Entre Lisboa e Londres, o arquiteto tem encontrado na reabilitação uma forma íntima e autêntica para desenvolver os seus projetos.
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José Guimarães é um arquiteto jovem que fundou, no ano passado, o seu atelier de arquitetura, José Studio. Depois de vários anos fora do país, o arquiteto voltou para viver Lisboa. O recente projeto de reabilitação no bairro de Campo de Ourique, no centro da capital, empurrou-o para as luzes da ribalta. Mas o seu caminho já tem outras histórias felizes nesta espécie de missa de transformar o velho em novo. “Reabilitar é prometer uma nova felicidade a um espaço que parecia nada”, explica José Guimarães.

A arquitetura é vista como um diálogo muito íntimo: "Para mim, é como fazer um fato à medida: há um cliente com uma ideia de felicidade e eu gosto de desenhar esse sonho, de lhe dar forma. Eles imaginam a vida na casa, eu imagino o espaço".

Entre muitos outro tópicos, esta conversa com o idealista/news traz a pergunta tantas vezes adiada: porque tantos arquitetos sonham desenhar uma igreja? 

Casa Ajuda
Casa Ajuda José Guimarães

O que o levou à arquitetura?
Basicamente, foi o percurso normal de um miúdo com algum jeito para o desenho, que não quis arriscar ir para as artes plásticas ou pintura. Curiosamente, podia ter seguido esse caminho, tinha um tio pintor, bastante bem-sucedido, mas acabei por ser mais conservador.

A casa onde vive foi desenhada por si?
Sim, foi redesenhada. Trata-se de uma reabilitação, que acabou por ter alguma visibilidade e até ganhou alguns prémios.

Campo de Ourique
José Guimarães
Campo de Ourique
Campo de Ourique José Guimarães

E, além desta casa, quais foram os primeiros ou os projetos mais marcantes?
Tenho trabalhado muito na área da reabilitação. Comecei há muito tempo, a primeira casa que fiz foi para um amigo meu, ainda estava a fazer a tese na Faculdade de Arquitetura. Depois, vieram pequenas reabilitações, sobretudo para amigos e família. Entretanto, fui viver e trabalhar para Londres. Mesmo estando lá, iam pedindo alguns projetos e eu fazia-os paralelamente ao trabalho no atelier onde estava. Após cinco anos em Londres, decidi voltar. Trabalhei num atelier que foi muito importante para mim, o 31 Estúdio, e, depois disso, comecei a trabalhar por conta própria, com o meu estúdio, o José Estúdio. Já tenho alguns projetos concluídos e outros em construção, todos muito ligados à reabilitação.

O que tem de mais desafiante, ou mais interessante, trabalhar em reabilitação?
Gosto especialmente de reabilitar casas e apartamentos, porque há sempre uma sensação de desafio: pegar num espaço aparentemente pouco promissor e transformá-lo. Há sempre potencialidades escondidas. A reabilitação permite tirar o melhor de um espaço degradado ou envelhecido, dar-lhe uma nova vida. É quase como prometer uma certa felicidade àquilo que parecia “nada”.

Banzão
Banzão José Guimarães

Falava há pouco da relação com a cidade , de Londres a Lisboa, e do tema da reabilitação em contextos onde ainda é economicamente viável. É um tema central?
Sem dúvida. Lisboa tornou-se muito difícil - tanto para adquirir casa como para fazer obras. Interessa-me muito trabalhar em projetos com maior liberdade, e tenho tido a sorte de encontrar alguns assim: armazéns com pé-direito alto, exteriores com espaço, casas de família com terreno onde as crianças podem brincar. Gosto de escapar ao típico urbano, o pé-direito de 2,6 metros, o corredor estreito, e libertar-me desses limites.

E a sustentabilidade, que hoje está tão presente no discurso da arquitetura, como entra no seu trabalho?
A sustentabilidade é fundamental na reabilitação. Ao reabilitar, evitamos a demolição e aproveitamos o que já existe, as paredes de pedra, o tijolo, o telhado. Damos nova vida aos materiais e, com isso, reduzimos desperdício. Claro que depois entra também a escolha criteriosa de materiais e soluções construtivas.

Casa Ajuda
Casa Ajuda José Guimarães

A arquitetura, no dia a dia, tem de responder a funções: a cozinha tem de funcionar, a casa de banho tem de ser prática, tudo tem um propósito utilitário. Numa igreja, há liberdade total: trata-se de desenhar uma espiritualidade, uma ideia. E isso, claro, é fascinante para qualquer arquiteto.

Agora que inicia esta nova fase a solo, o que gostaria de concretizar nos próximos anos?
Neste momento, estou muito entusiasmado com o que estou a fazer. Ainda não penso muito no futuro. Gosto de desenhar casas e reabilitações, de trabalhar diretamente com as pessoas. Para mim, é como fazer um fato à medida: há um cliente com uma ideia de felicidade e eu gosto de desenhar esse sonho, de lhe dar forma. Eles imaginam a vida na casa, eu imagino o espaço.

Mas há programas de sonho, aqueles projetos “fetiche” que qualquer arquiteto gostaria de fazer?
Claro. Acho que todos os arquitetos têm um programa fetiche - desenhar uma igreja, por exemplo. Tenho menos curiosidade em fazer coisas grandes e padronizadas, e mais interesse em criar algo mais pessoal, feito à medida.

Por que razão uma igreja é o programa fetiche de tantos arquitetos?
Porque se liberta completamente da obrigação prática. A arquitetura, no dia a dia, tem de responder a funções: a cozinha tem de funcionar, a casa de banho tem de ser prática, tudo tem um propósito utilitário. Numa igreja, há liberdade total: trata-se de desenhar uma espiritualidade, uma ideia. E isso, claro, é fascinante para qualquer arquiteto.

Campo de Ourique
Campo de Ourique José Guimarães

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