Segurança, saúde e transportes contam para o Índice Global de Habitabilidade 2025, mas é a habitação que hoje define quem consegue viver nas grandes cidades.
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Lisboa
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O índice de habitabilidade de uma cidade vai muito mais além de uma questão de estética urbana ou de serviços disponíveis. Envolve fatores como a segurança, a saúde, a educação, o ambiente, os transportes e, acima de tudo, habitação acessível. Mas, nos últimos anos, muitas cidades do globo têm enfrentado uma crescente pressão sobre o custo de vida, com os preços das casas a disparar e a tornar o acesso a habitação própria permanente um desafio cada vez maior, chegando a comprometer a qualidade de vida local, tal como se pode concluir a partir do Índice Global de Habitabilidade 2025 (Global Liveability Index 2025) desenvolvido pelo Economist Intelligence Unit (EIU), e tornado público em Lisboa, no final da semana passada.

As cidades médias, conseguem equilibrar a balança das infraestruturas, proximidade a serviços – hospitais, bancos, centros de saúde – e qualidade de vida, enquanto as grandes metrópoles sofrem com congestionamento, criminalidade e sobrecarga dos serviços públicos. Ainda assim, viver numa cidade não se resume a ter infraestruturas eficientes. Existem problemas estruturais ligados à habitação e ao planeamento urbano que é necessário resolver. Mas o que significa realmente o índice de habitabilidade e onde Lisboa se insere neste ranking?

O Global Liveability Index 2025, apresentado no âmbito do "Observatório Imobiliário da Century 21" - onde foi dado a conhecer que a crise habitacional está a empurrar as famílias para casas mais pequenas, como conclusão de uma análise promovida pela mediadora imobiliária organizadora do evento, e também onde os principais banqueiros de Portugal anteciparam que o crédito habitação vai continuar forte apesar dos altos preços das casas - ajuda exatamente a responder a esta pergunta sobre a importância deste indíce internacional e a posição lusa. Em causa está a avaliação de 173 cidades em todo o mundo com base em 30 indicadores distribuídos por seis categorias: estabilidade, saúde, educação, meio ambiente, cultura e infraestruturas. 

Copenhaga, na Dinamarca, conquistou o primeiro lugar no estudo da EIU, pondo fim ao domínio de Viena, na Áustria, que durava há três anos. A capital nórdica obteve a pontuação máxima de 100 em estabilidade, educação e infraestruturas, subindo da segunda posição para se tornar a cidade mais confortável do mundo para se viver.

Viena, capital da Áustria, está agora empatada em segundo lugar com Zurique, na Suíça, e viu o seu lugar de estabilidade cair drasticamente após os alertas de terrorismo em 2024 e no início de 2025, embora tenha mantido pontuações perfeitas nas áreas da saúde, educação e infraestruturas. Tal como disse Emily Mansfield, Diretora Regional para a Europa da EIU, "de forma geral, as cidades da Europa Ocidental têm bons resultados, sobretudo na saúde, educação e infraestruturas", frisando que, no entanto, "nos últimos anos, houve alguma quebra na pontuação da estabilidade, influenciada por fatores como terrorismo, tensões geopolíticas e maior polarização política".

Global Liveability Index 2025
Fonte: The Economist Intelligence Unit

Lisboa surge na 60ª posição, ligeiramente abaixo de Londres e Madrid, mas à frente de cidades como Roma e Nova Iorque. A capital portuguesa destaca-se, sobretudo, na cultura, no ambiente e na qualidade de vida, além de ter bons resultados em estabilidade e educação. Porém, é evidente que, há um tema que não se pode ignorar e que tem alarmado as entidades internacionais (como a Comissão Europeia), além do poder político nacional, os investidores e a população: a crise no acesso à habitação - problema agora reiterado pela responsável em apresentar o estudo da EIU 2025.

Uma semana depois do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, ter pedido a Bruxelas um Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) exclusivo para habitação, durante uma conferência com o comissário europeu Dan Jørgensen para apresentar o Plano Europeu para a Habitação Acessível, Emily Mansfield recorreu a um indicador interno, chamado “Índice Carrie Bradshaw” – uma referência à personagem de "Sexo e a Cidade", que vivia em Nova Iorque com um estilo de vida pouco realista para o seu salário.

Este índice, tal como explicou a mediadora do painel "Economist Impact Capsule", compara o salário médio com o custo de arrendar um T1, assumindo que a renda não deve ultrapassar 30% do rendimento. Em cidades como Lisboa, o salário médio anual ronda os 26.000 euros, de acordo com o mesmo estudo, para viver confortavelmente e uma pessoa conseguir comprar uma casa na capital portuguesa, seria necessário ganhar praticamente o dobro.

Habitação na Europa: a visão dos especialistas

Painel de debate
Jaime Luque, Membro do Conselho Consultivo para a Habitação, Comissão Europeia, Maria Elsinga, Professora na Universidade Técnica de Delft, Andreas Michelsen, Diretor, Gehl People e Tanguy Desrousseaux, Diretor de Habitação, Departamento de Cidades e Reg Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

E o desafio da habitação acessível não é apenas uma questão social, mas também económica e de competitividade, tal como alertou Jaime Luque, membro do conselho consultivo para a habitação, na Comissão Europeia (CE). “O maior problema que enfrentamos hoje é a dificuldade em atrair capital à escala necessária. A habitação é um setor estruturalmente lento: a oferta demora a responder, é pouco elástica, e isso cria um enorme desfasamento face à procura”, analisou o especialista no âmbito do mesmo evento, na Meo Arena.

Em Portugal, como noutros países europeus, o consenso geral neste debate é que é preciso mobilizar investimento de longo prazo, criando instrumentos financeiros e regulatórios que tornem a habitação acessível atrativa para investidores, sem comprometer a estabilidade do mercado. A mensagem vai no sentido de se começar a canalizar os milhares de milhões de euros que existem em poupanças europeias para este setor (com retornos estáveis de 6% a 8% ao ano), contribuindo para transformar o panorama habitacional em Lisboa e noutras cidades, tal como argumentou Jaime Luque.

A complexidade do problema é também estrutural. Andreas Michelsen, Diretor, Gehl People e especialista em planeamento urbano, lembrou que “temos cidades lindíssimas e consolidadas, um parque habitacional antigo e muito património histórico", frisando que "isso cria um verdadeiro dilema: como conciliar a vida moderna e as exigências atuais com estruturas pensadas para outra época?”. 

Em muitas cidades europeias, e Lisboa não é exceção, a resposta imediata tem sido recorrer a soluções rápidas, como as casas pré-fabricadas e casas modulares, para cumprir metas de construção, mas nem sempre estas garantem qualidade de vida a longo prazo, na sua opinião. Para Andreas Michelsen, “investir no que já existe – reabilitar, adaptar e melhorar o edificado – acaba por ser uma proposta mais inteligente do ponto de vista económico, mais competitiva e melhor para a qualidade de vida nas cidades”.

Outro ponto central destacado no debate deste "Observatório" é a relação entre oferta de habitação e competitividade económica. Tanguy Desrousseaux, Diretor de Habitação, Departamento de Cidades e Regiões, Banco Europeu de Investimento, aproveitou para deixar um aviso: “Quando os estudantes, os jovens profissionais ou os trabalhadores – enfermeiros e professores – não conseguem encontrar casa nas áreas urbanas, as cidades perdem competitividade e o problema deixa de ser apenas social para se tornar também económico”.

De forma complementar, e todos tendo como pano de fundo que é urgente conseguir definir e implementar uma estratégia que ajude a aliviar este problema generalizado no acesso à habitação, os especialistas defendem soluções integradas em incentivos fiscais, fundos de investimento pan-europeus em habitação e reabilitação do parque residencial existente. Nesse sentido, Jaime Luque está convencido que “é possível canalizar mais capital para o mercado imobiliário, aumentar a oferta e, como sabemos, mais oferta tende a baixar os preços – é exatamente o que queremos”. 

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