José Pedro Marques: "É fascinante como a arquitetura condiciona comportamentos"

O fundador da REM'A acredita que a a qualidade dos projetos não se mede pelo orçamento mas pela forma como muda a vida de quem o habita.

O pai era desenhador de construção civil, daqueles que ainda tinham um estirador montado e desenhavam à mão, com régua, peça a peça. A casa onde a família vivia tinha sido projetada por ele, e José Pedro Marques, ainda hoje, acha que não a teria feito tão bem. Cresceu a ver a régua passar pelo papel e a perceber que aquele gesto tinha consequências no espaço, na forma como se vivia. O pai avisava: "não vás para isto, é muito cansativo". Não houve forma, o destino apontou para a arquitetura e ele não se conseguia ver a fazer outra coisa.

Natural de Famalicão, José Pedro Marques conheceu Romeu Ribeiro em 2005, na faculdade. Seguiram caminhos separados quando o curso terminou, até que um antigo colega os juntou para um trabalho. Foi nesse primeiro projeto a dois que perceberam o que as qualidades de cada um conseguiam fazer em conjunto. Desse arranque nasceu a REM'A. O nome que vem dos apelidos, Ribeiro e Marques, mas que carrega também uma analogia que lhes assenta: a de remar, de ir à procura do espaço próprio numa altura em que o país atravessava dificuldades e em que entrar no setor era, como dizia um professor de Teoria da Arquitetura, atirar-se a uma piscina cheia de gente com uma picareta na mão.

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REM'A
REM'A

Quais são as primeiras memórias em que percebeu que poderia vir a ser arquiteto?

Quase que eu cresci com esta realidade. O meu pai é desenhador de construção civil de formação. Tirou o curso na altura em que havia os cursos profissionais. E eu, desde muito pequeno, o cheiro a obra entrava todos os dias em casa e nós tínhamos um estirador, na altura em que se desenhava à mão. Para mim sempre foi uma vontade muito grande, para além de querer seguir os passos do ídolo, do nosso pai. Foi natural ver a régua, na altura havia umas réguas onde nós desenhávamos as peças sanitárias num espaço, e começar a perceber o efeito que isto tinha. A nossa casa de família foi desenhada por ele, ainda acho que não a teria feito tão bem. E isto ficou enraizado, tanto que foi sempre uma luta muito grande. O meu pai dizia: "não vais para isto, isto é muito cansativo". E o destino apontou-nos. Tinha que ser. Não me conseguia ver a fazer outra coisa.

Como conheceu Romeu Ribeiro e decidiram fundar o atelier REM'A ?

Nós conhecemo-nos desde 2005, estamos juntos. Fomos fazendo o nosso caminho. Separámo-nos na altura em que o curso acabou e, curiosamente, acaba por ser um colega nosso de faculdade que nos junta para fazermos um trabalho para ele. E começámos a perceber, embora nos conhecêssemos da faculdade, que havia qualidades do Romeu e qualidades minhas que funcionavam muito bem em conjunto. Como esse primeiro trabalho correu bastante bem, muito bem mesmo, o primeiro prémio que nós temos deriva daí , demos continuidade ao que estava a ser bem feito. A equipa que ganha normalmente não se mexe, e fomos fazendo este caminho, fomos remando, como o nome indica, e chegámos onde estamos agora.

REM'A
Edifício A'mar REM'A

O nome REM'A tem essa analogia de remar?

É uma analogia engraçada, mas REM'A vem exclusivamente dos nossos apelidos, Ribeiro e Marques. Só que a busca do nome também era uma busca que suscitava aqui algumas conversas agradáveis, e então há uma altura em que o Romeu chega à minha beira e diz: "resolvi o nosso problema, REM'A". E como nós somos licenciados numa altura em que o nosso país passou por dificuldades muito grandes, e também era uma analogia de uma aula de Teoria da Arquitetura que nós tínhamos tido no primeiro ano, em que o professor dizia que nós íamos para uma piscina cheia de gente e tínhamos que entrar com a picareta, esta ótica de que quando nós vamos para um sítio temos que lutar pelo nosso espaço, temos que remar, ir à procura, mesmo nas adversidades, fez com que o nome que deriva dos nossos apelidos fizesse todo o sentido.

Qual foi o primeiro prémio e em que ano?

O primeiro prémio é a Casa A, em 2020. E depois a seguir em 2021, mas com a mesma casa. Foi o que nos juntou. Depois o edifício AMAR é que vem mais tarde, em 2024.

Têm trabalhado em vários projetos, alguns residenciais e outros mais comerciais, como o caso do ginásio. O que é diferente quando se pensa um espaço em que o utilizador podem ser muitas pessoas?

Acima de tudo, tem a ver com uma das coisas que a nós sempre nos fascinou, a mim principalmente, que tem também a ver com aquilo que nós fazemos na faculdade enquanto estudo teórico: a realidade do programa e o que é que isso interfere na manipulação de comportamentos. E aqui entra o fator escala, porque enquanto na habitação nós temos um cliente, temos um programa específico e estamos a trabalhar esse programa em função de um terreno e de um cliente que nós conhecemos, o programa público, seja ele comercial ou educativo, obriga a um pensamento abstrato em que é a arquitetura que vai procurar condicionar esses comportamentos.

Ver isso acontecer, ver a questão do que é que a ação provoca, não só no espaço, porque essa nós controlamos do ponto de vista formal, mas, acima de tudo, no comportamento das pessoas, é algo que é verdadeiramente espetacular. E que sempre teve na história, porque a monumentalidade dos espaços procurava isso mesmo, os espaços públicos procuravam isso mesmo, que era condicionar comportamentos e induzir formas de habitar e de utilizar os espaços. E essa é realmente a grande mudança, porque é tudo em abstrato e a nós agrada-nos muito, mesmo na repetição. Ou seja, quando o programa é o mesmo, na questão comercial, desde os nossos clientes comerciais, podemos fazer com que se repita, mas com ritmos diferentes, como na literatura.

Casa A
A Casa REM'A

Estão em Guimarães mas têm projetos em vários sítios, com diferentes condicionantes. Como é que isso afeta o trabalho?

Claramente. Essa é outra das vertentes que influencia a peça arquitetónica. Temos o programa, temos a realidade construtiva, e a realidade do sítio onde se insere tem uma influência muito grande. Mesmo num país pequeno como o nosso - e a nossa prática assenta, acima de tudo, em Portugal continental, embora tenhamos algumas experiências no estrangeiro, as realidades e as exigências são diferentes. Nós temos um Norte um bocadinho mais húmido, mais frio, e temos um Sul um bocadinho mais seco e mais quente. E ter que lidar com essas realidades condiciona, ou pelo menos nós gostamos que condicione de forma prévia as nossas opções, porque isto não é um somatório de acontecimentos. Isto é uma grande circunstância que nós depois vamos utilizando, as condicionantes que surgem no processo de tomada de decisão. Ou seja, há sempre uma ação e há sempre uma reação, mesmo no projeto.

Em termos de orçamento, é bom trabalhar com um orçamento ilimitado?

Mentiríamos se disséssemos que a condição do orçamento não afeta a prática e que não seja bom poder experimentar coisas em que não é que não exista limite. A REM'A, felizmente ou infelizmente, nunca teve essa realidade de "façam o que quiserem, como quiserem". Mas também nos dá um gozo brutal poder trabalhar uma encomenda com um budget mais curto, porque ali nós temos mesmo que levar ao limite aquilo que nós queremos enquanto arquitetos com aquilo que é a realidade que o cliente pode. E nós dizemos sempre aos clientes: a boa arquitetura, e com toda a modéstia, não depende (ou não pode depender) daquilo que é o orçamento final. E ver as coisas a acontecerem no final, a qualidade espacial, a qualidade formal, mesmo em orçamentos mais limitados, e ver a mudança que aquilo teve na vida das pessoas, vê-los a acompanhar as nossas decisões de projeto em obra, é um gozo, dá-nos um gozo muito grande.

Edifício A'mar
Edifício A'mar REM'A

E para o futuro? O que ainda gostaria de fazer?

Gostaríamos de internacionalizar um bocadinho mais a marca, porque achamos que vai fazer-nos crescer, vai colocar-nos outro tipo de exigências num mundo que está a mudar e que está a mudar muito rápido, que está a influenciar rapidamente a nossa prática. Achamos que esse limite também deixa de existir, porque nós hoje em dia temos condições para chegar à informação quase da mesma maneira que um colega do outro lado. E esta realidade em que falávamos um bocadinho do sistema construtivo e do programa, e do que é que isto afeta os utilizadores, claramente que nos iria trazer outros desafios que nós iríamos gostar de abraçar no futuro.

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