A pintora checa que transformou a sua aldeia numa galeria a céu aberto

A fachada é a primeira coisa que se vê numa casa. Cuidá-la custa pouco, conta uma história e, no fim, pesa no valor do imóvel.
pintar fachada
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Passeia por uma aldeia do Alentejo em maio e vais reparar nas paredes caiadas de branco, com barras azuis ou amarelas a contornar portas e janelas, muitas vezes acabadas de refrescar. 

A tradição manda que as casas sejam pintadas de branco e que tenham portas e janelas amarelas ou azuis, e que recebam uma nova camada de cal todos os anos. Durante gerações, essa tarefa cabia sobretudo às mulheres, que caiavam as casas na época em que os dias eram maiores. 

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Guarda esta imagem, porque ela ajuda a entender uma história que tem corrido as redes e que parece distante, mas afinal fala de algo muito próximo de nós.

Meio século com um pincel e uma cor só

casinha alentejana
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A história vem de Louka, uma pequena aldeia na República Checa. É hoje uma das localidades com as casas mais decoradas do planeta, graças ao trabalho de uma agricultora reformada chamada Anežka Kašpárková.

O seu percurso desmonta a ideia de que a arte exige juventude, escola ou grandes meios. Começou por pintar pratos e ovos e só passou a pintar a famosa capela da aldeia já na casa dos 40 anos. A técnica era mínima e a mão firme: usava sobretudo tinta azul e trabalhava com um único pincel pequeno. 

Sem esboços, sem moldes, sem projeto prévio. Kašpárková pintava ornamentos em azul ultramarino da sub-região etnográfica de Horňácko, num registo tradicional da região. Os motivos eram flores, corações, folhas e ramagens do imaginário folclórico morávio, e o contraste funcionava por uma razão simples: os azuis intensos resultavam de forma soberba sobre as paredes brancas caiadas das casas.

Havia ainda um pormenor que explica a persistência do trabalho. A capela é caiada de branco de dois em dois anos, o que obrigava Kašpárková a repintar os ornamentos de novo a cada dois anos. 

A própria nunca reclamou o estatuto de artista consagrada. Dizia que o fazia por prazer: afirmou aos meios checos que era uma artista, que gostava de pintar as paredes e que queria ajudar. A obra dela não morreu com ela. Anežka Kašpárková morreu em 2018, aos 90 anos, e desde então a sobrinha, Marie Jagošová, assumiu o papel de pintora da aldeia, continuando a pintar a capela nos tempos livres e de forma gratuita.

A tradição de pintar a casa também é nossa

fachada pintada
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Portugal tem, há séculos, uma cultura própria de tratar a fachada como parte da identidade da casa e da terra. As casinhas alentejanas são o exemplo mais evidente. São reconhecíveis pelas paredes brancas caiadas, frequentemente com barras azuis ou amarelas em redor de portas e janelas, e essa caiação não é só estética, porque a cal reflete o calor e mantém o interior fresco. A cor também teve sempre uma função concreta. 

A escolha e a colocação dessas cores servia para evitar que insetos e pequenos animais rastejantes entrassem em casa. A lenda popular acrescentava-lhe uma leitura mágica, a de afastar os maus espíritos, mas o essencial é que o gesto se repetia todos os anos, exatamente como em Louka.

E não é só o Alentejo. Pense-se nos azulejos que cobrem as fachadas de tantas casas e prédios, de Lisboa ao Porto, de vilas ribeirinhas a aldeias do interior. Durante gerações, foram pintados à mão, painel a painel, cada peça tratada com o pincel antes de subir à parede: motivos florais, cercaduras geométricas, cenas inteiras compostas azulejo a azulejo.

Cobrir a casa de cerâmica não era um luxo decorativo qualquer, mas uma forma de a proteger da humidade e do sol e, ao mesmo tempo, de a distinguir, de lhe dar rosto na rua. 

Podemos pintar a fachada da nossa casa?

azulejos fachada
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Se vives numa moradia, tens mais margem, embora nem tudo dependa só de ti. Uma barra de cor à volta das janelas, uma parede caiada de fresco, um painel de azulejo à entrada são gestos pequenos que ninguém te vem contestar. 

mudar a cor de toda a fachada, alterar materiais ou mexer no aspeto exterior pode ter regras, sobretudo em centros históricos, zonas classificadas ou prédios com valor patrimonial, onde a câmara tem uma palavra a dizer. 

Vale a pena confirmar antes de começar. Feita essa ressalva, o convite fica em aberto: são gestos que reclamam a fachada como tua e prolongam, à escala de uma casa, aquilo que Louka faz sozinha há décadas.

Se vives num prédio, a lógica é a mesma, mas passa pelo condomínio. A pintura das partes comuns e da fachada é uma despesa coletiva que costuma ser adiada até se tornar urgente e cara. 

Antecipá-la, com um plano de manutenção regular, evita que o problema chegue ao ponto de exigir andaimes durante semanas e uma derrama que ninguém esperava. Vale a pena ser essa pessoa, a que levanta o tema na assembleia antes de a tinta descascar, em vez da que só reage quando já não há alternativa.

A fachada é uma superfície viva que envelhece, suja e desbota, e que pede um regresso de tempos a tempos. A boa notícia é que esse regresso é barato, é acessível a qualquer pessoa com um fim de semana livre e um pincel, e devolve à casa aquilo que nenhum móvel caro consegue dar: a sensação de que ali vive alguém que se importa.

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