Professor e filósofo, Nuno Crespo é o curador chefe da 1ªTrienal de Arte das Universidades Católicas, a convite do Vaticano.
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Formado em Filosofia, crítico de arte e diretor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, o português Nuno Crespo é o curador-chefe da primeira Trienal de Arte das Universidades Católicas, um projeto inédito que cruza arte contemporânea, educação e um mapa global de cidades e universidades. E o programa curatorial vai integrar artistas emergentes e consagrados de todo o mundo, desafiando-os a refletir sobre temas do mundo de hoje, tal como avança o responsável em entrevista ao idealista/news.

O convite do Vaticano, para além do "trabalho de uma vida" e de uma "enorme responsabilidade", diz que foi a correspondência perfeita com aquilo em que acredita: "a Arte é o melhor termómetro para ler a sociedade contemporânea". 

O tema da Art Cut - "Exercícios de Empatia", iniciativa idealizada pelo cardeal Tolentino de Mendonça, é a resposta ao momento político e social atual. "Escolhemos o tema da empatia porque é simultaneamente um conceito ético, moral, político, mas ao mesmo tempo um conceito estético", explica Nuno Crespo. E a expressão "exercícios" também é um conceito muito importante, "porque a empatia, estejamos nós a pensar na empatia em termos estéticos, ou em termos éticos, não é algo que se conquiste de uma vez para sempre. Exige mesmo uma prática contínua, diária".

O projeto vai desenvolver-se em múltiplas geografias de vários continentes, ao longo de 2026. E os espaços expositivos, estão pensados numa lógica híbrida que inclui plataformas digitais, instalação urbana e colaboração com instituições académicas e artísticas.

E dificilmente existiria melhor momento no estado do mundo para, juntando cultura e educação, fazer um exercício coletivo de escuta, reflexão e diálogo. 

Nuno Crespo
idealista/news

O que o trouxe até este convite para ser curador chefe da primeira Trienal de Arte das Universidades Católicas?

Não há nada assim muito extraordinário, nenhum acontecimento assim muito marcante, foi um interesse e um envolvimento muito natural. Eu estudei Filosofia na Universidade Nova de Lisboa e, a partir de determinada altura, tive dois professores, o José Gil e a Maria Filomena Molder, para quem as obras de arte eram objetos muito importantes enquanto problema filosófico. Não eram só coisas que nós víamos em museus e que víamos nos cinemas, para nos entreter, mas eram construções materiais de problemas filosóficos. 

Até essa altura eu fiz um percurso normalíssimo de um estudante de Letras, muito interessado pelas questões da filosofia da ciência, e depois com eles a questão de haver objetos que nos colocam imensas dificuldades do ponto de vista do seu pensamento, da sua reflexão, foi aquilo que me agarrou mais. 

A isto posso juntar um outro facto: o desejo que nasceu, não sei bem porquê, de ser crítico de Arte no jornal Público. Eu sempre fui um leitor grande de jornais, acho que devíamos todos gostar de muitos jornais, são muito importantes enquanto fontes de conhecimento e alimento de democracia. Insisti, insisti, insisti e passei por uma prova cega - na altura a editora de cultura era a Bárbara Reis, e entrei como crítico de arte. E a partir daí foi um percurso normal. Um percurso normal, mas não vem de um contexto familiar ligado às artes, foi um acontecimento da Universidade ligado a estas duas figuras muito marcantes, que me fizeram descobrir, de facto, que os objetos artísticos trazem uma visão do mundo e um conhecimento do mundo muito diferenciado e muito importante.
 

Os objetos artísticos trazem uma visão do mundo e um conhecimento do mundo muito diferenciado e muito importante.

A arte serve para nos provocar?

É isso que queremos da arte, que nos provoque de várias formas. Não só aquela provocação que estamos à espera, a provocação política e de reação, mas provocar uma série de coisas: pensamento, reflexão, prazer. Eu acho que a arte contemporânea às vezes se esquece deste elemento tão importante, que é um prazer muito diferente dos outros, mas que não deixa de ser um prazer. Podemos chamar-lhe "satisfação", mas de facto há um prazer quando vemos um filme que gostamos, vemos uma peça de teatro, uma pintura, uma escultura, ou ouvimos um tema musical. 

A arte é um objeto absolutamente privilegiado, do ponto de vista da nossa constituição enquanto ser humano. Porque não há arte se não houver corpo, se não houver material, se não houver uma mão que faz, uma mão que compõe, uma cabeça que pensa. Há uma expressão que eu gosto bastante, ainda que seja muito metafórica, é muito clara, de Schiller, um filósofo alemão, um dos primeiros leitores do Kant, que diz "o homem é o infeliz meio termo entre o anjo e a besta". A arte é exatamente reflexo disso, é preciso sujar as mãos, mas ao mesmo tempo é preciso ter uma capacidade reflexiva bastante desenvolvida.

A pergunta é inevitável: o que se sente com este convite?

Quando uma  pessoa quando recebe um convite destes por parte da Santa Sé, não podemos senão sentir-nos muito honrados, mas com essa honra vem um sentido enorme de responsabilidade. É um evento global de arte contemporânea que nunca antes foi feito e isso dá aquele nervoso bom, que dá vontade de fazer, que dá energia e que provoca movimento. No plural porque, ainda que seja o curador-chefe, temos uma equipa extraordinária dentro e fora do Vaticano, com as universidades católicas espalhadas pelo mundo que estão associadas. 

Vaticano
Getty images

Estamos todos num período de reflexão sobre que modelo é que nós queremos para este evento global de arte que seja distinto dos outros. O mundo, felizmente, está cheio de exposições universais, há muitos eventos internacionais de arte, com muitos artistas que circulam a mostrar obras muito boas por este mundo inteiro, com propostas curatoriais muito diversificadas, de altíssima qualidade. O desafio é perceber o que podemos fazer que não seja uma repetição do modelo das exposições internacionais, sejam elas as Bienais de Veneza, São Paulo ou Sidney, Sarjá.

Mas sim, neste momento o sentimento é uma honra enorme e, devo confessar, que é o trabalho de uma vida. O convite para dirigir a Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa foi um convite genial. Estar ao serviço de uma instituição como a Universidade Católica Portuguesa e estar ao serviço do pensamento do que é que significa ensinar arte, o que é que é uma escola de arte em 2026, é uma honra enorme.

E como surge a ideia desta primeira Trienal de Arte das Universidades Católicas?

O Papa Francisco, durante o seu pontificado criou um dicastério, que é o nome que a Cúria Romana dá aos ministérios, de cultura e educação. O Prefeito, que é o Ministro, é o cardeal Tolentino de Mendonça, e tem sob a sua alçada estes dois mundos enormes - educação e cultura. 

A Trienal nasce, primeiro, de um investimento enorme que o Vaticano, por via do cardeal Tolentino Mendonça, tem feito na arte contemporânea, através de múltiplos projetos, não só as participações com os pavilhões oficiais da Santa Sé, nas Bienais da Arquitetura e de Artes Visuais, nas Bienais de Veneza da Arquitetura e de Artes Visuais, mas também num projeto fortíssimo da arte contemporânea que tem na Via da Conciliação em Roma, que é aquela rua que vai dar acesso à Praça de São Pedro, e tem gerado encontros com muitos artistas e tem gerado muita atenção por parte da comunidade artística. A esta atenção que o dicastério tem gerado na relação que tem estabelecido com a arte contemporânea, junta-se esta responsabilidade que tem sobre aquilo que é a educação católica espalhada pelo mundo. 

veneza
CC BY 4.0

A ideia, que foi o desafio que me foi lançado, foi pensar num evento de arte contemporânea, global, mas ao mesmo tempo que envolvesse as universidades católicas espalhadas pelo mundo.

A arte contemporânea, e estou a citar o cardeal Tolentino Mendonça, "é o melhor termómetro para ler a sociedade contemporânea", com tudo aquilo que tem de fraturante, mas também de acolhimento, descobertas de novas geografias, beleza, em todas as dimensões que a sociedade contemporânea possui, a arte contemporânea. A arte contemporânea é excelente para o estabelecimento de múltiplos diálogos com aquilo que acontece à nossa volta e uma instituição, como as universidades católicas ou o próprio Vaticano, necessitam destes instrumentos para poder estabelecer diálogos férteis de proximidade, inclusivos com aquilo que é a sociedade contemporânea. A Trienal nasce da união destes dois elementos - arte e educação, que para mim é um sonho.

Quais serão as cidades envolvidas?

Este é um bocadinho da moldura conceptual que deu origem ao projeto, mas, posto isto, escolhermos 10 universidades que estão em 10 diferentes cidades do mundo, onde vão acontecer 10 diferentes exposições, que irão começar a ser inauguradas em setembro de 2026. As cidades são Lisboa, Paris, Milão, Boston, Rio de Janeiro, Santiago do Chile, Bogotá, Luanda e há duas que ainda estão por confirmar.

A ideia é cada uma destas cidades, sob o tema genérico "Exercícios de Empatia", trabalhar um subtema e fazermos dez diferentes posições com curadores locais. Portanto, isto é um projeto coletivo, colaborativo e um projeto de muito diálogo. Não nos interessa chegar a estes diferentes contextos geográficos e culturais e impor um modelo visual, ou um modelo estético, ou um modelo expositivo, mas tentar pensar em conjunto com estas diferentes cidades e com estas diferentes universidades que exposição é que faz sentido fazer em setembro de 2026. 

universidade católica
Universidade Católica Portuguesa - CC BY-SA 4.0

A trienal tem estes dois fluxos. Por um lado, quer assumir que localmente as propostas que vai fazer são pertinentes para aquele contexto social, artístico e universitário. E depois, todas estas exposições vão reunir-se numa última grande exposição que será em Veneza, em fevereiro de 2027. É como se todas estas exposições viajassem, destas dez cidades espalhadas pelo mundo, e se encontrassem em Veneza para uma exposição que será uma espécie de exposição síntese, onde será impossível levar todas as obras, mas estará aquilo que são as obras centrais das exposições que estão espalhadas pelo mundo.

Portanto, a trienal terá como curador-chefe o Nuno Crespo, mas terá estes co-curadores, pessoas maravilhosas que já estão identificadas, que já estão a trabalhar, e que são fundamentais.

As cidades do Art Cut são Lisboa, Paris, Milão, Boston, Rio de Janeiro, Santiago do Chile, Bogotá, Luanda e há duas que ainda estão por confirmar.

Esta questão da diversidade geográfica e cultural, o respeito, a empatia, é um posicionamento do Vaticano face ao estado atual das coisas?

Quando se decide fazer um projeto destes, não há nenhuma tentativa prescritiva, é um instrumento de diálogo e de trabalho conjunto. Não é por acaso que o tema desta primeira edição da Trianal são "Exercícios de Empatia". Empatia está muito conotada com o momento político e social atual e sem empatia não pode haver experiência artística. 

Escolhemos o tema da empatia porque é simultaneamente um conceito ético, moral, político, mas ao mesmo tempo um conceito estético. Se eu não tiver empatia, não me vou poder emocionar com um filme, não me vou poder emocionar com uma figura pintada, não vou conseguir perceber um personagem de um romance. E a expressão "exercícios" também é um conceito muito importante, porque a empatia, estejamos nós a pensar na empatia em termos estéticos, ou em termos éticos, não é algo que se conquiste de uma vez para sempre. Exige mesmo uma prática contínua, diária. O exercício tem essa exigência de uma prática quotidiana sem a qual ficamos fora de forma.

Vaticano
Getty images

Como é que é viver algo tão livre dentro de uma instituição como o Vaticano que, vista de fora, parece rigorosa?

Eu só posso dizer que sou diretor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa há quase 10 anos, e nunca se me senti nada constrangido. O nosso projeto, tanto na Universidade Católica Portuguesa, como a Trienal, não é um projeto religioso. No caso da Trienal estamos a fazer um evento de arte contemporânea que alia duas coisas, a meu ver, que deveriam estar sempre aliadas, que é a questão da educação e a questão da arte. Como é que conseguimos, através do exercício e da exposição a práticas artísticas diferenciadas, criar cidadãos e cidadãs mais livres, mais críticos, mais capazes de pensar por si próprio.

Não são projetos religiosos, há princípios ligados à Igreja Católica. Mas não se trata de projetos prescritivos de imposição de nenhum tipo de moralidade, de religiosidade ou sequer espiritualidade. Não é critério para um artista participar na Trienal ser ou não ser católico, ser ou não ser religioso, ser ou não ser espiritual. É um exercício verdadeiramente livre. 

Se nós pensarmos no caso português, temos um exemplo extraordinário que é a Brotéria, no bairro Alto, é uma casa onde há exposições, onde há cursos, onde há clubes de leitura, e é uma casa de liberdade. O projeto da Brotéria é notável, não pela catequização, mas pela liberdade e pela qualidade do conhecimento que proporcionam à comunidade onde se inserem.

Portanto, aquilo que nos preocupa tanto na Trienal é proporcionar aos visitantes, que esperemos que sejam muitos a visitar as diferentes exposições da Trienal, conteúdos e experiências e obras excelentes, que marquem, que impressionem, que possam pôr as pessoas a pensar de maneira diferente, a ter experiências que de outro modo não teriam. É esse o objetivo.

Há nomes ou obras que lhe tivesse vindo logo a ideia de que gostava mesmo de ter isto neste projeto?

Sim, há uma lista de artistas. A partir de fevereiro vamos começar a revelar os artistas, a lista de artistas e exatamente os locais, porque sabemos as cidades, mas as exposições não vão ser dentro das universidades. Há alguns lugares onde vamos estabelecer parcerias com instituições culturais, sejam elas museus, espaços artísticos, nas cidades onde a Trienal vai estar presente.

Onde é que a arquitetura cabe na arte?

As exposições, ao contrário dos livros de arte, têm uma característica que é um diálogo com o lugar, com o lugar onde trabalhamos. Não há exposição possível que não seja um trabalho que não tenha, ou melhor, não há exposição possível, que não tenha em conta como é que se espacializa a experiência de uma obra. Seja essa obra uma pintura que se pendura na parede, uma escultura que se coloca no chão, ou uma imagem que se projeta na parede, um som que inunda uma sala, mas a experiência do espaço é sempre é sempre decisiva. Por isso é que é diferente ver uma obra num livro do que ver uma obra num local, não só por causa da própria escala, da própria qualidade de objeto que todas as obras de arte têm.

O espaço é sempre um elemento decisivo. Primeiro porque o espaço vence sempre, é preciso trabalhar com o espaço, é preciso perceber, ler o espaço. A arquitetura é um elemento decisivo.

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