolha de bem-estar pessoal, sustentabilidade e cuidado com o teu dia a dia.
O fenómeno acabou por explodir a nível global graças a Marie Kondo que, com os seus livros e a série da Netflix, transformou a arrumação num método reconhecível e ao alcance de todos.
Porque é tão difícil começar?
As razões são muitas e, como professional organizer, posso senti-las todos os dias. Uma das mais comuns é a procrastinação: adiar constantemente transforma-se no “Faço quando tiver tempo”, que na realidade significa… “Nunca!”. Outro obstáculo é a dificuldade em desapegar-te daquilo que enche os teus armários, aliada à falta de um guia ou de uma metodologia clara.
De forma mais geral, os objetos, tal como a roupa, muitas vezes são uma recordação, por isso, tornam-se aliados preciosos para conservar a tua “história pessoal” e levá-la contigo todos os dias.
Não conseguir “deixar ir” uma peça de roupa ou um objeto pode ter um significado inconsciente, escondendo um “medo do futuro” ou o receio de perder ou não voltar a viver as emoções do passado.
Por vezes, podes sentir-te desmotivado pelo valor económico do objeto a eliminar ou, no caso de um presente, pelo receio do que a pessoa que te ofereceu possa pensar. Inconscientemente, surgem culpas que “obrigam-te” a guardar o objeto, mesmo que este esteja a ocupar espaço e a acumular pó num armário há mais de 15 anos. A resposta mais frequente à pergunta é, portanto, simples: atribuímos inconscientemente um valor emocional aos objetos que nos rodeiam.
O que se entende por valor emocional dos objetos?
Os exemplos são infinitos. Em resumo, podes definir o valor emocional como aquilo que um determinado objeto representa para ti, não o seu valor económico nem a sua função prática.
A lista pode ser muito longa: uma peça de roupa guardada no armário porque te lembra um período feliz da tua vida, a caneta com que assinaste a escritura da tua primeira casa, o equipamento de ginásio ou um objeto nunca usado, mas que pertenceu a alguém especial.
Os objetos que enchem a casa funcionam como a tua “manta de Linus” e, mesmo sem os usares, continuam a sobrecarregar a tua mente com ligações afetivas, muitas vezes inconscientes.
Nos momentos mais difíceis, lembra-te dos benefícios de uma boa organização: mais espaço, mais emoções positivas ao “deixar ir” e mais liberdade face aos objetos.
Como ultrapassar estas dificuldades?
Pergunta-te: “o que me liga a este objeto?” e depois, se conseguires, “porque quero guardar este objeto?”. É essencial ir mais fundo, sem ficar pelo primeiro “porquê”. Investigar a verdadeira razão pela qual aquele objeto ocupa o teu espaço vital ajuda-te a decidir se deve ser guardado, doado ou descartado, tornando a organização mais leve e intuitiva.
Nos espaços da casa, pequenas decisões trazem grandes resultados. Vais sentir aquela dúvida clássica “e se depois precisar disto?” ou “pode ser útil?”. Nestas alturas, faz um check rápido: quantas vezes usaste realmente este objeto e que probabilidade há de o voltares a usar? Se a resposta for zero, é hora de o deixares ir.
Por onde se deve começar? Por um quarto ou por uma área mais limitada, como uma gaveta?
Depende do tempo que tens e se tens ajuda ou não. Recomendo começar por um objetivo simples. Primeiro, reserva um slot na tua agenda: definir o tempo ajuda a perceber quanto vais dedicar à arrumação.
Se tens meia hora, começa por uma gaveta. Se tens quatro horas, podes passar para as portas do armário. Outro conselho útil: pede ajuda. Não importa se é uma profissional que resolve tudo em poucas horas ou uma amiga, o importante é saberes que não estás sozinho nesta tarefa, que para muitos é considerada aborrecida.
Para tornar a organização mais agradável, muda de atitude: começa pelo que amas e te faz sentir bem. Evita começar por algo negativo, como “tenho de deitar fora”, e foca-te numa ação positiva: selecionar o que gostas e que te traz emoções positivas.
Quais os instrumentos essenciais para fazer uma boa organização?
Mantém à vista a folha com o objetivo que queres alcançar. Ter este objetivo sempre presente ajuda-te a fazer escolhas mais conscientes. Funciona como uma bússola que guia, motiva e mantém clareza, mesmo quando decidir o que guardar ou deixar ir se torna difícil.
Prepara-te com as ferramentas certas para agilizar o processo e reduzir adiamentos. Cobre a cama ou a mesa com um lençol velho para recolher pó e sujidade. Vais precisar de caixas de reciclagem, uma ou mais tesouras, folhas, etiquetas e cartolinas – tudo o que te ajude a catalogar e organizar o que vais guardar.
O processo de organizar (decluttering) não é apenas eliminar. É, acima de tudo, criar espaço mental e físico para o que realmente importa.
Acompanha toda a informação imobiliária e os relatórios de dados mais atuais nas nossas newsletters diária e semanal. Também podes acompanhar o mercado imobiliário de luxo com a nossa newsletter mensal de luxo.
Segue o idealista/news no canal de Whatsapp
Whatsapp idealista/news Portugal
Para poder comentar deves entrar na tua conta