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“Ficava aqui já hoje”: quando a decoração chega ao coração do cliente

Filipa Fleming, que decorou o apartamento T0 do emblemático 266 Liberdade, conta entrevista ao idealista/news os desafios deste e de outros projetos.

Filipa Fleming, a decoradora do T0 do 266 Liberdade
Filipa Fleming, a decoradora do T0 do 266 Liberdade
Autor: Vanessa Sousa

Decorar um apartamento T0 no emblemático 266 Liberdade – historicamente conhecido como o edifício do Diário de Notícias – foi um dos grandes desafios que a decoradora Filipa Fleming enfrentou nos últimos tempos. Deixando-se inspirar pela história, pela arquitetura e localização deste edifício no centro de Lisboa, transformou um espaço com apenas 50 metros quadrados (m2) num local com “requinte, sobriedade e sofisticação”, conta em entrevista ao idealista/news.

Ao abraçar o projeto proposto pela promotora Avenue, Filipa Fleming – que em 2016 abriu o seu próprio atelier designado ‘Filipa Fleming Interior Design’ - assume, desde logo, que “um dos aspetos mais desafiantes foi, sem dúvida, criar num apartamento com cerca de 50 m2 num espaço multifuncional e, ao mesmo tempo, prático e confortável”. E não foi o único: “outro grande desafio foi contornar a utilização de uma cama explícita e demarcada”, conta em entrevista. Para este ponto, a decoradora encontrou uma solução sofá/cama que se tornou numa “peça central e o fio condutor para o desenvolvimento de todo o processo criativo”, disse ainda.

Para este e para qualquer outro projeto, a decoradora reconhece queé determinante conhecer o gosto, personalidade e estilo de vida do cliente”. Neste caso em concreto, “o projeto foi idealizado para um ‘cliente tipo’ que não vive em Lisboa, mas que mantém uma relação próxima com a cidade”, conta na mesma entrevista. Selecionando “‘pequenos grandes’ detalhes que fazem toda a diferença e que conferem a cada projeto um caráter único e irrepetível”, Filipa Fleming diz ter alcançado um resultado final “bem conseguido” e considera “superadas até as expetativas do cliente”. Este apartamento “acima de tudo cumpre a sua função de ser um local versátil e muito confortável onde é possível trabalhar, conviver e descansar”, conclui.

Apartamento T0 no 266 Liberdade / Filipa Fleming Interior Design
Apartamento T0 no 266 Liberdade / Filipa Fleming Interior Design
Decorar um dos 34 apartamentos do recém-reabilitado edifício 266 Liberdade é um dos grandes projetos da decoradora que já exerce atividade há 22 anos, mas não é o único. Na mesma entrevista, destaca que “um dos projetos mais desafiantes foi uma moradia particular em Lisboa, pois implicou uma remodelação profunda a nível de arquitetura e decoração de interiores para um cliente que nem sempre tinha objetivos e estilos bem definidos. Isso obrigou-me a tomar decisões de grande responsabilidade e todos os dias analisava novos materiais e soluções para lhe apresentar”, explica Filipa Fleming. Sobre este último projeto, a decoradora não tem dúvidas: “o resultado final foi muito interessante, e provocou no cliente uma sensação imediata de bem-estar na sua nova casa e isso é sempre o mais importante”.

Filipa Fleming, que conta com uma passagem pelo Brasil durante quatro anos que a ajudou a “enriquecer” a sua experiência profissional, já tem outro projeto em mãos. Trata-se de outro apartamento modelo situado perto de Lisboa para o qual tem de idealizar um cliente-tipo e assume, desde já, que “a decoração terá de ser predominantemente neutra, com soluções práticas que agradem a um grande número de pessoas”. Isto porque “quem visita o espaço tem de se identificar com ele, de se sentir acolhido ou de o olhar como uma fonte de inspiração para a sua nova casa. Quando o potencial cliente diz ‘eu ficava aqui já hoje’ é porque o nosso trabalho valeu a pena”, conclui.

Mas como chegou Filipa Fleming até aqui? Quais foram as suas fontes de inspiração para desenvolver estes projetos? E quais os pormenores de cada um? Para responder a estar e outras questões, reproduzimos a entrevista na íntegra.

Moradia particular em Lisboa / Filipa Fleming Interior Design
Moradia particular em Lisboa / Filipa Fleming Interior Design

Como recebeu o desafio de decorar o estúdio T0 no emblemático edifício 266 Liberdade?

O desafio partiu da Avenue, o promotor do 266 Liberdade, que me propôs idealizar a decoração de um estúdio com cerca de 50 metros quadrados no 4º piso deste edifício.

Nem sempre é fácil para o cliente visualizar o potencial de um espaço vazio e fazê-lo num apartamento pequeno que visa ser multifuncional torna-se ainda mais complexo. Como tal, o projeto de decoração vai ajudar o cliente a perceber melhor o que fazer no espaço, realçando, neste caso em particular, a qualidade das habitações deste emblemático edifício. A ideia é que quem visita o apartamento se identifique com ele, se sinta em casa.

O caráter exclusivo do 266 Liberdade foi outro fator que inspirou o projeto de decoração.

Quais foram as suas principais fontes de inspiração? A história do edifício foi uma delas?

Houve várias fontes de inspiração e, sem dúvida, que a história do próprio edifício foi uma delas.  A sua arquitetura modernista é muito marcante e essa influência é visível através da incorporação de peças de ‘design’ exclusivo e elementos utilizados na época ArtDeco, como os dourados, os latões e os mármores. O projeto de decoração estendeu-se ainda ao 'foyer' do edifício e também aí foram usadas peças personalizadas de ‘design’ moderno, mas que nos remetem para a época do edifício.

A localização e o caráter exclusivo do 266 Liberdade foi outro fator que inspirou o projeto de decoração, que procurou criar um espaço sóbrio, acolhedor e sofisticado num ambiente clássico, onde se evidenciam várias peças desenhadas propositadamente para este apartamento.

Como em qualquer projeto, é determinante conhecer o gosto, personalidade e estilo de vida do cliente. Tratando-se de um apartamento que ainda não tem cliente final, o projeto foi idealizado para um ‘cliente tipo’ que não vive em Lisboa, mas que mantém uma relação próxima com a cidade, necessitando, por isso, de usar o apartamento por razões profissionais e de lazer. Como tal, foi criado um espaço multifuncional com diferentes ambientes que assumem diferentes funções: descanso, convívio, trabalho e refeições.

'Foyer' do 266 Liberdade / Filipa Fleming Interior Design
'Foyer' do 266 Liberdade / Filipa Fleming Interior Design

Em que aspetos se baseou na escolha de objetos decorativos e tonalidades?

A versatilidade do apartamento era um ponto-chave deste projeto e, por outro lado, era importante que o espaço não tivesse apenas um ambiente de quarto de hotel. Estes dois fatores são o ponto de partida do projeto e o sofá/cama acaba por ser a peça central e o fio condutor para o desenvolvimento de todo o processo criativo.

A opção do sofá/cama, desenhado à medida para este apartamento, proporciona a versatilidade desejada sem o ‘estigma’ de nos encontrarmos num quarto, podendo, rapidamente, ser transformado num quarto de dormir, uma vez que tem dupla função. Por ser bastante grande (em versão cama tem 1,40 metros de largura), optou-se por um tom neutro onde sobressaem vários almofadões e almofadas, de diversos tamanhos, texturas e tecidos que lhe dão vida e conferem um aspeto glamoroso e confortável.

Outro ponto de partida foi o sofá veludo açafrão, que é o elemento central de outro ambiente com dupla função: sala de jantar e área de trabalho.

A partir destes dois elementos foram incorporadas outras peças, com harmonia e coerência, e conjugaram-se cores e texturas, sempre em tons neutros e claros, mas com apontamentos de cor e graça. 

Que detalhes da decoração destaca no apartamento?

Costumo dizer que são os ‘pequenos grandes’ detalhes que fazem toda a diferença e que conferem a cada projeto um caráter único e irrepetível. Neste caso, destaco um conjunto de elementos que se cruzam todos entre si por pequenos pontos. São exemplo disso os rolinhos em cores diferentes que fazem realçar as almofadas, as tachas em dourado velho que foram encastradas no remate do tapete em pele acastanhada e que depois se repetem noutras peças como o tabuleiro verde e o rodapé do grande aparador em chapa de bronze, outra peça muito marcante no espaço.

São os ‘pequenos grandes’ detalhes que fazem toda a diferença e que conferem a cada projeto um caráter único e irrepetível.

Quais foram os aspetos mais desafiantes?

Um dos aspetos mais desafiantes foi, sem dúvida, criar num apartamento com cerca de 50 m2 um espaço multifuncional e, ao mesmo tempo, prático e confortável. Outro grande desafio foi contornar a utilização de uma cama explícita e demarcada, pois iria marcar demasiado o espaço e inibir algumas das funções do apartamento, nomeadamente a função social. Creio que conseguimos dar a volta a ambas as questões através de abordagens menos convencionais e imediatas.

Como avalia o resultado final?

Creio que o resultado final foi bem conseguido e superadas até as expetativas do cliente. Criamos um espaço com requinte, sobriedade e sofisticação com cruzamento de estilos. Foram conjugadas peças de ‘design’ moderno com outras que remetem para a época ArtDeco e juntámos ainda elementos com um ar mais industrial, como é o caso dos espelhos na zona de jantar. E acima de tudo cumpre a sua função de ser um local versátil e muito confortável onde é possível trabalhar, conviver e descansar.

Apartamento T0 no 266 Liberdade / Filipa Fleming Interior Design
Apartamento T0 no 266 Liberdade / Filipa Fleming Interior Design
Quando começou o seu percurso na área de ‘design’ e decoração de interiores? Como o descreve?

Iniciei o meu percurso profissional em 1999 logo após ter concluído a licenciatura em Design de Interiores e Mobiliário, altura em que colaborei com diversas empresas e ateliers de Decoração de Interiores no Porto, de onde sou natural e, em Lisboa, conciliando sempre esta atividade com a ‘função’ de mãe de três filhos pequenos.

Por motivos profissionais, a minha família mudou-se para o Brasil, em São Paulo, onde residimos durante quatro anos. A nível profissional tive a oportunidade de enriquecer a minha experiência de trabalho e formação na área de Decoração de Festas e Eventos, atividade que ainda hoje acompanho.

No regresso a Lisboa, em 2016, e já com os filhos mais independentes, dediquei-me a 100% a esta atividade, fazendo crescer o meu atelier e apostando na notoriedade da minha nova marca - Filipa Fleming, Interior Design - prestando serviços a clientes particulares e institucionais desde a fase inicial de conceito, execução de projeto e obra e implementação de todas as peças no espaço.

Na conceção dos meus projetos, o ponto de partida é sempre a escuta ativa do cliente. Conhecer o seu gosto e personalidade, o seu estilo de vida, as suas necessidades e a forma como quer “viver” o espaço, é fundamental para lhe apresentar ideias e soluções personalizadas que traduzam os seus objetivos e aspirações e respeitem plenamente a sua vontade e a sua estética.

O ‘design’ e confeção por medida é, por isso, um ponto forte no atelier, pois além de criar mobiliário e peças decorativas mais ajustadas ao espaço e ao estilo do cliente, imprimem um cunho muito pessoal e distintivo na criação de ambientes mais exclusivos.

Quando o potencial cliente diz “eu ficava aqui já hoje” é porque o nosso trabalho valeu a pena.  

Para além deste, que outro projeto de decoração de interiores destaca? Porquê?

Um dos projetos mais desafiantes foi uma moradia particular em Lisboa, pois implicou uma remodelação profunda a nível de arquitetura e decoração de interiores para um cliente que nem sempre tinha objetivos e estilos bem definidos. Isso obrigou-me a tomar decisões de grande responsabilidade e todos os dias analisava novos materiais e soluções para lhe apresentar.

No entanto, tive um prazer enorme a desenvolver esse projeto, um processo longo, que acabou por ser muito gratificante, já que me obrigou a crescer. O resultado final foi muito interessante, e provocou no cliente uma sensação imediata de bem-estar na sua nova casa e isso é sempre o mais importante.

Moradia particular em Lisboa / Filipa Fleming Interior Design
Moradia particular em Lisboa / Filipa Fleming Interior Design
Atualmente, tem em mãos outro projeto desta natureza? Fale-nos um pouco sobre ele.

Sim, estou prestes a iniciar outro projeto do género, igualmente um apartamento modelo, noutra zona da cidade de Lisboa, de dimensões maiores e vocacionado para famílias.

Neste tipo de projetos e ainda que seja idealizado um cliente-tipo, a decoração terá de ser predominantemente neutra, com soluções práticas que agradem a um grande número de pessoas. Quem visita o espaço tem de se identificar com ele, de se sentir acolhido ou de o olhar como uma fonte de inspiração para a sua nova casa. Quando o potencial cliente diz “eu ficava aqui já hoje” é porque o nosso trabalho valeu a pena.  

Gostaria ainda de referir que considero muito importante a decoração de apartamentos modelo, assim como o aconselhamento de designers na fase inicial destes projetos imobiliários. O perfil de cliente destes projetos recorre cada vez mais a decoradores profissionais e, por vezes, a parte mais técnica dos espaços pode dificultar uma boa decoração, pois o local previsto para colocar a TV, a cama ou a iluminação, por exemplo, pode não ser a ideal para o decorador.