Notícias sobre o mercado imobiliário e economia
Mudei-me para uma casa no campo - <p>A procura de casa em zonas rurais ou perto da praia, longe dos centros urbanos, é uma tendência que ganhou força na pandemia. Decidimos, por isso, preparar um especial com testemunhos reais, de quem resolveu dar este passo em frente e viver de outra forma.</p>

"Mudei de Campo de Ourique para a Charneca de Caparica, porque a vida mudou"

A minha história, contada na primeira pessoa, é a primeira de várias que vos vou contar, ao longo desta semana, no idealista/news, sobre mudanças de casa. Mudanças de vida.

Pedro Góis
Pedro Góis
Autor: Catarina Beato (colaborador do idealista news)

Eu* nasci na cidade. Em Almada. Já crescida, e mãe, fui viver para Lisboa. Faço parte daquele grupo de pessoas que não imagina (imaginava) a vida sem as luzes dos prédios e dos carros, o som das ambulâncias e dos aviões, e aquele burburinho constante que nos faz acreditar que não existe um único instante em que as ruas estejam vazias. A cidade tem uma certa poesia.

E palavras bonitas à parte, a cidade tem uma quantidade infinita de qualidades: a proximidade de tudo, a possibilidade de andar sempre a pé, os cafés e restaurantes, os supermercados e uma farmácia em cada esquina - com uma sempre em horário alargado. A cidade tem tudo.

A minha opinião continua igual. A cidade tem tudo. Mas a vida mudou e eu também.

Nos últimos anos, os regressos das férias, em lugares calmos, eram sempre muito duros. Como se, assim que chegasse à cidade, todo o descanso desaparecesse. Como se a minha cabeça ficasse exausta, assim que voltava a lidar com a aceleração da cidade. Mas fui passando por cima dessas sensações, por acreditar que nunca conseguiria sair da cidade.

Nesta fase da vida éramos um casal, quatro filhos (meus, teus e nossos) e quatro cães. Sim, viviamos estes todos, numa casa enorme, arrendada, no meio da cidade. Em pleno bairro de Campo de Ourique.

Há dois anos e meio o meu avô faleceu a meio do verão. Regressámos mais cedo de férias e durante alguns dias estivemos sempre em casa da minha mãe (que já vive numa zona calma e perto da praia há uns anos). Numa viagem de carro, passámos por uma vivenda em construção e desafiei o Pedro (meu marido) para irmos ver. Detestámos a casa, mas a hipótese de mudar deixou de ser um tabu, para mim e para nós.

Pedro Góis
Pedro Góis

Fazia todo o sentido: mais espaço para os miúdos, viver mais próximo da minha mãe e investir numa casa própria, em vez de manter um valor de arrendamento tão alto.

Nas semanas seguintes, contactámos um agente imobiliário que dominava a zona e explicámos exatamente o que queríamos: um terreno que estivesse a 'walking distance' da casa da minha mãe. No mesmo dia das visitas ficámos com duas possibilidades e o Pedro quis o terreno mais afastado de estradas principais. Os preços estavam já um pouco inflacionados, tanto o terreno como a construção, mas ainda encontrámos uma solução com valores equilibrados para o nosso orçamento. Escolhido!

A escolha do terreno foi simples, mas a construção foi um desafio (enorme desafio). Começámos a construir em março de 2019. Mudámos para a Margem Sul, a sério, em maio de 2020, em plena pandemia e confinamento.

Numa primeira fase, fomos viver para casa da minha mãe para poupar algum dinheiro e estar próximo da obra. Nos primeiros meses eu só pensava no que tinha feito à minha vida. Como é que ia viver sem as luzes dos prédios e dos carros, o som das ambulâncias e dos aviões, e o burburinho da cidade?

Depois da mudança mesmo para a nossa casa, na Charneca de Caparica, ainda que na mesma zona de campo, calma e proximidade do mar, e principalmente no duro período do confinamento, por causa da pandemia da Covid-19, todos os possíveis arrependimentos passaram e tive a certeza de que tínhamos tomado a decisão certa.

Comecei a sentir-me muito grata por estar ali, naquela calma. Somos uns privilegiados: temos espaço, ar puro, e a família por perto. A calma vai-se entranhando, aprendi a desacelerar, e criámos novas rotinas. Hoje não quero sair daqui.

Pedro Góis
Pedro Góis
Pedro Góis
Pedro Góis

Ainda assim, como nem tudo são palavras bonitas nem tenhamos ilusões, há coisas que fazem falta no campo. O carro é necessário em quase todas as deslocações (e os transportes públicos são quase inexistentes), os serviços disponíveis são mais limitados e algumas lojas continuam em Lisboa. E apesar de tudo acontecer com mais calma aqui no campo, o trânsito para quem precisa de ir para a cidade trabalhar é caótico.

Eu, como trabalho em casa, consigo fechar-me na bolha aqui na casa do campo e ignorar grande parte das desvantagens desta mudança.

Como em qualquer grande história de amor, o nosso casamento com o campo está a correr de forma perfeita, mas o “para sempre” logo vemos conforme os dias forem correndo.

Catarina Fernandes
Catarina Fernandes

*Catarina Beato, autora e coach assina o especial "Mudei-me para uma casa no campo", de autoria do idealista/news.pt