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Os riscos que assombram o imobiliário e a banca em Portugal

Portugal Resident
Portugal Resident
Autor: Redação

O imobiliário - e correlacionadamente, a banca - é um dos setores que mais tem beneficiado do investimento estrangeiro e da fama que Portugal goza hoje em dia no exterior. Mas isto tem riscos. E não são poucos. "A materialização de eventos de incerteza geopolítica e o abrandamento da atividade económica a nível global poderão ter impactos adversos sobre a procura externa dirigida a Portugal", avisa o Banco de Portugal.

O aumento da procura do imobiliário teve impacto positivo, nomeadamente, no sistema bancário doméstico, facilitando a venda de imóveis recebidos em dação detidos na carteira dos bancos e contribuindo para a diminuição de NPL (sigla inglesa para Non-performing loans, créditos não produtivos em português).

No entanto, "a mesma dinâmica poderá conduzir ao aumento da sensibilidade deste mercado ao contexto internacional, nomeadamente no caso de reavaliações súbitas dos prémios de risco a nível global, e à deterioração das condições de financiamento dos investidores não residentes que por natureza tendem a apresentar maior volatilidade", alerta a instituição liderada por Carlos Costa, no Relatório de Estabilidade Financeira de dezembro de 2018.

O regulador explica que "dada a elevada exposição do setor bancário ao mercado imobiliário residencial, um ajustamento abrupto dos preços neste mercado representa um risco para o setor, nomeadamente se as instituições de crédito internalizarem de forma desadequada a dinâmica dos preços na avaliação do risco de crédito dos novos empréstimos à habitação.

Por outro lado, um cenário de correção abrupta dos preços do imobiliário poderá também afetar negativamente a capacidade do setor bancário em alienar os imóveis recebidos em dação, bem como reduzir NPL colateralizados por este tipo de ativos, que se tem vindo a observar desde meados de 2016.

A exposição da banca portuguesa ao imobiliário

No final do primeiro semestre de 2018, os bancos portugueses continuaram a concentrar uma parte significativa das suas exposições em ativos imobiliários (38,9% do ativo total, 1,5 pp abaixo do valor observado no final de 2016). Esta exposição assume sobretudo uma natureza indireta, em particular através das garantias imobiliárias associadas ao crédito à habitação, que representa aproximadamente 28% do ativo total.

Outra componente relevante da exposição indireta dos bancos ao setor imobiliário diz respeito ao crédito concedido a empresas do setor da construção e atividades imobiliárias (5% do ativo total em junho de 2018), destacando-se, a redução observada nesta componente desde 2011 (menos 2,5 pp). Ainda assim, um terço do saldo dos empréstimos concedidos a empresas mais jovens está associado ao setor da construção e atividades imobiliárias.

Importa destacar que, apesar deste setor representar 24% do total de empréstimos concedidos a SNF, o volume de NPL é proporcionalmente superior quando comparado com os restantes setores (aproximadamente 40% dos NPL de empresas diz respeito a empresas do setor da construção e atividades imobiliárias).

O atual contexto económico, com destaque para o nível reduzido das taxas de juro e para a pressão concorrencial no mercado de crédito à habitação, traduzida designadamente na compressão dos spreads de taxa de juro praticados nestes contratos, propicia uma menor restritividade nos critérios de concessão de crédito.

Este efeito, defende o BdP, deverá ser mitigado pela Recomendação macroprudencial do Banco de Portugal no que diz respeito aos novos contratos de crédito às famílias, reduzindo o risco de uma interação entre crédito interno e preços do imobiliário.