Durante muito tempo, falámos da casa sobretudo em termos de funcionalidade, estética ou investimento. Mas há uma dimensão que tem vindo a ganhar espaço no discurso contemporâneo: a casa enquanto reguladora emocional. Não apenas o espaço em si, mas os objetos que a habitam, as peças de mobiliário que usamos diariamente, as texturas que tocamos e os elementos decorativos que escolhemos (ou herdamos).
Na infância, os chamados objetos de conforto (a manta, o boneco, a fralda de pano ou aquele peluche já gasto de tanto ser levado para todo o lado), desempenham um papel fundamental no desenvolvimento emocional. Estes objetos funcionam como extensões da figura de cuidado, ajudando o bebé e a criança a lidar com a separação, a regular emoções e a sentir segurança num mundo ainda imprevisível. Ao tocar, cheirar ou segurar esse objeto, a criança acalma-se porque o corpo reconhece ali um sinal de protecção e familiaridade. É através destes primeiros vínculos materiais que aprendemos, desde muito cedo, a usar o mundo à nossa volta como apoio emocional, um mecanismo que, de forma mais subtil, nos acompanha ao longo de toda a vida.
Conforto emocional
A ciência confirma: os objetos não são neutros. "Criar um espaço é, antes de tudo, criar um estado emocional", explica a reconhecida designer de interiores Gracinha Viterbo. "Antes de escolher o que quer que seja esteticamente, existe sempre a psicologia por detrás do momento que estamos a criar. Um espaço é um momento. E esse momento vai pertencer a outra pessoa”.
Como lembra a psicóloga Joelle Santos, “o corpo responde ao ambiente antes da mente", sendo que "quando o corpo relaxa, a mente segue.” Ou seja, antes de pensarmos que estamos tranquilos, o corpo já recebeu (ou não) os sinais certos. Esta ideia ajuda a compreender porque é que determinadas peças ganham um peso emocional tão forte. Não se trata apenas de gosto ou estilo, mas de identificação, memória e segurança.
A psicóloga especialista em neurodivergência Sara Ferreira fala de conforto táctil, ergonómico e funcional, explicando que a investigação em psicologia ambiental e neurociência confirma que um design atento às necessidades sensoriais pode induzir estados de maior tranquilidade, melhorar a concentração, estimular a criatividade e facilitar a colaboração.
Os estudos mais recentes sobre bem-estar espacial mostram que certas características se repetem quando falamos de conforto emocional:
- Conforto físico real (cadeiras que acolhem o corpo);
- Materiais naturais (madeira, tecidos, fibras);
- Formas simples e reconhecíveis;
- Possibilidade de escolha e controlo;
Previsibilidade e controlo mas com flexibilidade
“Na neuroarquitetura dizemos que nenhum espaço é neutro. Tudo o que vemos, ouvimos, tocamos e sentimos é processado pelo cérebro e traduz-se em emoções e comportamentos.” É este o contexto científico que nos deixa a arquiteta especialista em neuroarquitetura Teresa Ribeiro.
Isto significa que cada elemento - do sofá à estante, da cor da parede à textura do tapete, comunica diretamente com o sistema nervoso. O cérebro está constantemente a avaliar se o ambiente é seguro, previsível e regulador ou ameaçador e caótico. É por isso que uma peça de mobiliário pode acalmar ou ativar ansiedade, dependendo da forma, material, proporção e contexto.
Para Teresa Ribeiro existe um ponto central: “O cérebro precisa de referências claras. Quando não percebe a função dos elementos ou quando o espaço é confuso, entra em modo de alerta”.
Valter Ferreira, psicólogo, reforça a ideia da previsibilidade ser "uma forma de descanso mental". A relação entre organização do espaço e estado emocional é direta. “O nosso redor espelha a nossa cabeça. Um espaço minimamente organizado ajuda a que estejamos mais calmos, porque o cérebro interpreta o ambiente como mais previsível”.
Mas o psicólogo deixa também um alerta importante: “A perfeição excessiva, o tudo sempre direitinho, pode gerar ansiedade. A casa não deve ser um espaço de controlo, mas de equilíbrio.” Ou seja, os objetos de apoio emocional não vivem na rigidez, mas numa organização suficientemente clara para orientar, sem sufocar.
“Flexibilidade e controlo são essenciais para o bem-estar. Um espaço que permite escolhas é um espaço que respeita o cérebro”, acrescenta a arquiteta Teresa Ribeiro.
Decoração: identidade, memória e pertença
Durante anos, a decoração foi encarada como algo supérfluo. Hoje, sabemos que é exatamente o oposto. Decorar é construir identidade espacial.
Gracinha Viterbo reforça: “Não existem tendências, existem pessoas. Cada casa deve ser a história real de quem a habita”. Fotografias, livros, peças herdadas, arte ou objetos trazidos de viagens funcionam como âncoras emocionais. São eles que transformam uma casa bonita numa casa habitada.
Do ponto de vista psicológico, os objetos funcionam muitas vezes como extensões simbólicas da identidade. A psicóloga Joelle Santos explica: “Os objetos de uso quotidiano ajudam a regular emoções, porque oferecem continuidade. São pontos estáveis num mundo imprevisível”.
Segundo Joelle Santos, determinados objetos activam memórias de segurança, pertença e previsibilidade, funcionando como micro-refúgios emocionais. “Quando uma pessoa escolhe uma peça de mobiliário ou mantém um objeto específico ao longo dos anos, está muitas vezes a proteger uma parte da sua história”. Esta ligação é particularmente visível em períodos de transição, mudanças de casa, separações, luto, burnout ou fases de maior vulnerabilidade emocional.
Contudo, há um equilíbrio delicado. O excesso decorativo - demasiados estímulos visuais - pode gerar cansaço e ansiedade, sobretudo em pessoas mais sensíveis.
Ponto essencial: plantas e materiais naturais
Entre todos os elementos decorativos, as plantas surgem como um dos mais consensuais e não apenas por uma questão estética. A sua presença responde a algo profundamente biológico. Como explica a arquiteta especialista em neuroarquitetura Teresa Ribeiro, o cérebro humano evoluiu durante milhares de anos em contacto direto com a natureza, razão pela qual continua a reconhecer a madeira, a água e o verde como sinais claros de segurança e bem-estar. É por isso que, intuitivamente, sentimos alívio quando entramos num espaço com plantas ou referências naturais: “Percebemos que quando vamos para a natureza é quando normalmente descansamos, relaxamos e até recarregamos energias. Esses sinais não desapareceram do cérebro humano”.
Teresa Ribeiro sublinha que “todos os materiais que nos remetem para o contacto com a natureza são sinais positivos para o cérebro”. Quando esse contacto não existe, o impacto é claro: “Quando estamos num espaço sem contacto com a natureza, o corpo sente mais cansaço e exige mais esforço para realizar tarefas simples. Basta, por vezes, a presença de plantas, água ou até de um som natural para que o espaço deixe de ter uma carga negativa”.
Como conclui a psicóloga Sara Ferreira, para que o relaxamento aconteça, o corpo precisa primeiro de reconhecer que está num ambiente seguro, e essa leitura começa muito antes de qualquer pensamento consciente.
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