Notícias sobre o mercado imobiliário e economia

BCE adia subida de juros por causa da economia - como afeta isto o crédito à habitação e o imobiliário?

Gtres
Gtres

Ao Banco Central Europeu (BCE) não lhe tremeu o pulso esta quinta-feira: voltou a sacar da artilharia pesada para enfrentar o abrandamento económico em que está a entrar a zona euro. Na sua última reunião, realizada ontem, dia 07 de março de 2019, a máxima autoridade monetária e bancária da região da moeda única lançou, aliás, várias mensagens importantes: espera manter as taxas de juro nos mínimos atuais até, pelo menos, final do ano (quando se esperava uma revisão em alta depois do verão), e isto significa que o preço do dinheiro vai manter-se em 0,0%, o patamar em que está desde há três anos.

Desta forma, o guardião do euro garante um financiamento barato para particulares, empresas e países durante, pelo menos, uns meses mais - sendo que o mercado dá por certo que não haverá novidades nesse sentido até ao próximo ano.

E como se isto não fosse suficiente, o presidente do organismo, o italiano Mario Draghi, repetiu uma das frases mais habituais dos seus discursos: as taxas de juro poderão manter-se em 0,0% durante mais tempo, ou inclusivamente poderão baixar mais, se for considerado necessário no futuro.

Outra das importantes medidas que anunciou é uma nova LTRO: trata-se de uma tranche de liquidez extraordinária para a banca. É a terceira vez que o BCE põe em marcha uma iniciativa deste tipo nos últimos cinco anos, e a sua intenção inicial é mantê-la ativa durante, pelo menos, um ano e meio. Começará em setembro e vai durar, em princípio, até março de 2021.

No final de 2014, foi ativada a primeira medida e em março de 2016 houve uma segunda injeção de liquideza na economia real. Com estas operações de longo prazo (vencimento a dois anos), o BCE oferece empréstimos baratos aos bancos, para que estes depois emprestem dinheiro barato a famílias e empresas. 

Traduzido por miúdos

Os juros do BCE correspondem à taxa que os bancos devem pagar quando pedem dinheiro emprestado ao supervisor da zona euro, influenciado as taxas Euribor, que correspondem à média dos juros que um conjunto de bancos da região aplica nos empréstimos que fazem entre si, num determinado prazo.

As taxas Euribor, por sua vez, servem de indexante, ou seja, são utilizadas como taxas de referência, nos créditos bancários, refletindo-se no valor das prestações mensais.

Paulo Rosa, economista do Banco Carregosa, citado pela Lusa, precisa que "o 'spread' que os bancos cobram [nos empréstimos] está relacionado, quase exclusivamente, com o risco inerente ao devedor e as rentabilidades ('yields') das obrigações do tesouro".

De acordo com o economista, "se as rentabilidades das obrigações caírem, existe margem para os 'spreads' descerem ainda mais um pouco", uma vez que o custo do crédito é a soma da Euribor contratada e o 'spread' cobrado pelo banco.

Medidas positivas para o consumidor

Segundo explica Juan Villén, responsável de idealista hipotecas, "as medidas são um balde de água fria para a rentabilidade dos bancos, mas muito positiva tanto para os já hipotecados, como para quem esteja a pensar em comprar e necessite financiamento, porque sem dúvida vamos continuar a beneficiar de taxas muito baixas por mais tempo do que o esperado. A forte concorrência e a necessidade de repor novo crédido sobre os vencimentos das hipotecas pesam mais do que a necessidade dos bancos aumentarem as margens (pressionados também pelo BCE), o que favorece os consumidores".

A mesma linha defendem desde Link Securities, detalhando que "os leillões vão ser concedidas ao juro principal de refinanciamento (agora em 0%). Isto abre a porta a que os bancos concedam mais crédito a famílias e empresas com condições mais favoráveis".

Por outro lado, Nick Wall, de Merian Global Investors, destaca que "enquanto o crescimento arrefece, o BCE não se arrisca com o sistema financeiro a oferecer liquidez. Há a fazer tudo o que pode dentro do seu quadro legal para manter o dinheiro barato, mas é necessário que a procura se recupere de forma significativa para que os bancos não se sintam pressionados".

Mas também há fortes críticas a esta jogada do Draghi. Famosos economistas como Daniel Lacalle foi muito contundente nas redes sociais: "O BCE voltar a zombificar a economia e perder uma enorme oportunidade de acumular ferramentas face uma mudança de ciclo, pensando que o problema da UE é de liquidez e necesside de juros zero. Os juros zero incentivam os desiquilíbrios, a dívida e a irresponsabilidade fiscal", considera o economista chefe da Tressis.

Por seu lado, Nuria Álvarez, analista de Renta 4, frisa que "se a situação requere este instrumento é que, por detrás, há um realidade suficientemente complexa para como não subir as taxas de juri, que afinal é o seu principal 'driver' para os bancos", segundo comparte o blog de Bankinter.

Efeitos nos novos créditos à habitação e no imobiliário

Paulo Rosa, economista do Banco Carregosa, citado pela Lusa, recorda que "o 'spread' que os bancos cobram [nos empréstimos] está relacionado, quase exclusivamente, com o risco inerente ao devedor e as rentabilidades ('yields') das obrigações do tesouro".

Desta forma, segundo o economista, "se as rentabilidades das obrigações caírem, existe margem para os 'spreads' descerem ainda mais um pouco", uma vez que o custo do crédito é a soma da Euribor contratada e o 'spread' cobrado pelo banco.

E é expectável que a concessão de crédito aumente com as taxas do BCE a manterem-se baixas pelo menos até ao final do ano? 

"As medidas anunciadas pelo BCE têm como objetivo aumentar a concessão de crédito, e também manter as taxas de juro baixas nos próximos tempos, mas estará nas mãos dos bancos essa decisão [de conceder crédito], sobretudo na componente das famílias", declara Filipe Garcia, também em declarações à agência de notícias, acrescentando que "não serão as taxas de juro o obstáculo à concessão de crédito".

"Tem tudo a ver com os bancos, nomeadamente no que respeita o crédito à habitação e ao consumo", frisou o economista da IMF.

No mesmo sentido, Pedro Lino referiu à Lusa que "um dos problemas da economia europeia tem sido o abrandamento que se reflete nos empréstimos concedidos".

Neste momento, "não é uma questão de taxa de juro, mas sim de oportunidades de investimento, de perspetiva de crescimento da economia e estabilidade. Diria que a política monetária chegou ao seu limite e apenas com a retoma da confiança dos agentes económicos será possível que o nível de empréstimos volte a aumentar", antecipa o economista da Dif Broker.

"Com o crescente turismo e se os 'spreads', que se mantêm perto de 1%, quebrarem este nível para patamares à volta dos 0,8%, então poderemos ter mais uma lufada robusta de ar fresco neste 'boom' imobiliário, mas que possui como limitação a capacidade do devedor em solver as responsabilidades decorrentes do endividamento", afirmou, por seu turno, Paulo Rosa.

Depósitos vão continuar baixos

O BCE também decidiu, por outro lado, manter a taxa de juro dos depósitos em terreno negativo (-0,40%) e os especialistas ouvidos pela Lusa antecipam que as taxas dos depósitos vão continuar baixas nos próximos tempos.

"As remunerações irão continuar a ser residuais e muito próximas do zero e, depois do BCE ter informado que irá proceder a um novo programa de empréstimos à banca TLTRO [ou seja, operações de refinanciamento de prazo alargado direcionadas ao apoio de crédito bancário], para colmatar o abrandamento económico, é provável que as taxas dos depósitos se mantenham baixas nos próximos anos", afirmou Paulo Rosa.

Relativamente aos depósitos, "existe um efeito negativo para os aforradores, uma vez que os bancos não irão remunerar a liquidez de clientes", frisou Pedro Lino, acrescentando que, mesmo que a situação mude ao longo de 2020, se a economia europeia mostrar sinais de aceleração, a registar-se uma subida nas rentabilidades dos depósitos "será muito gradual e lenta".

"Vamos continuar a ter taxas baixas nos depósitos. Enquanto houver excesso de liquidez no mercado interbancário não é de esperar subidas dos juros nos depósitos", reforçou também Filipe Garcia, acrescentando que alguns bancos preferem manter liquidez nos balanços a emprestar à economia, nomeadamente na forma de créditos ao consumo ou às famílias.

O travão económico, a causa 

A principal razão que levou o BCE a tomar estas decisões é a debilidade que está a mostrar a economia da zona euro, sobretudo, o setor produtivo. O organismo reviu, aliás substancialmente as suas previsões de crescimento. Agora estima que a região registe uma subida de 1,1% este ano, 1,6% em 2020 e 1,5% em 2021.

Também piorou a sua revisão de inflação, que se situará este ano em 1,2%i, para subir a 1,5% em 2020 e a 1,6% em 2021. Em qualquer caso, os preços estarão por baixo do objetivo do organismo, para quem o nível adequado é uma inflação próxima, mas inferir, a 2%

Para fazer-se uma ideia de como se agravou o cenário económico, basta dar uma vista de olhos à mudança das suas previsões em apenas três meses:

 

Fuente: BCE
Fuente: BCE

Aos problemas económicos que se vive na eurozona  - sobretudo agravados depois da entrada em recessão de Itália e o timido crescimento que registam as locomotoras continentais como a Alemanha ou França - somam-se a incerteza política de muitos países europeus, as dúvidas sobre o Brexit e em cima da mesa continuam, além do mais, as tensões político-comerciais entre os EUA e a China.