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Emblemático quarteirão do Rossio será afinal um grande espaço comercial

O projeto de reabilitação quer recuperar a traça original pombalina dos edifícios. Vai a votos esta quinta-feira, 12 de novembro de 2020, na CML.

Como deverá ficar o quarteirão depois de reabilitado / JCKL Portugal
Como deverá ficar o quarteirão depois de reabilitado / JCKL Portugal
Autor: Redação

O projeto para o emblemático Quarteirão do Rossio, que desde fevereiro de 2018 pertence à empresa imobiliária JCKL Portugal, irá a apreciação pelos vereadores em reunião da Câmara Municipal de Lisboa (CML) esta quinta-feira, 12 de novembro de 2020. “Rossio Pombalino” é a denominação do projeto imobiliário associado ao quarteirão - que durante décadas acolheu a histórica Pastelaria Suíça -, onde se pretende recuperar a sua original traça pombalina, através de um trabalho de reabilitação, transformando-o num novo e grande espaço comercial.

Em caso de aprovação do licenciamento pelo executivo camarário, este projeto irá finalmente viabilizar que o quarteirão entre as praças do Rossio e da Figueira seja reabilitado e devolvido à sua configuração original, de acordo com o Cartulário Pombalino - a designação da documentação produzida pelo "Gabinete Técnico" da Casa do Risco das Reais Obras Públicas de Lisboa, no âmbito do Programa de Recuperação Urbanística pós-terramoto de 1755, que determina a obrigatoriedade de edificar conforme o estipulado e estabelece as obrigações e os direitos dos construtores.

Será mantida no seu atual local, de resto, e como parte integrante do projeto, a loja histórica de chás e cafés “Pérola do Rossio”, uma vez que o objetivo passa por preservar a história da praça e o espírito do lugar, que tem vindo a apresentar desde 1970 um progressivo estado de degradação, sem intervenções ou obras de reabilitação. O conjunto dos edifícios que compõem o quarteirão “Rossio Pombalino” será destinado a ocupação exclusiva por espaços comerciais, incluindo uma loja âncora, deixando de lado os planos iniciais para usos de habitação e hotelaria.

“O nosso intuito é o de reabilitar, respeitar e preservar a memória dos espaços mais icónicos e identitários do edifício, assumindo uma intervenção fiel à memória dos elementos originais e mantendo aqueles em que é reconhecível valor arquitetónico e patrimonial”, refere Patrícia Rodrigues, responsável pela promoção do projeto, citada no mesmo documento. Desta forma, diz a mesma responsável, “será possível trazer este quarteirão de novo à cidade, adaptando-o após uma minuciosa reabilitação e dinamizando-o através de espaços comerciais de qualidade, inseridos no centro nevrálgico da capital”.

“Intervenção contida e fiel ao original”

Num vídeo explicativo divulgado pelo atelier Contacto Atlântico, responsável pelo projeto, a arquiteta Francisca Alves refere que “tratar-se-á de uma intervenção contida e fiel ao original”, com base na imagem em representação no cartulário pombalino. “Propomos a uniformização da cobertura com uma solução mais próxima da Baixa Pombalina e da sua envolvente próxima”, diz a arquiteta.

André Caiado, arquiteto fundador do gabinete, explica ainda que o Cartulário Pombalino é um conjunto de plantas que foi desenhado e desenvolvido como referência para recuperar a cidade de Lisboa após o terramoto de 1755, com as regras principais de métrica, da dimensão dos vãos, janelas, caixilharias e acabamentos, entre outros elementos, além de uma solução estrutural para resistir a tremores de terra e evitar a propagação de incêndios.

O projeto prevê a reposição de todo o piso térreo, com o desenho e métrica do cartulário pombalino, à exceção da zona das lojas históricas onde as fachadas serão reabilitadas e mantidas. Todas as cantarias serão também reabilitadas, tal como os varandins, entre outros elementos, e será feita a substituição integral de toda a caixilharia (no piso térreo em ferro pintado a verde e nos pisos superiores em madeira pintada a branco com um aro verde).

Quanto às antigas lojas, Francisca Alves refere que a “Manteigaria União” é a que tem “mais elementos de elevado valor arquitetónico e patrimonial que serão todos mantidos, como o mobiliário a e pintura mural do teto”. Quanto à “Pérola do Rossio”, loja de chás e cafés e que é a única que se mantém em atividade, será “na íntegra mantida tanto no interior, como na fachada, assim como o seu comércio e a família arrendatária”.

A cobertura dos edifícios será uniformizada, “com uma solução mais próxima da baixa pombalina" e no interior, que está “em muito mau estado”, serão recuperados os tetos e pinturas, adianta ainda a responsável.

PCP contra a proposta

Os vereadores do PCP já anunciaram, entretanto, que irão votar contra a proposta por considerarem que “uma vez mais” se está a assistir “a uma oportunidade perdida de dotar o centro da cidade de uma multifuncionalidade desejável que mantenha a cidade habitada e viva”, segundo a Lusa. “O PCP considera que não é através de megaempreendimentos comerciais que se revitaliza o centro histórico de Lisboa”, lê-se num comunicado enviado pelo gabinete dos vereadores comunistas.

Na nota, o PCP recorda que o “Rossio é uma das praças mais emblemáticas da cidade e da Baixa Pombalina e foi, desde sempre, palco de acontecimentos importantes e marcantes na história de Lisboa”, prometendo combater “o caminho de descaracterização da cidade de Lisboa, da venda do seu património a fundos estrangeiros, que especulam e contribuem para o encarecimento do custo de vida da cidade”.