TNSC é um dos mais antigos teatros da Europa e o único teatro lírico em Portugal. Agora está ser reabilitado e requalificado. Contamos tudo.
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Gonçalo Lopes
Gonçalo Lopes

“Quem vê caras não vê corações”. Este provérbio da cultura portuguesa serve perfeitamente para ilustrar o que está a acontecer, neste momento, no Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), localizado no coração de Lisboa. Isto porque quem passa no Largo de São Carlos, no Chiado, e dá de caras com a fachada do imponente edifício neoclássico – construído entre 1792 e 1793 e declarado Monumento Nacional em 1996 – não faz a mínima ideia do que está a acontecer no seu interior. Em palco, o espetáculo agora não é uma ópera de Puscini, Verdi ou Wagner, mas sim um estaleiro de obras. Tal como uma orquestra de música clássica que poderia estar a interpretar Mozart, dezenas de trabalhadores de várias especialidades estão, em cena, afinados a tocar os seus instrumentos para dar uma nova vida aquele que é um dos mais antigos teatros da Europa e o único teatro lírico em Portugal. 

Com as portas fechadas ao público desde julho de 2024, o TNSC deverá voltar a funcionar na segunda metade deste ano, após as obras de reabilitação e requalificação que estão a decorrer. Mas o idealista/news conseguiu entradas antecipadas para esta temporada especial do São Carlos e foi visitar o seu interior para conhecer os segredos do projeto de renovação em curso. E agora é hora de revelar como vai renascer a "casa da ópera" de Portugal: mais moderna mas mantendo o seu valor patrimonial, para continuar a receber os amantes da arte lírica que, desde há séculos, ali procuram experiências multisensoriais únicas. 

“Numa obra ‘normal’ de construção conseguimos saber tudo o que é para executar, aqui é ao contrário. Não sabemos, por exemplo, que tipo de madeira existia”. Luís Lopes, diretor de obra da Cari Construtores, responsável pelos trabalhos de reabilitação e requalificação do TNSC, recebeu-nos e guiou-nos pela obra. Entre outras coisas, conta que não havia sistema de climatização e que tiveram de ser criados caminhos para passar cabos. “Temos de o tornar moderno ao dia de hoje”, adianta, reiterando vezes sem conta que se trata de um trabalho muito minucioso

Um teatro com mais de dois séculos de história

Teatro Nacional de São Carlos
Vista aérea do Teatro Nacional de São Carlos Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

Importa dar, antes de mais, um pouco de contexto histórico sobre o TNSC. É da autoria do arquiteto José da Costa e Silva, tendo sido construído entre 1792 e 1793 e inaugurado a 30 de junho de 1793, e é Monumento Nacional desde 1996, sendo um edifício neoclássico de influência italiana e um dos mais antigos teatros da Europa e o único teatro lírico em Portugal. Foi mandado erguer para substituir o Teatro Ópera do Tejo, destruído no Terramoto de 1755 - encontrava-se na zona da Ribeira das Naus.

“Está implantado entre prédios oitocentistas e tem nas proximidades outros imóveis classificados. (…) No interior estão considerados espaços como: foyer, salão nobre, sala principal de espetáculos de planta elíptica com cinco ordens de camarotes, de tipo italiano, caixa de palco, zonas técnicas, camarins, salas de ensaios e salas administrativas”, lê-se na página oficial do teatro. Alguns destes espaços, de resto, tivemos oportunidade de visitar.

Com autoria do arquiteto João Mendes Ribeiro e Atelier 15, a obra agora a decorrer insere-se na segunda fase do projeto de Conservação e Restauro, Reabilitação e Modernização do TNSC e é promovida pelo OPART — Organismo de Produção Artística, E.P.E., contando com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Os trabalhos arrancaram em setembro de 2025, na sequência de um investimento de cerca de 17 milhões de euros, e deverão estar concluídos ainda em 2026.

Trata-se de uma intervenção (nesta segunda fase do projeto global) que incidirá sobre os principais espaços do teatro – fachadas, telhados, foyer, cafetaria, bilheteira, salão nobre, corredores das ordens, tribuna real, camarotes, palco, teia e fosso de orquestra –, privilegiando-se a conservação de materiais originais, evitando substituições desnecessárias e prolongando o ciclo de vida dos elementos construtivos.

Andar num labirinto onde tudo é feito ao detalhe

Obras de requalificação do Teatro Nacional de São Carlos
Um dos muitos corredores do TNSC Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

A visita da equipa do idealista/news ao TNSC acontece a 15 de janeiro de 2026, num dia cinzento e chuvoso como os vários que se seguiram. Lá dentro, já vestidos a rigor – com capacete e colete –, o cenário é outro. O cheiro a madeira antiga está sempre presente e mais de 80 trabalhadores de várias especialidades dão o melhor de si. Tudo é feito ao pormenor, ao detalhe, tudo é minucioso, tendo como foco a conservação e o restauro. Os materiais, muitos, são analisados e registados, para que haja memória futura. E a tecnologia BIM já é usada, em prol da sustentabilidade e do reforço sísmico.  

Sobre a experiência? É como andar num labirinto, em que o comum dos mortais se pode perder a qualquer momento entre corredores, salas, camarotes, plateia, palco… E sim, é fácil de perceber que esta não é uma obra qualquer, uma ideia, de resto, muitas vezes deixada pelos profissionais (engenheiros, arquitetos etc.) que acompanham a visita. 

Aproveitar e reutilizar madeiras e outros materiais

Obras no Teatro Nacional de São Carlos, no Chiado
Luís Lopes, diretor de obra da Cari Construtores, empresa responsável pelas obras no TNSC Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

“Cada obra tem a sua natureza. Os materiais aqui estão todos a ser descobertos por nós no dia a dia, é um trabalho difícil, mas o difícil também é o nosso desafio”, diz Luís Lopes, diretor de obra da Cari Construtores, empresa responsável pelas obras de reabilitação e requalificação do TNSC. “Há madeiras muito, muito antigas, temos de pegar nelas e tentar reutilizá-las. Este teatro é dos anos 1790 e há aqui madeiras que são dessa data, que são muito importantes preservar”, acrescenta. 

Mas o que distingue, afinal, o TNSC de outros existentes em Portugal e mesmo a nível mundial. Só o facto de nunca ter ardido é por si só algo de especial, atesta o responsável: “Há muito património e muita história para contar. Se formos à tribuna presidencial, conseguimos ver muito da história que está aqui, porque cada tecido que tiramos tem muitas histórias que são datadas à época. A cada régua que tiramos é uma história que estamos a contar e que deixamos também para os nossos filhos e netos, e por aí adiante”. 

Luís Lopes destaca também os trabalhos relacionados com o palco, que vai ter uma inclinação através de um sistema motorizado – “É algo inovador, penso que em Portugal nenhum teatro tem esse sistema” –, e com a mecânica de cena (a engenharia aplicada ao teatro que possibilita a movimentação segura e precisa de cenários, atores e iluminação), considerando que o TNSC vai passar a ser um dos melhores teatros do género da Europa. 

Descobertas arqueológicas que remontam ao sismo de 1755

Teatro Nacional de São Carlos em obras
Escavações arqueológicas com vestígios que remontam ao terramoto de 1755 Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

Durante a conversa, que decorre no salão nobre – encontra-se por cima do foyer, a sala principal do teatro, onde está a bilheteira e a cafetaria (ambos os espaços com vista para o Largo de São Carlos) –, Luís Lopes conta que foram feitas descobertas arqueológicas que, como em qualquer empreitada, acabam por atrasar um pouco os trabalhos.   

“Nos trabalhos de arqueologia foram encontradas estruturas da época do terramoto [de 1755], onde a dada altura se conseguia ver o limite do aterro do incêndio que ocorreu. E temos também de registar essas próprias estruturas, porque é a história, é o passado. Enquanto isso, temos de nos reinventar”, explica, indicado que a parte das descobertas arqueológicas encontra-se debaixo do palco. 

E por falar em terramoto, os trabalhos que estão a ser realizados no TNSC visam também dotar os edifícios em causa com reforço sísmico. “Este edifício tem uma estrutura antiga de madeira. Teve alguns reforços estruturais durante estes anos todos, e tudo isto tem de ser monitorizado. É um misto de aproveitar as estruturas de madeira, em que existirá o reforço das paredes de alvenaria existentes com reboco armado com malhasol, e é projetado com argamassas à base de cal, que é como está o edifício, e faz a própria interligação com o reforço estrutural à base de estrutura metálica. E, claro, temos sempre a estrutura de betão armado para fazer um reforço das fundações”, sublinha. 

Muito útil durante este processo, assegura, tem sido o uso da tecnologia BIM, uma ferramenta que permite fazer a modelação 3D em que se conseguem ver as instalações de todo o edifício. 

Sótão que faz lembrar caravelas… e uma sala do relógio

Obras de modernização do Teatro Nacional de São Carlos
No sótão, que poderá ser visitado, as madeiras fazem lembrar caravelas Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

Um dos pontos altos da visita guiada às obras do TNSC fica reservado para o final. Falamos do sótão e da futura sala do relógio, espaços que poderão ser visitados pelo público. As enormes vigas de madeira fazem lembrar caravelas, idealiza Luís Lopes, considerando que conferem uma beleza rara ao espaço. Um sentimento que subscrevemos e que torna esta experiência sensorial única.   

“Esse espaço, o cliente, e muito bem, vai dotá-lo para visitas ao público. É um espaço em que ficamos maravilhados. Se calhar, a primeira vez que entrei neste teatro, o que me chamou mais à vista foi mesmo o sótão. Através de uma foto ou de um vídeo não conseguimos ver a imagem que ali está. Se calhar, é como entrar numa sala de cinema onde conseguimos ver o passado, as caravelas”, desabafa. “E ao lado vai ser a sala do relógio, relógio esse que se encontra na fachada do lado exterior [do TNSC]. As obras vão ligar essas duas partes. Vão ser criadas duas caixas de escadas, dois elevadores, para se conseguir mostrar às pessoas o que temos ali de bom. Antigamente aquele espaço era fechado e fazem muito bem em partilhá-lo com toda a gente”, prossegue. 

Que obras estão a decorrer nos vários espaços?

Explicamos agora, de forma sintética e com a ajuda de Luís Lopes e de outros especialistas que participaram na visita, algumas das obras que estão a decorrer nesta fase em alguns dos espaços do TNSC.

Salão Nobre (onde se realizou a entrevista)

Salão nobre do TNSC
Salão Nobre Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

Vai ser também dotado de sistema de som e de ar condicionado, as luzes (iluminação) vão ser retificadas e os lustres estão a ser restaurados. O mais difícil será sempre a compatibilização das várias especialidades com o existente, até porque existe em baixo outro espaço importante, o foyer, onde também há tetos e paredes trabalhados. O mais complicado é sempre encontrar um caminho para a passagem das tubagens, que são pesadas. Serão feitas reintegrações das molduras e os próprios tecidos também vão ser recuperados, bem como o chão. No fundo é tudo recuperado, mantendo a essência que existia.

Foyer

Foyer do TNSC
Foyer Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

É a sala principal do teatro: a bilheteira é de um lado e a cafetaria do outro. Trata-se de uma intervenção de conservação e restauro, não há intervenção de especialidades, não há alteração. Já está uma equipa a fazer a intervenção de limpeza, tendo o espaço danos de impacto de utilização. 

Plateia e palco

Palco do TNSC
Palco Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

A zona do palco e da plateia vai ser toda demolida e vai haver uma nova sala de exposições temporárias. O palco vai ter inclinação, através de um sistema motorizado: é algo inovador em Portugal e a nível de mecânica de cena será um dos melhores teatros da Europa. O arco do palco ainda vai ser intervencionado, sendo que o teto já foi limpo - o que se vê a cor de rosa parece pintura, mas é tela sobre a estrutura de estuque. Foi tudo restaurado. E o relógio é o original. A plateia e o palco estão interligados a um túnel que neste momento está em trabalhos de arqueologia. 

Barca acústica

Obras de requalificação do Teatro Nacional de São Carlos
Barca acústica Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

A barca acústica (equipamento amovível, geralmente de madeira, colocado à volta ou em baixo da orquestra/músicos para refletir o som em direção à plateia, aumentando o potencial acústico, unificando o volume entre o palco e o auditório) do TNSC tem um valor patrimonial gigante, sendo única em Portugal. Tem uma configuração oval, o que lhe confere uma geometria difícil de executar novamente, mas tem de se reaproveitar as peças de madeira, que estão a ser retiradas, restauradas e modeladas em BIM, e depois há que voltar a montar a barca acústica no local. Está tudo a ser mapeado para ser restaurado e será preservado o existente. O local onde está a ser feito o trabalho de requalificação da barca acústica passou a ser a oficina de conservação e restauro da Cari Construtores dentro da própria obra, naquele que era o gabinete de cenografia.

Camarotes e zonas de corredores que dão acesso aos camarotes

Visita às obras a decorrer no Teatro Nacional de São Carlos
Interior de um camarote do teatro, já intervencionado Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

O corredor já foi todo aberto. Era tudo muito arcaico e insuficiente. A parte exterior dos camarotes já foi intervencionada, agora está a ser feita a conservação e restauro do interior dos camarotes, sendo que há camarotes em cinco pisos. No caso do pavimento dos corredores, já foi feita a passagem das tubagens, falta agora a colocação. Nos camarotes, o revestimento, o têxtil, é todo novo, mas o teto, os rodapés, o pavimento, a madeira existente… têm de ser removidas, algumas restauradas, e depois voltam a ser colocadas.  

Sótão e sala do relógio

Obras no Teatro Nacional de São Carlos
Sótão Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

O sótão é um espaço com uma arquitetura diferente do normal, repleta de madeiras, faz lembrar uma caravela. Poderá ser visitável e servir, por exemplo, para conferências. Todas as madeiras são para preservar e manter, o que vier de novo é para reforçar o existente. Já a sala do relógio, ao lado do sótão (ou também no sótão), terá este nome porque tem o relógio no exterior, visível na fachada. É um espaço bonito que pode ser independente da própria ópera, do espetáculo, podendo servir para outro tipo de eventos. 

A mensagem final? "Acho que nada se compara a este teatro, este é qualquer coisa... nós passamos aqui um dia, se calhar, a maravilhar-nos e não damos conta do tempo a passar. Estamos aqui a fazer esta entrevista e, se calhar, vocês ainda ficavam aqui mais duas horas e não se sentiam mal ao estar aqui". Sim, Luís Lopes, é esse o sentimento. 

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