O pai tinha uma empresa de construção e, desde miúdo, era nas obras que ele passava os dias. Não sabia o nome do que queria ser. Sabia só que queria "desenhar casas". Foi uma professora da primária que pôs palavra naquilo: arquiteto. Ele nem sabia que era isso, mas, a partir daí, foi sempre ao que respondeu.
Hoje, Daniel Félix tem atelier próprio há cerca de dez anos, em Guimarães. Neste momento são duas pessoas, e é assim que gosta. É a escala que lhe permite estar perto de cada cliente, porque tudo passa por ele. Grande parte do trabalho é residencial, moradias que descreve como fatos à medida, feitos a preceito, com os desejos de quem lá vai morar e o traço de quem os desenha.
E é aí, no encontro entre ambos os lados, que reside o essencial da sua arquitetura. A pergunta de partida não é estética. É outra: o que vai, de facto, na cabeça do cliente quando quer construir uma casa? Quando a resposta aparece, às vezes nos desejos que ninguém se atreve a dizer em voz alta, o resto encaixa quase à primeira e sai um projeto de luxo - muito além do significado simplista do termo.
A obra mais marcante, a casa dos sogros, nasceu dessa proximidade. Não é uma obra de arte, diz ele sem hesitar. É "uma casa que parece ser boa para viver". E, para o fundador da felixARQS, há muito tempo que essas duas coisas deixaram de andar separadas, tal como faz questão de destacar nesta entrevista ao idealista/news.
Começo com a pergunta que faço sempre: recuando às memórias mais antigas, quando é que lhe passou pela cabeça que viria a ser arquiteto?
O meu pai tinha uma empresa de construção e, desde miúdo, andava sempre com ele nas obras. Lembro-me de dizer que queria desenhar casas, sem fazer ideia de que isso era ser arquiteto. Depois houve uma professora na primária, com aquelas perguntas típicas, "o que é que queres ser quando fores grande?", e eu respondia que queria desenhar casas. Ela disse-me: "Ah, então queres ser arquiteto." Eu não fazia a mínima ideia de que era isso, mas passei a dizê-lo. Até porque, naquela altura, estamos a falar dos anos 90, a empresa do meu pai não trabalhava diretamente com arquitetos. Foi a partir daí. Sempre gostei muito de desenhar. Lembro-me de tentar desenhar plantas em casa, naquele papel quadriculado. A coisa foi-se encaminhando naturalmente, acabei por seguir e, quando descobri o que era de facto, fiquei contente, porque gosto imenso do que faço.
O meu pai tinha uma empresa de construção e, desde miúdo, andava sempre com ele nas obras. Lembro-me de dizer que queria desenhar casas, sem fazer ideia de que isso era ser arquiteto.
Como tem sido concretizar uma profissão de que nem sequer sabia o nome?
Primeiro vem o choque de chegar à faculdade, sobretudo nos dois primeiros anos: perceber o que é, efetivamente, ser arquiteto e o que é a profissão. Depois há o momento do encantamento. Ficamos mesmo encantados, e até bastante desfasados da realidade, muito embrenhados naquele lado intelectual, abstrato, dos conceitos. E há um segundo choque, quando entramos na vida ativa. No meu caso, com a decisão de ter atelier próprio, juntaria ainda um terceiro choque: não saber vender arquitetura. Isto acaba por ser um serviço, é um negócio, tem de ter fluxo de caixa, entradas e saídas. Não saber como oferecer o serviço, como explicá-lo aos clientes, como nos posicionarmos, o que aceitar e o que recusar fazer. Durante os primeiros anos foi muito duro.
O atelier já foi maior. Agora somos duas pessoas e estou satisfeito com esta escala, porque conseguimos ter grande proximidade com todos os clientes. Tudo passa sempre por nós. Trabalhamos muito e grande parte do nosso trabalho é residencial, moradias. Costumamos dizer que são fatos à medida, feitos mesmo a preceito com os desejos do cliente e, obviamente, com o nosso ponto de vista, a nossa visão. Esta escala agrada-me, pelo menos para já.
Não sei o que será amanhã, mas, tendo tido um atelier com mais gente e agora com menos, para o trabalho que desenvolvemos sinto-me muito confortável assim, porque temos grande proximidade com o cliente e percebemos que o tipo de cliente que temos também valoriza isso. Temos feito também alguns trabalhos maiores, mas mais numa lógica de colaboração.
É interessante esta quase esquizofrenia: tanto estamos a fazer uma casinha de 70 metros quadrados como, de repente, um edifício de 4.000 ou 5.000. Isso mostra outro lado da profissão, que só se sente quando se está no ativo. Lidar com escalas muito distintas, que normalmente se resolvem com o mesmo processo, o mesmo método, e que implica estar sempre a estudar, sempre a aprender.
O que é mais desafiante nessa construção do "fato à medida"? Conhecer o cliente e só depois partir para o desenho?
É perceber exatamente o que vai na cabeça do cliente. Na nossa formação há uma série de princípios, que até gostaríamos de chamar um método, se assim lhe pudermos chamar, os princípios basilares da arquitetura: a relação com o envolvente, com a topografia, se estamos em meio rural ou urbano, a questão da insolação, a sustentabilidade. Tudo isso é conhecimento que temos.
Costumamos dizer que as casas que desenhamos são fatos à medida, feitos mesmo a preceito com os desejos do cliente e, obviamente, com o nosso ponto de vista, a nossa visão. Esta escala agrada-me, pelo menos para já.
Mas há um lado que é a nossa expressão, e é por isso que Portugal é um país cheio de arquitetos, todos com uma obra muito distinta. E, de repente, há um cliente que por vezes também não se consegue exprimir muito bem, mas o facto é que normalmente os clientes têm ideias muito traçadas. Sempre que a nossa proposta não vai ao encontro delas, pode criar-se algum atrito. Por isso, uma das coisas em que mais temos investido é no briefing com o cliente: tentar ao máximo que ele se exprima.
Às vezes percebemos que há prioridades, há desejos que não querem bem dizer, porque se sentem de algum modo incomodados em transmiti-los, e, para nós, isso é essencial. Quando conseguimos que o cliente seja muito aberto connosco, normalmente o estudo prévio é quase aprovado à primeira, com uns dez ajustes. Quando o cliente é muito reservado e não se envolve no processo, é muito difícil, porque é difícil construirmos a tal empatia que nos permite imaginar o cliente e desenhar a casa para ele, com o nosso traço, obviamente. Diria que, nesta lógica do fato à medida, o maior desafio é esse.
Ao longo destes dez anos, há alguma história ou algum projeto que o tenha marcado mais, pelos melhores ou pelos piores motivos?
Tenho um em particular: desenhar a casa dos meus sogros. Já convivia com eles há muito tempo. Compraram um terreno ao meu pai num loteamento. O meu pai tinha aquele lote havia muito tempo e eu até já lá tinha feito um projeto, mas numa lógica imobiliária, construir para vender. Eles compraram o lote e eu já estava casado com a minha mulher, por isso conhecia-os havia imenso tempo e sempre convivi muito com eles. São um casal muito aberto. Tanto eu como a minha mulher sempre convivemos muito com eles, ainda na fase de namoro. Havia aqui uma série de fatores em que não se podia falhar: conhecia-os muito bem, conhecia muito bem o local, até porque moro a 300 metros, e, portanto, sabia tudo, por onde o sol nasce, por onde se põe, como é quando chove muito. E conhecia bem o modo como eles viviam.
Houve ainda um fator adicional: a casa foi feita em autogestão. Não houve empreiteiro geral, não foi chave na mão. Quem lidou com todo o processo, pedir orçamentos, analisar, contratar, adjudicar, fazer o seguimento da obra, fui eu. É uma obra que tem muito disto. E, ainda assim, é uma casa muito tranquila, muito serena no lugar onde está.
Há imensos exemplos de arquitetos que desenharam a própria casa, e de outras casas, evidentemente, para as quais olho e percebo que são uma obra de arte e que funcionam, pelo menos na nossa leitura. Depois, seria preciso questionar os clientes, quem habita a casa, para saber se é mesmo assim. Mas acho que é perfeitamente conciliável.
Não é uma obra de arte. Há um colega nosso que fez um post de que gostei, em que diz que é uma casa que parece ser boa para viver, e é um bocadinho isso. Marcou-me por aí. Apesar de a casa ter imensos detalhes, eles estão muito escondidos. Houve um processo de execução quase diário, em obra. Passou mais pela execução em obra do que pelo desenho. E foi também um processo muito longo, sobretudo o de obra, por causa desta lógica de andar a contratar agora o eletricista, agora o canalizador, e de conseguir que toda essa gente se articulasse. Eu tinha de estar lá a coordená-los. Marcou-me muito por aí. E, por acaso, acho que eles confiaram bastante, porque o orçamento derrapou.
Houve derrapagem face à expectativa inicial, não foi?
Sim, havia um pouco disso. Mas a primeira vez que senti que eles realmente adoravam a casa... Obviamente, mesmo que não gostassem, talvez não me dissessem, creio eu. A altura em que senti que tinha acertado em cheio foi porque, sendo um dos nossos primeiros projetos cá a ficar concluído, a obra acabou por servir muitas vezes para levar lá outros clientes a ver o que estava feito. E eu nunca precisei de explicar o projeto a ninguém: a minha sogra explica tudo o que está no interior, o meu sogro explica tudo o que está no exterior, os materiais, explicam tudo. Eu só levo lá o cliente e eles tratam de vender aquilo por mim.
Usando uma expressão sua: acha que o conceito de "obra de arte" e o de "casa boa para viver" ainda são coisas distintas na arquitetura?
Diria que não. Diria que depende muito, e, mais uma vez, levo isto para a encomenda. Depende se é um cliente particular ou um organismo. Há clientes que querem mesmo ter um espaço para viver que não seja o habitual, não só zona social e zona íntima. Querem o quarto de leitura, ou uma determinada relação com a paisagem, seja o que for. Há clientes predispostos a esse lado mais disruptivo ou mais criativo, que dão essa abertura e querem mesmo explorá-lo. Há outros que não. Já trabalhámos com pessoas em relação às quais percebemos que, se tentássemos extravasar muito aquilo que é a casa comum, na sua organização, na articulação dos espaços, provavelmente não iria funcionar. Ao fim de dois ou três anos, se calhar quereriam vender a casa. Portanto, havendo essa abertura, acho que sim.
Há um tipo de projeto que gostava de fazer: um museu. A única experiência que tivemos foi um concurso de ideias para um museu, em que nem ficámos na short-list. Mas era um tipo de trabalho que gostaria de fazer, uma espécie de museu ligado às emoções. Algo mais ligado à forma como a arquitetura consegue despertar determinados sentidos, levando quem o usa a sentir algo, a ter determinadas sensações.
Há imensos exemplos de arquitetos que desenharam a própria casa, e de outras casas, evidentemente, para as quais olho e percebo que são uma obra de arte e que funcionam, pelo menos na nossa leitura. Depois, seria preciso questionar os clientes, quem habita a casa, para saber se é mesmo assim. Mas acho que é perfeitamente conciliável.
E no futuro, há algum projeto que gostasse muito de vir a fazer?
Há um tipo de projeto que gostava de fazer: um museu. A única experiência que tivemos foi um concurso de ideias para um museu, em que nem ficámos na short-list. Mas era um tipo de trabalho que gostaria de fazer, uma espécie de museu ligado às emoções. Algo mais ligado à forma como a arquitetura consegue despertar determinados sentidos, levando quem o usa a sentir algo, a ter determinadas sensações. Isto vamos conseguindo fazer nas casas quando conhecemos bem o cliente, mas num museu acho que há mais espaço para explorar isto de uma forma distinta. Não sei, não me parece que vá acontecer tão cedo.
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