Construir no presente com formas do passado, mas reinventando-as. Esta é uma das tendências da arquitetura contemporânea que olha para o passado de forma mais ligada ao território.
A atenção vira-se para construções populares e comuns: quintas, casas rurais ou reabilitações que recorrem a materiais e técnicas tradicionais. Esta abordagem, centrada no respeito pelo passado, permite criar espaços inovadores que preservam a identidade do lugar.
É o caso da Stanfordville House, situada no estado de Nova Iorque, um exemplo marcante desta tendência: uma construção contemporânea que reinterpreta a vida rural sem abdicar da sua essência histórica.
Habitação contemporânea sobre estrutura agrícola
Situada numa ampla paisagem ondulada, característica do vale do Hudson, a Stanfordville House ergue-se no mesmo local onde existia anteriormente um celeiro em ruínas.
Em vez de demolir totalmente e começar do zero, o atelier Desai Chia Architecture optou por trabalhar a partir da memória do lugar, reinterpretando a silhueta das construções agrícolas tradicionais para as transformar numa casa luminosa e funcional.
O resultado é um edifício organizado de forma longitudinal, com um telhado de duas águas, uma forma que remete de imediato para os celeiros que pontuam a região, mas concretizado através de técnicas construtivas e acabamentos próprios da arquitetura contemporânea.
Como referido, a habitação assenta sobre os vestígios das fundações originais de um antigo celeiro, que foram reforçadas e reutilizadas, reduzindo o impacto ambiental e preservando a marca histórica do edifício pré-existente.
Para o atelier Desai Chia Architecture, esta intenção foi determinante, já que o objetivo passava por “fazer com que a casa dialogasse com a paisagem rural e com a história do lugar, sem cair numa reprodução literal do passado”.
O exterior combina madeira carbonizada e painéis metálicos escuros, evocando as construções agrícolas marcadas pelo tempo, mas conferindo simultaneamente uma estética contemporânea e duradoura.
As amplas aberturas envidraçadas fragmentam a massa escura do volume e permitem que a luz natural penetre profundamente no interior.
Nas palavras do atelier Desai Chia Architecture, a forma da casa funciona como “uma moldura que orienta o olhar para os prados e os bosques envolventes”, criando uma experiência que integra arquitetura e paisagem.
Por outro lado, a sua volumetria simples é interrompida apenas para dar lugar a alpendres e terraços, que recuperam a tradição das casas rurais do nordeste dos Estados Unidos, onde o exterior se assume como uma extensão natural do interior.
Artesanato tradicional e design contemporâneo
Se o exterior procura estabelecer uma ligação visual com os celeiros do passado, o interior da Stanfordville House revela uma abordagem igualmente respeitadora, mas pensada para a vida contemporânea.
Os espaços organizam-se de forma linear, com uma grande área central que integra cozinha, sala de jantar e sala de estar.
A paleta interior combina madeira clara, pavimentos em betão polido e mobiliário cuidadosamente selecionado, criando um ambiente acolhedor, quase artesanal, que contrasta com a austeridade do exterior.
As janelas são estrategicamente enquadradas para funcionarem como quadros sobre a paisagem rural, reforçando a relação constante entre a casa e o seu enquadramento natural.
Os quartos e os espaços mais privados ocupam as extremidades do volume, tirando partido da orientação para maximizar o conforto térmico e a entrada de luz natural.
Os arquitetos explicam que a Stanfordville House foi pensada para funcionar como um refúgio ao longo de todo o ano, adaptando-se tanto ao frio do inverno como ao clima ameno do verão através de soluções passivas, como ventilação cruzada, orientação solar estudada e utilização de materiais com elevado desempenho térmico.
No desenho foram integradas peças de artesanato local e técnicas construtivas herdadas, um gesto essencial para alcançar o equilíbrio entre tradição e inovação. Nas palavras do atelier Desai Chia Architecture, o projeto “celebra a história agrícola da região, ao mesmo tempo que cria uma casa capaz de responder às necessidades contemporâneas”.
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