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A herança de Mario Draghi e os desafios de Christine Lagarde à frente do BCE

Economistas elogiam liderança de Draghi e consideram que Lagarde terá vida facilitada - assume presidência do BCE a 1 de novembro.

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Autor: Redação

O italiano Mario Draghi preside à sua última reunião como presidente do Banco Central Europeu (BCE) esta quinta-feira (24 de outubro de 2019), depois de oito anos à frente dos destinos da autoridade monetária da zona euro. Segue-se “no trono” a francesa Christine Lagarde, que deixou a liderança do Fundo Monetário Internacional (FMI). Economistas consideram que Draghi lhe facilitou a vida e que o legado deixado está mais leve. 

“Em alternativa ao já popularizado 'Super Mario', que não deixa de lhe assentar bem, especialmente se nos recordarmos de quando muitos acreditavam que a sua missão era impossível, penso que poderíamos também adotar o cognome de 'Guardião do Euro'", disse Clara Raposo, professora e presidente do ISEG, à Lusa.

São de resto vários os economistas que elogiam o trabalho realizado por Draghi à frente do BCE. Rui Bernardes Serra, economista chefe do Montepio, comentou, por exemplo, que “Draghi não foi o pai do euro, mas foi certamente aquele que se substituiu aos pais e evitou que o adolescente 'euro' fosse por maus caminhos”. “Bem podia ser assim o padrinho do euro. Mas esse nome em Itália tem segundas interpretações. Talvez seja simplesmente 'Il Salvatore del Euro'", acrescentou, salientando que o italiano “foi claramente o presidente do BCE que mais contribuiu para a preservação do euro”.

No mesmo sentido, João Borges Assunção, professor da Universidade Católica, considerou que "poder-se-á dizer que Draghi foi mais influente do que os seus antecessores, apenas dois” - o francês Jean-Claude Trichet e o holandês Wim Duisenberg, que foi o primeiro presidente da instituição.

O docente da Católica recordou que o mandato de oito anos de Draghi coincidiu com o período de 2011 a 2019, em que a política monetária foi, à escala mundial, um dos principais instrumentos da política económica.

Para Francesco Franco, professor da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), “a história é escrita pelos vencedores”, pelo que será necessário esperar. “Pessoalmente, acredito que ele merece ser lembrado como um banqueiro central extremamente experiente que teve a coragem de tomar decisões. Na hora mais sombria, salvou a zona euro”, disse, citado pela agência de notícia.

“Mario Draghi foi um resistente e garantiu alguma coesão na zona euro”, tendo sabido “liderar e manter um rumo, mesmo quando foi muito criticado”, acrescentou Clara Raposo.

Passagem de testemunho facilitada 

E será que a passagem passagem de legado para Christine Lagarde será complicada? Os economistas consideram que as medidas anunciadas por Draghi em setembro facilitaram o trabalho da sua sucessora. 

“Cremos que Draghi facilitou o trabalho de Lagarde, nomeadamente ao ter anunciado já as medidas de estímulo na última reunião [de setembro]. Diria que o legado de Draghi não é pesado, mas leve”, afirmou Rui Bernardes Serra, sublinhando que “é mais fácil suceder a Draghi do que ter sucedido aos anteriores presidentes do BCE”.

Já Clara Raposo considerou que “a herança deixada a Christine Lagarde é exigente”, o que “não se deve propriamente a Mario Draghi, mas sim à natureza da união económica e monetária e ao atual contexto internacional, geopolítico e económico”.

Para João Borges Assunção, “a nova presidente do BCE entra numa altura em que há uma divisão clara entre os membros do Conselho de Governadores do BCE em matéria de condução da política monetária". Segundo o economista e professor, a “principal tarefa” de Lagarde “será conseguir dar ao Conselho a liderança intelectual que o seu antecessor atingiu, o que lhe permitirá comunicar eficazmente com o mercado e com os vários governos nacionais dos países que integram a zona euro”.