O setor da construção e da remodelação está a atravessar uma transformação estrutural, impulsionada pela transição energética, pela digitalização e por uma cada vez maior exigência dos consumidores: casas mais eficientes, mais autónomas e tecnologicamente integradas. Num contexto de subida dos custos da energia devido ao conflito no Médio Oriente, maior consciência ambiental e necessidade de reabilitação do parque habitacional nacional, o conceito tradicional de habitação está a dar lugar a uma nova prioridade – a casa como sistema autónomo.
“A tendência que existe hoje mundial é a casa ser independente”, afirma Pedro Cabral, diretor do projeto PRO da Leroy Merlin, à conversa com o idealista/news durante o Salão Imobiliário de Portugal (SIL) 2026. Para o responsável, esta independência vai muito além da produção elétrica: “a independência traduz-se em diversas coisas, seja naquilo que é a produção de energia, seja no consumo de águas”, explicando que “o que se pretende é que a pessoa seja autossuficiente e produza tudo aquilo que necessita no seu próprio espaço”.
Ao mesmo tempo, cresce a aposta em energias renováveis e conectividade doméstica. “Hoje temos propostas de valor extraordinárias em energias renováveis, como painéis fotovoltaicos”, refere, acrescentando que o mercado está cada vez mais atento ao “IoT (Internet das Coisas) das casas” e à conectividade interna entre equipamentos e utilizadores. A evolução não é apenas conceptual: em 2025, as vendas de produtos considerados mais sustentáveis cresceram 14,3%, refletindo uma prioridade crescente dos consumidores por soluções que combinam poupança de recursos e maior conforto na habitação.
Entre eficiência térmica, produção própria de energia, conectividade e sustentabilidade, o mercado parece estar a caminhar para um novo paradigma habitacional – menos dependente, mais tecnológico e ambientalmente mais consciente.
Que balanço faz do negócio PRO da Leroy Merlin nestes últimos quatro anos? Continuam a ser mais procurados por pequenos e médios construtores ou houve mudanças?
Quatro anos… quatro anos é uma vida. São quatro anos de crescimento forte, muito forte, do negócio profissional da Leroy Merlin. Éramos 12 pessoas, hoje somos 500, com mais de 100 pessoas exclusivamente dedicadas e mais 400 dedicadas parcialmente.
O crescimento foi sempre sustentado, assente numa estratégia muito bem definida e muito orientada para esta tipologia de cliente, que tem necessidades diferentes e uma forma diferente de olhar para nós e para o nosso negócio.
O melhor ano? Para mim será sempre o próximo. Quando me perguntam qual foi a melhor vitória, será a próxima. O nosso impacto é sempre no futuro. A nossa visão é sempre olhar para a frente, trazendo as aprendizagens do passado e procurando não cair nos mesmos erros, ou pelo menos minimizá-los.
Quais as grandes tendências atualmente em termos de obras e remodelações em Portugal?
Temos várias tendências. Uma delas são as novas formas de construir, como o steel frame, que permite maior rapidez de construção e uma entrega mais rápida, com grande capacidade de isolamento, tornando a casa mais passiva e mais adaptada.
Estamos permanentemente ligados às novas tendências, e nova tendência não significa que o produto seja novo. O desenvolvimento de produtos à base de cal é milenar, mas transforma o dióxido de carbono em oxigénio. Absorve o dióxido de carbono produzido pelas pessoas dentro da habitação e torna a habitação mais saudável.
Portanto, as tendências são várias: tendências locais de construção e tendências de inovação de produto.
Quais as zonas da casa onde os portugueses mais investem?
A diversidade é tanta que não se consegue dizer se há mais força numa área do que noutra. Temos expressões mais fortes na construção pura – cimento, areia, brita, tijolo – mas também grande desenvolvimento em madeiras, pavimentos, revestimentos, carpintarias exteriores e interiores e sanitários.
Estamos a desenvolver muito as cozinhas. E hoje temos propostas muito fortes também em energias renováveis, como painéis fotovoltaicos, e em IoT das casas – os comandos, a forma de funcionar associada à conectividade entre o indivíduo e a habitação.
E a nível de decoração e conforto térmico, há alguma mudança a destacar?
A tendência, a nível mundial, que existe hoje é a casa ser independente. A independência traduz-se na produção de energia, no consumo de águas e na conectividade.
Mas é uma conectividade interna e não externa. O que se pretende é que exista conectividade dentro da casa, numa rede mais fechada. A pessoa deve ser autossuficiente e produzir tudo aquilo que necessita no seu próprio espaço. Algumas soluções são individuais, outras podem ser partilhadas.
Existe atualmente, mais procura de conforto térmico e atualizar esse conforto nas casas?
Sim, é uma necessidade cada vez maior o conforto térmico. O primeiro princípio de uma casa passiva é a sua orientação solar. Se é construída de raiz, deve estar orientada a sul.
Outro princípio é a vegetação envolvente. A folha caduca é colocada a sul para proteger no verão e deixar entrar os raios solares no inverno e folha perene a norte para proteger dos ventos frios.
Quando a habitação já existe e tem a sua orientação, temos que saber adaptar. Significa revestir com isolamento pelo exterior ou promover isolamento no interior da habitação. Acrescentando produção de calor ou climatização, temos soluções para tudo isso e suporte ao profissional.
Já sentiram algum tipo de impacto do atual contexto geopolítico internacional na vossa atividade (subida do preço dos materiais, procura de serviços)?
O crescimento desde 2012/2013 tem sido extraordinário e sempre sustentado. Não é a par da economia, seja global, seja nacional. Poderá haver alguma dificuldade num ou outro mercado em específico, numa outra geografia em específico, mas em todas nós temos tido procura e um crescimento sustentado daquilo que é o ramo profissional, pois também acompanhou todo este todo este crescimento.
Às vezes há alguma pressão nos preços motivada pela inflação, mas procuramos mitigar essas questões, muitas vezes reduzindo o nosso modelo de negócio, assumindo uma postura responsável perante o cliente, o mercado e a economia portuguesa. Outras vezes, temos a oportunidade de entregar os produtos com o bom preço, que é esse o nosso objetivo.
Essa sempre foi a vossa estratégia para "fidelizar" o cliente?
Certo. A nossa estratégia não passa apenas por uma lógica transacional. O profissional precisa de suporte em diversas áreas: para fazer um orçamento, para saber que documentos necessita para articular com os órgãos de poder local, para uma ocupação de via pública, para saber que seguros precisa de ter na sua empresa e para os seus colaboradores, e até para perceber como retirar o melhor partido da contabilidade.
Juntando a isso todas as questões do IVA a 23% e do IVA reduzido, perceber onde pode ir buscar oportunidades. E também apoio para desenvolver um site, para desenvolver o seu próprio negócio e projetá-lo mais longe, bem como para um profissional procurar outro profissional e encontrá-lo.
Portanto, tudo isto são competências que o homem desenvolve, para além de fornecer soluções, mercadorias e serviços aos seus clientes profissionais.
Como têm lidado com os custos dos materiais de construção e com a falta de mão de obra qualificada? De que forma é que a “via verde para a imigração” na construção, criada pelo Governo há um ano, está a ajudar?
É uma generalidade. Há falta de mão de obra. Os movimentos pendulares sempre existiram. As pessoas deslocam-se e vão continuar a deslocar-se. O que temos que fazer é acolher, adaptar e ajudar a integrar. Hoje em dia deslocam se menos, mas vão continuar a deslocar se sempre, não é? A que há que receber e há que aceitar.
Antes tínhamos alguém que sabia fazer o traço entre cimento, areia e brita. Hoje as massas vêm prontas, basta juntar água. Houve também melhoria nas condições de trabalho: antes um saco de cimento pesava 50 quilos ou 40, hoje está limitado a 25 quilos.
A mão de obra será sempre fundamental. O que é necessário é recompensá-la de acordo com aquilo que entrega.
O que é que as medidas que o Governo acabou por aprovar vão contribuir?
Hoje eu não sei se essas medidas são as melhores ou não, ou se o objetivo era contribuir para trazer essas medidas para trazer essa mão de obra. O papel da Leroy Merlin é sempre o mesmo no mundo inteiro adaptar se localmente, não impor as suas regras e as suas leis. Temos uma grande quantidade de nacionalidades diferentes a trabalhar nas nossas lojas e portanto, essas pessoas só vêm trazer benefício.
Se é pelas medidas do governo ou é porque o país é um país de sol, é um país seguro e um país confortável, agradável e de pessoas simpáticas? Não sei.
A digitalização do setor é um tema na ordem do dia. Como é que a tecnologia (e em particular a IA) pode ajudar ainda mais a planear e a executar projetos/reformas? Como vos tem ajudado?
A Inteligência Artificial (IA) veio e vai ajudar em tudo. Está para este momento como a calculadora estava nos anos 80. Tudo o que for repetitivo será feito por equipamentos. Já existe projeção com drone do espaço e, dentro dessa projeção, desenham-se as estruturas necessárias para a edificação.
Em todas as obras surgem coisas novas. É aí que o ser humano se distingue, na capacidade de se adaptar e criar soluções. De certeza absoluta que não vamos ficar sem trabalho. Vamos desenvolver muito mais o nosso cérebro.
Então assume que veio para ajudar e não para retirar postos de trabalho?
Eu pergunto: o mail veio substituir a carta? É verdade? É verdade. Mas os Correios não desapareceram. Assumiram uma posição diferente. Existe hoje uma série de outros produtos que oferecem nas nossas lojas.
Nós hoje temos um sistema de caixas automático em que o cliente paga em autonomia. A grande maioria dos clientes é isso que procura. Porquê? Porque se desembaraça mais rápido. Porque pode escolher a forma de pagamento e porque é muito mais ágil, não é? Há muitos outros que gostariam de lá ter a colega que o atende, pois com certeza ainda mantemos isto. Mas é uma tarefa cada vez mais repetida.
Portanto, é preciso olhar as coisas pelo lado positivo. De certeza absoluta, de certeza absoluta que não vamos ficar sem trabalho. Nós não vamos ficar sem trabalho nunca, porque agora se calhar um individuo no futuro não vai trabalhar 8 horas, só vai trabalhar duas ou quatro, não é? Mas com um sentido criativo fortíssimo e num ambiente diferente.
Para terminar, queria uma perspetiva de futuro. Nos próximos cinco anos? Onde é que esperam estar?
Eu tenho um compromisso com os clientes profissionais e espero continuar ao lado deles. Não se trata de atingir um determinado volume financeiro ou de uma determinada dimensão de equipa. Vamos adaptar-nos àquilo que é o mercado e àquilo que tem sido as necessidades dos clientes. Esse é o objetivo.
Nos últimos cinco anos tivemos um pequeno desvio por excesso, ou seja, em benefício ainda maior. Portanto, é esse o objectivo é dar continuidade ao excelente trabalho que temos estado a fazer com os clientes. Pelo menos no retorno que nos dão.
Iremos continuar à procura de satisfazer o mercado, integrar novos clientes, novas formas de trabalhar, novas formas de os acompanhar, de lhes entregar a mercadoria, de descobrir novas gamas de mercadoria e de nos adaptarmos em preço e em serviço.
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