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Das rendas mais acessíveis às especulativas, há de tudo na zona da Graça

CML
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Autor: carla celestino (colaborador do idealista news)

No foco das atenções dos investidores imobiliários, o idealista/news foi conhecer como é a atual realidade das rendas no bairro da Graça, no centro de Lisboa, onde os preços estão “sempre a subir”. Como travão a esta realidade, e para tentar dar a habitação acessível à classe média, mas de alta qualidade, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) vai lançar novos fogos que vão estar disponíveis no âmbito do Programa Rendas Acessíveis da autarquia.

A presidente da Junta de Freguesia de São Vicente avançou ao idealista/news que tem “a garantia de que vai ser promovido na freguesia casas de renda acessível onde se inscrevem, para já, 10 casas”. 

Habitação acessível com alta qualidade

Na apresentação da autarquia de Lisboa aos potenciais investidores, um dos projetos equacionados no âmbito do Programa Renda Acessível é a Vila Macieira, erguida em 1907, na Calçada dos Barbadinhos, numa zona operária da freguesia de São Vicente.  

São dois lotes de imóveis municipais a intervir que correspondem a 71 unidades, das quais 49 serão casas a rendas acessíveis. Com um investimento na ordem dos 8,5 milhões de euros, 82% do projeto contempla habitação (3 T0, 9 T1, 12 T2, 4 T3 e 1 T4) e 18% comércio, a par de 85 lugares de estacionamento. 

Segundo Ricardo Veludo, coordenador deste programa, o que se pretende com este projeto é “essencialmente recuperar a memória do que existiu na Vila Macieira e do que já não existe”. Neste sentido, os técnicos “foram ver as características desse edifício e da sua implantação, inspiraram-se nessa organização funcional e tentaram reinterpretar contemporaneamente esse conceito para as famílias modernas de classe média”

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Este projeto tem como denominador comum com os outros projetos do Programa Renda Acessível “um nível de qualidade muito elevado não só na arquitetura e no design como também nos materiais e acabamentos”. Na sua opinião, o que tem de diferente prende-se com “a localização, perto do bairro de Sapadores na Graça; com uma vista privilegiada para o Vale de Santo António, local onde vai ser construído um grande parque urbano e que será um novo pulmão da cidade de Lisboa; e, sobretudo nos pisos mais altos, a vista de 360º sobre Lisboa”.  

Internamente diz que chamam a este projeto “bijoux” por considerarem ser uma “joia” pelo facto de ser “um empreendimento pequeno mas com uma localização especial na zona consolidada da Graça e com vistas fantásticas”. 

Novo bairro a nascer nesta zona a pensar na classe média

Refira-se que este edifício está integrado numa operação mais vasta que é o Vale de Santo António para o qual, conforme revela, “estão previstas três a quatro creches, jardim de infância e reforço na modernização de equipamentos desportivos”.  

Trata-se de “um novo bairro da cidade de Lisboa em que vamos procurar aplicar ao que de melhor, neste momento, se faz em termos de urbanismo, mobilidade e utilização coletiva”, ou seja, “vamos fazer edifícios para a classe média que estão ao nível da gama alta no mercado privado, explica Ricardo Veludo. 

No que diz respeito a timings para estes projetos, refere que terminaram “há pouco dias as formalidades, com a aprovação na reunião de Câmara e depois na Assembleia Municipal, e já foram publicados os avisos do concurso no Jornal Oficial da União Europeia”.

O essencial do concurso "vai decorrer durante o próximo mês de janeiro até meados de fevereiro com o prazo de apresentação de propostas e no final do primeiro trimestre as propostas devem estar avaliadas”. Segue-se “um prazo que não controlamos em que todos os contratos são sujeitos ao visto do Tribunal de Contas e se não fosse isso poderíamos começar as obras no final do ano de 2019”. 

Projeto capta interesse de investidores nacionais e estrangeiros

No caso do concorrente indicar na proposta “lote a transmitir em propriedade plena” a concessão será por 30 anos, mas caso nenhum lote seja a transmitir em propriedade plena então a concessão será durante 70 anos, podendo praticar renda livre no lote que à partida poderia ser para transmissão em propriedade plena. 

Ricardo Veludo revela ainda que têm recebido “manifestações espontâneas de interesse nacionais e estrangeiras”. As mesmas têm chegado através do site do Programa Renda Acessível, são também resultado da presença nas feiras internacionais MIPIM (Cannes, França) e EXPO Real (Munique, Alemanha) onde têm estado presentes nos últimos três anos e ainda da ação de divulgação em Londres (Inglaterra), em articulação com a Embaixada de Portugal em Londres e onde há um envolvimento grande por parte do ministério dos Negócios Estrangeiros, no “sentido de captar investidores e empresas de promoção qualificadas para tomar conhecimento dos projetos”. 

Preços proibitivos para jovens

Na última Assembleia de Freguesia, o partido de Natalina Tavares de Moura que lidera atualmente a Junta de Freguesia de São Vicente (Partido Socialista) apresentou uma “moção pelo direito à habitação”. Porquê? Porque, segundo a presidente, neste momento, “os preços das casas são proibitivos impedindo os jovens de entrar na freguesia”. 

Mas para os que acham que os preços proibitivos são apenas uma realidade da atualidade do bairro da Graça desenganem-se, Lisboa é Lisboa e uma capital tem sempre os preços habitacionais inflacionados.  

O idealista/news falou com Rosa Lobato, a primeira inquilina a ocupar o topo de um edifício na Calçada do Monte, a poucos metros do Miradouro do Monte, há 49 anos, e o que nos confidenciou comprova que morar na Graça sempre foi “caro”. 

Carla Celestino
Carla Celestino

D. Rosa, a guardiã deste prédio, era, até muito recentemente, quem mostrava os apartamentos aos potenciais interessados. Hoje essa função pertence às mediadoras imobiliárias mas, ainda assim, é ela a “dona” das chaves.  

Recorda-se que “a primeira casa foi alugada a um professor da Escola Gil Vicente que pagou, na altura, uma renda de mais de 3.000 escudos, embora nunca tenha ocupado efetivamente o apartamento”. Seguiu-se a “filha da D. Xica, no 2º direito, que pagou uma renda de 3.200 escudos, valor que correspondia ao seu ordenado mas que ainda assim dava para pagar já que ela e o marido trabalhavam na Alfândega”. Estas eram as rendas mais caras. 

Rendas de 80 euros até 1.200 euros no mesmo edifício

Atualmente no edifício, no âmbito das salvaguardas da Lei do Arrendamento, “existem rendas de 80 euros, para os inquilinos mais idosos e com recursos mais limitados que são portugueses”, mas existem também, “nos novos arrendamentos, valores que vão desde os 550 euros no T1 localizado no rés-do-chão a 1.200 euros no T2, sendo que os mais elevados são ocupados por estrangeiros, alguns dos quais brasileiros”.  

Em breve vão ser remodelados dois andares que ainda não têm o valor da renda fixado, mas tudo leva a crer que vão ultrapassar a atual fasquia dos 1.200 euros. 

“Por este prédio já passaram muitas pessoas e guardo lembranças de todas elas”, diz Rosa Lobato, e “na Graça os preços das rendas são como a Calçada do Monte, sempre a subir”.