Tive o privilégio de ser espectadora dos primeiros desenhos da Marta. Teríamos três, quatro anos e o seu traço já se evidenciava pelo pormenor e pela estética apurada. Sei porque guardei quase todos os seus desenhos. Naquela altura só lhe invejava o talento.
A paixão pelo desenho empurrou-a para a arquitetura, a abordagem sensível e a estética serena, "clean" e honesta levaram-na para o design de interiores. Marta Dinis estudou na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa e, depois de muitos anos como senior architect e designer de interiores, desempenhando funções de project manager em contextos de arquitetura e design, decidiu aventurar-se a solo e criou a Raiz Interior Living.
Perceber as necessidades de cada cliente muito para além dos seus pedidos diretos é aquilo em que reconhece um talento especial. Depois é contar uma história e criar uma casa onde seja fácil e prazerozo viver.
No futuro, esta "psicóloga de lugares" quer continuar esta missão: "a arquitetura, nomeadamente dos interiores, é muito útil para despertar emoções nas pessoas e elevar um bocadinho a própria função do espaço".
Uma viagem no tempo: o que trouxe a Marta Dinis até à arquitetura de interiores?
O desenho sempre fez parte da minha vida e foi a minha primeira grande paixão. Foi através dele, não diretamente, mas através dele, que esta minha linha ligada às artes seguiu caminho e veio desembocar na arquitetura. Eu sempre gostei de algo muito mais orgânico do que esta formalidade que a arquitetura me transmitia na altura. Fiz arquitetura e depois especializei-me em interiores. Aí sim, apaixonei-me por tudo o que é este espaço que vivemos no interior dos edifícios e pela possibilidade de transformar a vida das pessoas através do desenho, do cuidado e de pensar estes interiores de forma a que as pessoas tenham experiências de utilização do espaço muito melhores.
Qual é a diferença, para quem não percebe nada disto, entre a arquitetura da planta ou do grande, que está cá fora, e a questão dos interiores?
Eu acho que uma não existe dissociada da outra, obviamente, mas, para mim, a diferença está na relação com a pessoa. Às vezes temos esta ideia de que a arquitetura e o arquiteto criam aquela obra que quase não se pode tocar e, antigamente, as pessoas quase não podiam fazer uma alteração naquele projeto porque era daquele arquiteto.
A arquitetura de interiores é tentar que aquele espaço seja da pessoa. Portanto, é transformar, no caso de uma reabilitação, ou criar o espaço para que a pessoa possa experienciar uma série de coisas do dia a dia, criar memórias novas, ter experiências. É a ligação entre a pessoa e o espaço que vai usufruir.
Mesmo quando estamos a falar de espaços públicos, acho que isso é muito importante, porque a apreensão do espaço, as hierarquias na fruição do espaço, podem ser criadas muito bem através dos interiores. Não é tanto uma obra de arquitetura como escultura, quase como obra de arte intocável. É um espaço que serve para nós usarmos e para nos mostrar algo, por exemplo.
Apesar de cada cliente ser um cliente, há pormenores, espaços ou características que são de quem os cria? Ou seja, sente que estão na sua assinatura? Ou vai sempre depender do cliente?
Não. A diferença poderá estar nas abordagens que faço, e que acho que são muito minhas, para perceber o cliente. A maior parte das pessoas, hoje em dia, com estas coisas do Pinterest, sabe muito bem o que quer, mas depois vem ter connosco e não sabe como misturar, porque gosta de coisas completamente díspares. O importante é conseguir retirar a essência do que as pessoas realmente querem e precisam na sua vida.
Às vezes conseguimos até criar coisas que elas não sabem que precisam. Através do desenho, do detalhe, dos espaços, conseguimos, por vezes, dar-lhes pequenas zonas que nem sequer imaginavam, que não pediram, mas que, no fim, dizem: “Uso imenso aquele espaço.”
Nem imaginavam que precisavam tanto, mas aquele café da manhã, quando acordam, é essencial." Não é tanto uma linguagem que, quando se olha para um projeto meu, se diga: “Aquilo só pode ser dela.” É mais a abordagem que faço aos espaços e a maneira como interajo com o cliente. Claro que ele é quem manda, é quem dá as premissas, as necessidades, tudo o que pretende. Mas transformar isso no espaço que vai ser criado faz parte do meu trabalho.
Algum projeto que tenha sido mais marcante?
Há um projeto muito especial que ainda está em desenvolvimento. É um projeto para mim, o que torna difícil essa dissociação entre o cliente e o projetista. Parece que nunca está bem. Acho que é bastante especial porque tirou muito de mim, para o bom e para o mau. É difícil quando não temos o afastamento suficiente e não temos ninguém a criticar. Ao mesmo tempo, sou eu própria a fazer essa crítica constante, a pensar que tinha de fazer melhor ou que podia fazer melhor.
Às vezes temos de parar e depois voltar ao projeto. Acho que é isso que o torna especial. É uma casa de campo para receber pessoas também. Não lhe chamaria um hotel, porque tem um caráter muito mais rural, mas é esse o conceito.
E um trabalho que adorasse que lhe caísse assim nas mãos?
Não tenho um trabalho de sonho específico. Poderia ser algo como um restaurante ou um hotel, para poder dar largas à imaginação sem ter aquela especificidade tão vinculada à necessidade de um cliente em particular. Nesse tipo de espaços é possível criar coisas completamente diferentes, criar experiências para o utilizador que podem ser realmente marcantes para além da função que o espaço tem, por exemplo, num restaurante. Acho que cada vez mais esta parte da arquitetura, nomeadamente dos interiores, é muito útil para despertar emoções nas pessoas e elevar um bocadinho a própria função do espaço.
É igual trabalhar com um cliente de orçamento ilimitado ou com alguém com orçamento mais apertado?
Não é igual, porque temos de ter sempre muito mais atenção num orçamento mais regrado. É possível trabalhar assim e não é, de todo, aquele tipo de trabalho de que não gosto ou que não quero fazer. Pelo contrário, gosto e acho super desafiante. Estimula ainda mais a criatividade e as soluções arquitetónicas, às vezes nos detalhes que conseguimos criar. Mas, obviamente, as coisas são caras de fazer e executar e, por vezes, nesses projetos temos de cortar algumas ideias. Só nesse aspeto é que não é tão bom, porque não conseguimos ver a nossa visão desde o início até ao fim. Mas a abordagem é exatamente igual.
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