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Casas pré-fabricadas: “O espaço para erros, improvisos e atrasos é incrivelmente reduzido”

Especialista em construção pré-fabricada e modular, o arquiteto fundador do estúdio Summary, Samuel Gonçalves, em entrevista ao idealista/news.

Edifício de uso misto em Vale de Cambra / Créditos: © Adriana Alves e © Fernando Guerra | FG+SG
Edifício de uso misto em Vale de Cambra / Créditos: © Adriana Alves e © Fernando Guerra | FG+SG
Autor: Leonor Santos

Construir em menos tempo e consumindo menos recursos. Dois trunfos da construção pré-fabricada e modular, que está cada vez a conquistar mais espaço no mercado e já serve vários propósitos: desde habitação, serviços, edifícios públicos, lares de idosos, até empreendimentos turísticos, tal como explica o arquiteto fundador do estúdio Summary, Samuel Gonçalves, em entrevista ao idealista/news. Este tipo de construção, garante, pode dar resposta a um desafio determinante da arquitetura contemporânea – acelerar e simplificar os processos construtivos – e “tem o mesmo potencial para responder às necessidades habitacionais com padrões de qualidade ilimitados”. Sublinha que “o espaço para erros, improvisos e atrasos é incrivelmente reduzido”, e não tem dúvidas de que alguns “danos colaterais” da pandemia vão levar a “um crescente desenvolvimento da construção modular em detrimento da construção tradicional”.

Samuel Gonçalves considera que os preconceitos relativamente a este tipo de construção tendem a dissipar-se e estão sobretudo relacionados com o facto da designação “pré-fabricado” ser "muitas vezes aplicada para definir construções ligeiras, de má qualidade ou amovíveis”. Esta perceção, assegura, “não corresponde à realidade”, até porque a construção pré-fabricada pode ter uma qualidade superior, e não tem de ser amovível. Há, aliás, cada vez mais encomendas em que é solicitada, “explicitamente”, a utilização de métodos construtivos pré-fabricados. A grande desvantagem, reconhece, "está relacionada com a logística de montagem".

Clientes empresariais e institucionais, mas sobretudo municípios que atualmente “estão bastante focados no desenvolvimento de soluções habitacionais a custos controlados, enquadradas no Programa 1º Direito”. Este é um exemplo do tipo de procura, mas há outros – e mais segmentos de mercado a quererem aderir a esta “tendência”. Samuel Gonçalves dá como exemplo alguns contactos por parte de estabelecimentos de ensino superior, “designadamente para a criação de novas soluções de alojamento estudantil”.

O responsável espera que as soluções construtivas mais céleres possam vir a ser privilegiadas com o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) – entregue à Comissão Europeia esta quinta-feira, 22 de abril de 2021– e que também ele dê impulso a novos desenvolvimentos e novas experiências na pré-fabricação associados a projetos habitacionais. Numa entrevista escrita para o idealista/news, o arquiteto fundador da Summary reflete sobre estas e outras questões, bem como porque é que este tipo de construção pode mesmo ser uma resposta para a escassez da oferta, característica do mercado imobiliário português.

Edifício de uso misto em Vale de Cambra /  © Fernando Guerra | FG+SG
Edifício de uso misto em Vale de Cambra / © Fernando Guerra | FG+SG

A Summary desenvolve soluções pré-fabricadas “com o objetivo de responder a um desafio determinante da arquitetura contemporânea”. Que desafio é esse?

Construir em menos tempo e consumindo menos recursos.

Como é que estas soluções permitem acelerar e simplificar os processos construtivos?

Através da industrialização dos sistemas construtivos. Trabalhamos essencialmente com edifícios modulares, produzidos em fábrica. Neste contexto, é possível programar com precisão a produção dos módulos e verificar tecnicamente todos os componentes de antemão. O espaço para erros, para improvisos e para atrasos é incrivelmente reduzido.

Podem dar resposta às novas necessidades habitacionais? Em que medida?

Quando falamos em construção pré-fabricada e modular, falamos numa alteração do processo construtivo, mas não necessariamente numa alteração do resultado final. Este tipo de construção tem o mesmo potencial para responder às necessidades habitacionais que qualquer outra construção, com padrões de qualidade ilimitados, dependo obviamente do montante que se pretende investir.

Este tipo de construção tem o mesmo potencial para responder às necessidades habitacionais que qualquer outra construção

Se nos focarmos na Habitação Pública, setor que de acordo com o Plano de Recuperação e Resiliência será prioritário no investimento público durante os próximos anos, vemos que as soluções construtivas mais céleres poderão vir a ser privilegiadas, designadamente em termos de financiamento. Acredito, portanto, que vamos assistir a novos desenvolvimentos e novas experiências na pré-fabricação associados a projetos habitacionais.

Têm múltiplos projetos feitos através do sistema modular. Quais são as principais vantagens deste tipo de construção? E desvantagens, há?

As principais vantagens serão certamente a rapidez de construção e a validação técnica de todos os módulos, feita em ambiente de fábrica sob condições altamente controladas.

A principal desvantagem está relacionada com a logística de montagem. Por vezes é difícil encontrar soluções para a estabilização da grua que faz a montagem dos módulos ou para o transporte destes até a alguns terrenos com difíceis acessos. Ou seja, a operação logística de montagem tem sempre de fazer parte da equação, o que não deixa de ser um desafio interessante e que, por vezes, exige o desenvolvimento de soluções alternativas que passam pela alteração do projeto de arquitetura.

Serve que tipo de usos? Primeira habitação, por exemplo?

Já desenvolvemos projetos modulares para vários fins: habitação, serviços, edifícios públicos, lares de idosos ou empreendimentos turísticos.

Edifício de uso misto em Vale de Cambra (interior) /  © Fernando Guerra | FG+SG
Edifício de uso misto em Vale de Cambra (interior) / © Fernando Guerra | FG+SG

Quanto é que custa fazer um tipo de casa como este?

Como em qualquer construção, os preços são variáveis tendo em conta as especificidades de cada projeto (localização, dimensão, acabamentos, condições do terreno, etc.). Não temos um preço por m2 tabelado, e cada projeto exige uma análise caso a caso.

Também já fazem projetos de maior escala (e não apenas casas). Pode dar-nos exemplos que gostasse de destacar?

Sim. Aliás, neste momento deixamos de fazer projetos de casas isoladas (desenvolvemos projetos de habitação coletiva ou de habitações individuais, mas sempre com um mínimo de cinco frações). Esta opção deve-se ao facto de termos percebido que as principais vantagens da arquitetura modular se fazem notar mais quanto maior for a escala do projeto.

Destacaria três projetos: o loteamento de Cerrado (um conjunto habitacional a custos controlados com 25 lotes); um centro social/lar de idosos com 40 camas que projetamos para Escariz, Arouca; e o edifício de uso misto que concluímos recentemente em Vale de Cambra, que mistura espaços habitacionais, comerciais e de serviços.

O Samuel desenvolveu o ‘Gomos Building System’ – valeu-lhe, inclusive, um reconhecimento internacional. Podem explicar-nos melhor em que consiste?

O Sistema Gomos resulta de um projeto de I&D empresarial e consiste num sistema modular evolutivo em betão, em que cada um dos módulos (ou Gomos) sai de fábrica completamente pronto, incluindo todos os acabamentos interiores e exteriores, isolamentos, caixilharias, instalações de água e eletricidade e até as peças de mobiliário fixas. A montagem do edifício in loco faz-se em poucos dias, simplesmente juntando estes módulos. O processo construtivo resume-se essencialmente a quatro fases: produção da estrutura, acabamentos, transporte e montagem.

Edifício Gomos / © Tiago Casanova
Edifício Gomos / © Tiago Casanova

Que tipo de clientes é que vos procuram? E em que zonas do país?

Neste momento temos projetos em curso em várias zonas do país: Arouca, Vale de Cambra, Porto, Aveiro, Lisboa e Póvoa de Varzim.

Os clientes que nos procuram são essencialmente empresariais e institucionais, sobretudo municípios que atualmente estão bastante focados no desenvolvimento de soluções habitacionais a custos controlados, enquadradas no Programa 1º Direito. Recentemente, surgiram também alguns contactos por parte de estabelecimentos de ensino superior, designadamente para a criação de novas soluções de alojamento estudantil.

A pandemia veio impulsionar e acelerar a tendência das casas modulares e pré-fabricadas?

Não diretamente. Mas creio que alguns danos colaterais da pandemia levarão, progressivamente, a um crescente desenvolvimento da construção modular em detrimento da construção tradicional. Falo, por exemplo, da subida generalizada do preço dos materiais de construção que se observou nos últimos meses, em consequência da diminuição da produção e da dificuldade de transporte que a pandemia tem vindo a causar. Isto conduzirá a uma maior rastreabilidade e monitorização da construção, no sentido de otimizar a utilização destes materiais. E este processo de otimização só se consegue com uma maior industrialização da construção.

Creio que alguns danos colaterais da pandemia levarão, progressivamente, a um crescente desenvolvimento da construção modular em detrimento da construção tradicional.

Edifício Gomos / © Tiago Casanova
Edifício Gomos / © Tiago Casanova

Pode ser uma resposta para a escassez de oferta?

A pré-fabricação será certamente uma resposta – eventualmente a única resposta viável - para a crescente escassez de mão-de-obra que se faz sentir no setor da construção. Esta falta de mão-de-obra, que em última instância conduz uma escassez da oferta e a um inflacionamento generalizado do custo dos edifícios, é mais que uma mera perceção. É um problema amplamente documentado e reconhecido pelos vários agentes desta indústria um pouco por toda a Europa.

Ainda existe algum tipo de preconceitos relativamente este tipo de construção? Se sim, porquê?

Esses preconceitos têm por base dois motivos principais. O primeiro será a proliferação massiva de construções pré-fabricadas que ocorreu na União Soviética sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, para responder de forma rápida e económica ao défice habitacional. Essas construções, maioritariamente de arquitetura austera, aplicada em larga escala e criando uma imagem de uma certa monotonia, acabaram por criar alguma aversão às soluções pré-fabricadas. O segundo motivo prende-se com o facto da designação “pré-fabricado” ser muitas vezes aplicada para definir construções ligeiras, de má qualidade ou amovíveis. Esta perceção não corresponde à realidade – a construção pré-fabricada pode ter uma qualidade superior, e não tem de ser amovível – mas é certo que continua a produzir equívocos em muitas pessoas.

A construção pré-fabricada pode ter uma qualidade superior, e não tem de ser amovível

De qualquer forma, e importa referi-lo, esses preconceitos estão cada vez mais dissipados. Temos recebido encomendas em que nos é solicitado, explicitamente, a utilização de métodos construtivos pré-fabricados. Para isso tem contribuído o desenvolvimento da arquitetura modular, designadamente noutros locais da Europa, como o Reino Unido e a Escandinávia, onde recentemente têm surgido bons exemplos, que exploram as vantagens destes métodos, sem condenar o desenho, a funcionalidade ou a qualidade técnica dos edifícios. É esse o caminho que estamos a traçar.

Edifício Gomos / © Tiago Casanova
Edifício Gomos / © Tiago Casanova