A quebra do investimento direto estrangeiro na China resulta sobretudo da fraca procura interna, transformação estrutural da economia e restrições ocidentais, mais do que de um recuo da abertura do país, defendeu um conhecido economista chinês.
Num ensaio publicado esta semana na sua conta da rede social WeChat, Sang Baichuan, professor de Economia e diretor do Instituto de Economia Internacional da Universidade de Negócios Internacionais e Economia (UIBE, na sigla em inglês), reconheceu que o investimento direto estrangeiro na China caiu durante três anos consecutivos, mas rejeitou a ideia de que o país tenha deixado de valorizar o investimento estrangeiro.
"É difícil defender que a China já não atribui importância ao investimento estrangeiro", escreveu, sublinhando que Pequim continuou a alargar o acesso ao mercado e a lançar medidas para estabilizar o investimento externo.
Segundo o académico, a utilização efetiva de investimento estrangeiro atingiu um máximo histórico de 189,1 mil milhões de dólares (166 mil milhões de euros) em 2022, descendo para 104,66 mil milhões de dólares (91 mil milhões de euros) em 2025, uma quebra acumulada de 45%, superior à redução global dos fluxos de investimento direto estrangeiro no mesmo período.
Apesar da descida, Sang salientou que a China continua a captar mais de 100 mil milhões de dólares (quase 88 mil milhões de euros) anuais em novo investimento e que as entradas continuam a superar as deslocalizações de capital. Na sua análise, a causa imediata da redução do investimento foi a crise do imobiliário.
"O modelo de crescimento impulsionado pelo imobiliário chegou abruptamente ao fim", escreveu, argumentando que o colapso do setor enfraqueceu o consumo, agravou o excesso de capacidade produtiva e reduziu a rentabilidade das empresas.
O economista apontou ainda a digitalização e a transformação tecnológica da economia como fatores que alteraram profundamente a distribuição de oportunidades e lucros, reduzindo a competitividade de algumas empresas estrangeiras e levando-as a reduzir operações ou a rever as suas carteiras de investimento.
Deterioração do ambiente internacional é fator "fundamental"
Sang considerou, contudo, que o fator "fundamental" reside na deterioração do ambiente internacional. "As mudanças no ambiente externo constituem a causa fundamental", escreveu, apontando o aumento do protecionismo, o alargamento do conceito de segurança nacional às relações económicas e as restrições impostas pelos Estados Unidos e outros países ocidentais ao investimento na China.
Segundo o académico, estas medidas obrigaram muitas multinacionais a privilegiar modelos de negócio menos intensivos em ativos e mais fáceis de deslocalizar, caso as tensões geopolíticas se agravem.
Ele sustentou também que a estratégia chinesa para atrair investimento mudou. "O investimento estrangeiro já não é procurado para suprir a falta de capital ou de divisas", escreveu.
"Espera-se agora que promova o progresso tecnológico, a modernização industrial, a reforma institucional e a estabilidade das cadeias de abastecimento".
"Já não se procura qualquer tipo de investimento estrangeiro", acrescentou, defendendo que projetos intensivos em energia, altamente poluentes ou tecnologicamente pouco avançados deixaram de ser prioritários.
O foco passou para investimento de maior qualidade e valor acrescentado. "A relação entre a China e os investidores estrangeiros tornou-se cada vez mais dependente da compatibilidade estrutural", apontou.
O economista reconheceu, porém, que persistem obstáculos para as empresas estrangeiras, incluindo dificuldades na contratação pública, proteção da propriedade intelectual, transferências transfronteiriças de dados, participação na definição de normas técnicas e previsibilidade regulatória.
Ainda assim, argumentou que esses problemas "não se agravaram nos últimos anos" e, em muitos casos, "melhoraram significativamente", pelo que não explicam, por si só, a quebra recente do investimento.
Para inverter a tendência, Sang defendeu maior coordenação entre as políticas de abertura e a regulamentação setorial, regras mais claras para a circulação internacional de dados científicos e tecnológicos e um reforço dos incentivos ao investimento estrangeiro na indústria de alta tecnologia, particularmente face ao endurecimento dos mecanismos de controlo de investimento adotados pelos Estados Unidos e seus aliados.
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