Insatisfação decorativa: porque mudas a casa e nunca é suficiente?

Quando aceitas que o espaço onde vives não é uma fotografia de revistas mas um processo vivo, a pressão liberta-se.
insatisfação decorativa
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Trocaste as almofadas do sofá pela terceira vez este ano. Mudaste o aparador de parede, compraste um candeeiro novo, experimentaste a estante noutra divisão. E mesmo assim, quando entras em casa, tens aquela sensação de que falta qualquer coisa e nem sabes bem o quê. Sabes apenas que aquilo que vês não corresponde àquilo que imaginavas. 

Se te revês nisto, não estás sozinho. O fenómeno tem nome e descreve uma das frustrações domésticas mais silenciosas dos últimos anos: a insatisfação decorativa. É a sensação persistente de que a tua casa não está à altura, por mais que invistas tempo, dinheiro e atenção a decorá-la. E o mais curioso é que quanto mais decoras, mais essa sensação tende a crescer. 

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decoração real da casa
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Antes de avançar para o que fazer, vale a pena reconhecer os sinais:

  • Mudas peças de sítio com frequência sem que nada melhore de forma duradoura;
  • Compras com a expectativa de que aquele objeto vai finalmente resolver a divisão, e a sensação dura poucos dias;
  • Comparas a tua casa com imagens que vês nas redes sociais e sais sempre a perder;
  • Tens dificuldade em descrever o teu estilo por palavras tuas;
  • Acrescentas sempre, raramente retiras;
  • Escolhes o neutro por receio de errar.

Se te identificas com vários, é provável que o problema não esteja nos móveis.

O olhar treinado para comparar

O primeiro motivo é também o mais óbvio: passamos uma quantidade absurda de tempo a olhar para casas de outras pessoas. Abres o Instagram e desfilam interiores impecáveis. Vais ao Pinterest à procura de uma ideia para a entrada e sais de lá com quarenta separadores abertos e a certeza de que a tua entrada é triste.

O ponto que escapa é que aquelas imagens não mostram casas, mostram cenários. São espaços fotografados com luz preparada, com objetos colocados ao milímetro para a câmara, muitas vezes sem ninguém a viver lá dentro. Não há mochilas no chão, nem o carregador do telemóvel à vista, nem a pilha de correio em cima da mesa. Estás a comparar o teu final de dia real com o melhor segundo de um trabalho de produção.

Esse hábito de comparação faz duas coisas ao mesmo tempo:

  • Eleva a fasquia para um patamar inatingível;

  • Baralha-te sobre aquilo que realmente gostas.

decorar a casa com alma
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Há ainda um formato que alimenta tudo isto de forma particular, os vídeos de antes e depois, as transformações relâmpago, os apartamentos renovados em quinze segundos de montagem, instalam a ideia de que toda a casa é um projeto por terminar, um estaleiro permanente à espera da próxima intervenção. Deixas de olhar para a tua sala como um sítio onde vives e passas a vê-la como um rascunho, sempre a um vídeo de distância de ser melhor. É uma forma discreta de nunca estares em paz com aquilo que tens.

O ciclo da compra e a novidade que envelhece depressa

Há um segundo motor: comprar algo novo dá prazer. É um prazer pequeno, imediato, e dura pouco. A peça nova chega, colocas no sítio, sentes durante uns dias que finalmente a divisão melhorou. E depois o cérebro habitua-se. Aquilo que parecia uma solução passa a ser apenas mais um objeto, e a inquietação regressa, à procura da próxima compra que vai, dessa vez sim, resolver tudo.

Os psicólogos chamam a este mecanismo adaptação hedónica, ou seja, adaptamo-nos àquilo que temos com uma rapidez impressionante, seja um aumento de salário, um carro novo ou um móvel de design. O ganho de satisfação é real, mas é temporário. 

A isto junta-se aquilo a que se chama o efeito Diderot, em homenagem ao filósofo francês que, ao receber um roupão novo e elegante, começou a achar tudo o resto da casa pobre ao lado dele e acabou a substituir peça a peça. Compras uma poltrona bonita e, de repente, o tapete que estava bem já não combina. Trocas o tapete e agora são as cortinas que destoam. Uma única peça decorativa nova consegue provocar uma reação em cadeia que te deixa mais longe da paz do que estavas antes.

decorar a casa
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Acumular não é decorar a casa

Outro equívoco comum é confundir quantidade com cuidado. Quando uma divisão não nos agrada, o reflexo é acrescentar, mais um quadro, mais uma planta, mais um objeto na prateleira. Uma sala onde tudo compete pela atenção acaba por não destacar nada. Falta o vazio que dá descanso, o espaço entre as coisas que permite que cada peça respire. 

Há ainda o medo de errar, que paralisa tanta gente. Com receio de que uma cor ousada fique mal, ou de que uma escolha mais pessoal envelheça depressa, optas sempre pelo seguro, pelo neutro, pelo que ninguém critica. O resultado é uma casa correta e sem alma, que não diz nada sobre quem lá vive. 

O que muda mesmo a forma como sentes a casa

A insatisfação decorativa não se combate com mais compras, combate-se com decisões diferentes. A maior parte delas custa pouco ou nada:

  • O ponto de partida é definir o teu estilo de decoração antes de comprar fosse o que for. Parece um detalhe e é, na verdade, o que separa uma casa coerente de uma colagem de tendências. Quando essa bússola existe, o Instagram deixa de te confundir, porque passas a olhar para as imagens como inspiração e não como ordem de compra;

  • Depois, aprende a subtrair. Antes de acrescentares mais uma coisa a uma divisão que não te agrada, tira três. Quase sempre a divisão melhora só com isto. O que dava a sensação de desarrumação não era a falta de decoração, era o excesso;

  • A luz merece um lugar à parte, porque é provavelmente o fator mais subestimado de todos. O que dá calor a uma casa são as camadas de luz quente, espalhadas por vários pontos e a alturas diferentes;

  • Há também uma virtude rara que faz toda a diferença, que é dar tempo às coisas. Permite-te viver com uma divisão incompleta durante uns meses. Esse intervalo deixa-te perceber o que realmente falta, em vez de comprares por ansiedade aquilo que vais querer trocar dentro de um ano;

  • Escolhe a ligação em vez da tendência de decoração. Uma peça herdada da tua avó, uma cerâmica trazida de uma viagem, uma fotografia que significa qualquer coisa para ti. São essas peças que tornam uma casa irrepetível, e essa sensação acalma a inquietação.

Decorar a sala
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Em resumo:

  1. Define o teu estilo por palavras tuas antes de escolheres seja o que for;
  2. Subtrai antes de somar e vive uns dias com a divisão mais despida;
  3. Multiplica os pontos de luz quente e abandona a lâmpada fria única no teto;
  4. Dá tempo a cada divisão e resiste à pressa de a dar por terminada;
  5. Privilegia peças com história e ligação pessoal em vez de tendências passageiras;
  6. Reserva orçamento para uma peça boa em vez de o diluir em muitas medianas.

A casa não é uma fotografia

Talvez o maior alívio venha de uma mudança de expectativa. Uma casa não existe para ser fotografada nem para impressionar quem entra. Existe para ser vivida, com tudo o que isso traz de imperfeito: o sofá com a marca de quem se senta sempre no mesmo lado, a mesa onde se faz vida, as coisas que ficam fora do lugar porque há gente lá dentro.

A insatisfação decorativa nasce, em grande parte, de querermos que a casa seja uma imagem parada e perfeita. Quando aceitas que ela é antes um processo, sempre vivo, sempre um pouco em movimento, a pressão liberta-se. E é aí, curiosamente, que costumas começar a gostar daquilo que tens. Não porque a casa mudou, mas porque finalmente paraste de a medir pela régua errada.

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