Vila portuguesa guarda uma das maiores necrópoles da Península Ibérica

Em Melgaço, no extremo norte de Portugal, um castelo mandado erguer por D. Afonso Henriques vigia há séculos a passagem para a Galiza.
Melgaço
Creative commons

Imagina uma vila que percorres numa tarde, mas com uma história daria para uma vida inteira de descobertas. Melgaço, no extremo mais a norte de Portugal, é assim: um pequeno emaranhado de ruas empedradas, encostado à Galiza e separado de Espanha apenas pelo rio Minho.

O castelo que Portugal construiu para vigiar Espanha

Inês Negra
Creative commons

No alto de uma colina que domina todo o vale, Melgaço guarda um castelo mandado construir pelo próprio D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. Foi em pleno século XII, quando o jovem reino começava a consolidar a sua identidade e precisava de definir a fronteira com os territórios do outro lado da linha.

Publicidade

A partir dali vigiava‑se a passagem para a Galiza. Não era uma fortaleza decorativa, mas um ponto essencial para defender o território. 

Séculos mais tarde, a vila resistiu a um cerco de tropas castelhanas que se prolongou durante semanas. A tradição local atribui parte dessa resistência à coragem de Inês Negra, mulher transformada em símbolo de Melgaço e hoje recordada por uma estátua à entrada do recinto muralhado. Atualmente, mantém‑se de pé a torre de menagem, que conserva:

  • Três pisos e planta quadrada;
  • Classificação como Monumento Nacional;
  • Um pequeno museu de arqueologia no interior;
  • Vistas sobre as serras vizinhas e, em dias limpos, até ao território galego.

Antes do castelo: o Melgaço neolítico

Planalto de Castro Laboreiro
Créditos: Luís Borges / imagem retirada do site oficial do Parque Nacional Peneda-Gerês

Se o castelo conta a história mais recente de Melgaço, para descobrir o seu passado mais remoto é preciso subir até ao planalto de Castro Laboreiro. Neste planalto de montanha conservam‑se mais de 80 monumentos pré-históricos, que remontam ao Neolítico, tais como:

  • Antas: monumentos funerários pré-históricos, também conhecidos como dólmens. Normalmente têm grandes pedras colocadas na vertical, chamadas esteios, que formam uma câmara sepulcral, coberta por uma laje de pedra. Eram usadas para enterramentos coletivos e, em muitos casos, tinham um corredor de acesso;
  • Mamoas: montes artificiais de terra e pedras que cobriam ou protegiam uma anta. À primeira vista, podem parecer apenas uma pequena elevação no terreno, mas escondem muitas vezes uma estrutura funerária no interior. O património arqueológico português identifica estas estruturas como túmulos construídos com terra e pedra miúda;
  • Alinhamentos de pedra: conjuntos de pedras colocadas propositadamente em linha ou segundo uma organização geométrica. Podiam ter funções rituais, simbólicas, territoriais ou até estar relacionados com observações astronómicas e ciclos solares. Ao contrário das antas, não eram necessariamente túmulos: funcionavam mais como marcas monumentais na paisagem.

Na zona de Fieiral esconde‑se ainda uma das maiores necrópoles pré-históricas de toda a Península Ibérica, um tesouro arqueológico de que, surpreendentemente, pouco se fala.

A própria aldeia de Castro Laboreiro tem raízes na Idade do Ferro. Ali ainda se conseguem ver vestígios de um antigo castro.

Todo este património está integrado no Parque Nacional da Peneda‑Gerês, o único parque nacional de Portugal: um território de nevoeiro, cumes e silêncio, onde o tempo parece correr a outro ritmo.

O balneário centenário que recuperou do esquecimento

Termas de Melgaço
Creative commons

As Termas de Melgaço têm indícios de utilização desde a época romana, mas viveram o seu grande auge no final do século XIX, quando a alta sociedade portuguesa viajava até aqui para “tomar as águas” e tratar problemas reumáticos.

Chegou a surgir todo um bairro de hotéis em redor do balneário. Com o passar do tempo, caiu no esquecimento, mas voltou entretanto a abrir portas, com piscinas termais e tratamentos.

O museu que ninguém espera encontrar numa vila assim

Museu do cinema de Melgaço
Creative commons

O concelho guarda ainda duas surpresas museológicas pouco habituais para uma vila desta dimensão:

  • Museu de Cinema Jean‑Loup Passek: dedicado ao realizador que dirigiu o departamento de cinema do Centro Pompidou, em Paris, e que, apaixonado por esta vila, doou uma coleção reunida ao longo de quase 50 anos. Há projetores, cartazes originais e objetos que percorrem a história da sétima arte;
  • Espaço Memória e Fronteira: instalado no antigo matadouro municipal, recupera a memória do contrabando e da emigração clandestina que marcaram esta fronteira durante grande parte do século XX. Numa época em que cruzar “a salto” para Espanha ou França era, para muitos habitantes, a única saída.

Para poder comentar deves entrar na tua conta

Acompanha toda a informação imobiliária e os relatórios de dados mais atuais nas nossas newsletters diária e semanal. Também podes acompanhar o mercado imobiliário de luxo com a nossa newsletter mensal de luxo.