Gonçalo Melo: “a casa deverá ser uma extensão do corpo humano”

Edifícios inteligentes que aprendem com os utilizadores? Líder da portuguesa Planta Smart Homes descortina o futuro.
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A inteligência artificial já não está apenas associada a chatbots, computadores ou automação digital. Aos poucos, começa também a entrar no espaço físico onde as pessoas vivem, trabalham e circulam diariamente. As casas, as fábricas e os edifícios deixam de ser estruturas estáticas para passarem a funcionar como sistemas capazes de recolher dados, adaptar comportamentos e responder automaticamente às necessidades de quem os utiliza.

É precisamente esta transformação que esteve em destaque na 360 Tech Industry, a feira de tecnologia produtiva e industrial que decorreu na EXPONOR, em maio. O evento reuniu empresas, startups e especialistas ligados à inovação industrial, num momento em que conceitos como inteligência artificial, digitalização, sustentabilidade energética e automação inteligente começam a redefinir a forma como os espaços são pensados, geridos e construídos.

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E na feira estiveram presentes várias iniciativas portuguesas, entre as quais o PlantaOS, um sistema desenvolvido pela startup Planta Smart Homes, que explora a aplicação da inteligência artificial à gestão de edifícios e ambientes urbanos. A ideia passa por criar espaços capazes de aprender padrões de utilização, otimizar recursos e adaptar-se continuamente ao comportamento humano, numa lógica cada vez mais próxima de um organismo inteligente.

Um dos principais casos de estudo foi a Horse Aveiro, a segunda maior fábrica do setor automóvel em Portugal, integrada no Grupo Renault e responsável pela produção de motores elétricos para carros híbridos. O estudo desenvolvido através do Digital Twin indica potencial para reduzir até 18% do consumo energético e 27% dos custos de manutenção, dependendo da implementação futura das recomendações propostas. O PlantaOS funciona como um verdadeiro cérebro digital, integrando sensores, dados e atuadores para gerir autonomamente energia, climatização, fluxos de pessoas e diferentes workflows operacionais. No entanto, importa referir que a aplicação ainda vai demorar consoante a reconstrução do edifício HORSE. 

A plataforma foi concebida para funcionar em diferentes escalas, desde habitações particulares até edifícios industriais e ambientes urbanos complexos. Segundo estimativas da empresa, quando 100 edifícios residenciais operam de forma integrada com o PlantaOS, torna-se possível poupar cerca de 280 mil kWh de energia por ano, reduzir aproximadamente 98 mil euros em custos energéticos e evitar a emissão de 140 toneladas de CO₂ para a atmosfera, um impacto equivalente ao plantio de 6.300 árvores. O sistema permite ainda reduzir até 40% do consumo energético durante os períodos de maior pressão sobre a rede elétrica. 

A Planta Smart Homes possui atualmente um pipeline comercial superior a 26 milhões de euros, composto por potenciais projetos, oportunidades comerciais, contactos estratégicos e parcerias em desenvolvimento. A empresa tem ainda acesso ao supercomputador nacional, reforçando a capacidade de desenvolvimento e expansão do PlantaOS nas áreas de Smart Homes, Smart Industry e Smart Work. Para perceber melhor como funciona esta tecnologia, quais os desafios da implementação da inteligência artificial na construção dos edifícios e de que forma a empresa imagina o futuro das casas e da indústria, falámos com Gonçalo Melo, CEO da Planta Smart Homes.

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As casas estão a ficar cada vez mais caras e não estão a ficar muito inteligentes.

Como nasceu a Planta Smart Homes e a ideia do PlantaOS?

Isto tem muito a ver com o meu estudo. Eu estudei na Holanda durante sete anos. Estive a estudar inovação, design de produto e inteligência artificial. Nós estudámos produtos e serviços de praticamente todo o mundo, mas havia algo muito estranho nas casas. As casas estão a ficar cada vez mais caras e não estão a ficar muito inteligentes. Tudo aquilo que ficou inteligente ficou muito mais barato. E as casas parecem ser a última fronteira. 

Nós pagamos 30 ou 40 anos da nossa vida por uma casa e cada vez mais dinheiro. Então surgiu a ideia: porque é que não fazemos uma casa de forma inteligente? Ao invés de construirmos apenas com betão ou cimento, construirmos com os fluxos da casa. A ideia nasceu de uma forma muito focada, quase “sniper”, de entender o mercado.

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A inteligência artificial ainda gera alguma desconfiança em ambientes industriais e na construção?

Eu creio que a palavra confiança é muito importante, porque quando nós não confiamos em algo, não queremos usar. Mas muitas vezes, quando as pessoas dizem que não confiam na inteligência artificial, na verdade é porque confiam tanto que têm medo do impacto que ela pode ter.

Na construção civil isso é ainda mais evidente, porque as pessoas normalmente não associam inteligência artificial à construção. Associam mais a software ou computadores. Só que tudo é digitalizável. Antes achava-se impossível existir um sistema como o Uber para os táxis. Hoje é completamente normal. Vai acontecer o mesmo com os edifícios. Há alguma desconfiança, mas isso acaba por ser positivo para nós. O problema é que o mercado ainda não está preparado para aquilo que aí vem.

“A verdadeira inovação raramente melhora os sintomas. Resolve as causas.”

Acredita que a inteligência artificial vai transformar profundamente a forma como vivemos nas casas e nos locais de trabalho?

Sem dúvida. Com a inteligência artificial aplicada ao espaço, nós vamos conseguir tornar as casas muito mais acessíveis. E acho que as pessoas ainda não perceberam a dimensão da mudança que aí vem. A casa vai deixar de ser apenas um espaço físico e passar a funcionar como um organismo vivo, quase como o corpo humano. O foco da Planta Smart Homes é tornar o metro quadrado mais inteligente, mais barato e mais adaptável. Primeiro, através dos fluxos: energia, água, ar, ocupação, conforto, sustentabilidade e pessoas. Depois, através das formas: tijolos inteligentes, matéria programável, modularidade e novas patentes de construção.

Questões como qualidade do ar interior, níveis de CO₂, temperatura, ventilação e conforto ambiental têm impacto direto na saúde, produtividade, aprendizagem e bem-estar das pessoas. A União Europeia está a aumentar progressivamente os requisitos associados à eficiência energética, monitorização e sustentabilidade dos edifícios. O nosso trabalho passa por analisar o edifício, criar o seu gémeo digital e propor uma camada praticamente invisível de sensores inteligentes capaz de monitorizar estes indicadores e apoiar decisões futuras.
 

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A HORSE Aveiro foi um dos casos de estudo. Que resultados conseguiram alcançar?

A HORSE Aveiro é uma empresa da Renault e nós fomos selecionados através do Programa Scaira, em Portugal. Eles tinham um problema de sustentabilidade, tal como muitas empresas portuguesas. 

O que fizemos foi uma verificação total dos indicadores ambientais — CO₂, temperatura, água e vários outros parâmetros — e propusemos um sistema baseado em sensores e num digital twin, ou seja, um gémeo digital. Por exemplo, se uma sala tem CO₂ elevado, temperatura acima do recomendado e baixa performance, a PlantaOS pode recomendar ações concretas como ventilar, reduzir ocupação, ajustar AVAC, instalar sensores, melhorar a iluminação, alterar horários ou reorganizar o uso da sala. Também pode mostrar quanto custa o problema por hora, por mês ou por ano.

A empresa consegue perceber onde está a perder dinheiro.. Grande parte do nosso trabalho não consiste apenas em poupar energia. E sim tudo de fluxos. Segurança, pessoas, materiais, equipamentos. Tudo que esteja no espaço físico. Consiste em ajudar edifícios a compreenderem o seu estado real de funcionamento e o seu nível de conformidade com requisitos ambientais, energéticos e de conforto humano. O objetivo na HORSE era garantir conformidade com as regras ambientais e, ao mesmo tempo, melhorar o conforto dos trabalhadores dentro do edifício. 

Que dados são recolhidos e como garantem que a casa inteligente não se torna uma casa vigiada?

Neste momento, todos os dados ficam alojados nos servidores locais dos clientes. Nós não temos acesso aos dados. Os dados utilizados são fornecidos pelos próprios clientes e existem diferentes níveis de permissões e perfis de acesso. Algumas informações podem ser vistas por determinados utilizadores e outras não. O sistema é totalmente flexível, mas também muito seguro.

Como vê a integração da inteligência artificial nas rotinas domésticas? A casa vai aprender hábitos ou apenas reagir a comandos?

programa da PlantaOS
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A nossa diferenciação é fazer a casa funcionar como um organismo. Não queremos uma simples domótica onde alguém diz “fecha a porta” e a porta fecha. O objetivo é que a casa saiba automaticamente aquilo que a pessoa precisa.

Tal como o corpo humano não precisa de receber ordens para funcionar, a casa também não deveria obrigar as pessoas a pensar constantemente nela. Quero que a casa seja tão natural e tão integrada que as pessoas praticamente se esqueçam dela. Que deixe de ser um sistema de aprisionamento e passe a ser um sistema de liberdade.

Tudo aquilo que ficou inteligente ficou muito mais barato. E as casas parecem ser a última fronteira.

Como conseguem garantir automações críticas mesmo sem internet?

Neste momento já conseguimos integrar praticamente todos os dispositivos inteligentes existentes no mercado. Usamos protocolos como Matter, desenvolvido por empresas como Apple, Samsung e Google, e também LoRaWAN.

O objetivo é integrar tudo num único sistema e garantir que a infraestrutura continua a funcionar mesmo em cenários críticos. Além disso, estamos a trabalhar em várias patentes relacionadas com tijolos inteligentes e estruturas adaptáveis. A ideia é criar espaços que possam transformar-se rapidamente conforme as necessidades das pessoas.

Que setores da indústria portuguesa estão mais preparados para adotar soluções inteligentes?

Aquilo que vimos nestes primeiros meses de mercado é que as grandes empresas industriais, especialmente ligadas à indústria automóvel, metalomecânica e indústria pesada, estão mais preparadas. 

A casa vai deixar de ser apenas um espaço físico e passar a funcionar como um organismo vivo, quase como o corpo humano.

Claro que a PlantaOS também pode ser usada por uma pessoa normal na sua própria casa. Imagine uma pessoa com uma casa no Porto, com 30 m², que sente que paga demasiado em energia, tem pouco conforto térmico ou quer tornar a casa mais inteligente. Essa pessoa pode entrar na plataforma e dizer: “Tenho uma casa com 30 m² no Porto. Gasto cerca de X euros por mês em energia. Como posso gastar menos?”. Na plataforma, cabe-nos pode analisar a situação, sugerir sensores, recomendar automações, estimar poupanças e propor prioridades.

Como é que o PlantaOS consegue equilibrar automação, eficiência energética e conforto humano?

Muitas vezes fala-se de eficiência e sustentabilidade como coisas separadas, mas eu não faz sentido. Quando algo é realmente sustentável, também é eficiente e confortável. Se um produto não reduz custos, não reduz esforço e não melhora a experiência humana, então dificilmente é sustentável. Nós queremos garantir conforto total ao utilizador. Quero que a casa seja uma extensão do corpo humano. Algo natural, leve e intuitivo.

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Como imagina os edifícios daqui a 10 ou 20 anos?

Eu acredito que estamos a assistir à digitalização da física. O maior ativo do mundo — o espaço, as casas, a habitação — vai mudar completamente. O preço da construção poderá colapsar nos próximos anos. Vamos ter agentes de inteligência artificial capazes de simular, projetar e criar espaços extremamente inteligentes. E isso vai alterar radicalmente o custo do metro quadrado. Os edifícios vão deixar de ser estruturas estáticas. Vão mudar de forma, adaptar-se às pessoas e tornar-se muito mais rápidos e baratos de construir. Acredito que o espaço deixará de ser uma das maiores fontes de pressão financeira da vida humana.

Os edifícios vão deixar de ser estruturas estáticas. Vão mudar de forma, adaptar-se às pessoas e tornar-se muito mais rápidos e baratos de construir.

A empresa já trabalha com entidades como Airbus e Santa Casa da Misericórdia. Que importância têm estas parcerias?

A parceria ligada à Airbus surgiu através do programa Airspace Valley, onde fomos a única startup portuguesa selecionada. Foi extremamente importante para ganhar conhecimento, experiência e preparação para entrar no mercado. Já a Santa Casa da Misericórdia aconteceu através da Casa do Impacto, um dos maiores programas de aceleração de empresas de impacto social em Portugal. Tivemos contacto com grandes empresas portuguesas, reuniões constantes e uma enorme aprendizagem. Isso deu-nos muito mais preparação para apresentar a tecnologia, negociar e crescer.

“A verdadeira inovação raramente melhora os sintomas. Resolve as causas.”

Existe ainda uma ligação muito importante entre o trabalho desenvolvido no Rock in Rio e a visão futura da empresa. À primeira vista, um festival e uma casa inteligente parecem não ter qualquer relação. Para nós, têm exatamente a mesma origem. Os dois são sistemas de fluxos. No festival estudamos fluxos de pessoas. Nos edifícios estudamos fluxos de energia. O Rock in Rio é um laboratório vivo de fluxos humanos. As casas são laboratórios vivos de fluxos espaciais. O objetivo do projeto não é rastrear pessoas nem recolher informação pessoal. O objetivo é compreender padrões de ocupação e melhorar a experiência dos visitantes através de monitorização anónima e não intrusiva.

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