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“Prevemos que muito mais gente vai viver para empreendimentos turísticos"

Pedro Fontainhas, diretor executivo da Associação Portuguesa de Resorts (APR), em entrevista ao idealista/news.

Autores: @Frederico Gonçalves, @jone, luis

O setor do turismo residencial é um dos que mais tem sentido os efeitos da pandemia do novo coronavírus. Em entrevista ao idealista/news, Pedro Fontainhas, diretor executivo da Associação Portuguesa de Resorts (APR), diz que o volume de negócios vai cair a pique em 2020 face ao registado no ano passado (650 milhões de euros), mas defende que o interesse no setor vai manter-se no pós-Covid-19. "A retoma vai demorar, mas vai voltar em força", diz, argumentando que "Portugal tem uma quantidade de fatores diferenciadores únicos que não desaparecem". Aponta, por outro lado, que de futuro haverá mais pessoas a optar por viver em empreendimentos turísticos. “Uma das coisas muito curiosas que reparámos durante esta crise é que o número de residentes permanentes nos empreendimentos subiu bastante”, conta.

Fale-nos um pouco sobre a APR. Há quantos anos existe e quantos associados tem?

A APR nasceu em 2011 e é uma associação empresarial sem fins lucrativos. Temos 35 associados, que são resorts de quatro e cinco estrelas, empreendimentos de turismo residencial. A nossa atividade desenrola-se em três vertentes. Uma é a promoção e o desenvolvimento internacional do turismo residencial em Portugal. Temos um programa de atividades bastante intenso todos os anos, sendo que este ano todos os eventos que tínhamos foram adiados ou cancelados. O segundo eixo/vertente é a comunicação, que consiste em transmitir a quem de direito quais são as preocupações do turismo residencial e sugerir melhorias e/ou iniciativas legislativas etc. O terceiro eixo de atuação é o conhecimento da indústria. Fazemos ou comissionamos estudos e estatísticas que permitam aos nossos associados ter mais e melhor informação para gerir os seus negócios. 

O turismo e o imobiliário são dois dos setores que mais têm sentido os efeitos imediatos desta pandemia. O que está a acontecer no setor desde março?

Há pessoas que não têm bem a noção de que o turismo é na verdade um setor que abrange a construção e a venda do imobiliário turístico residencial, mas também outros negócios, como a manutenção e a gestão dos empreendimentos turísticos, a prestação de serviços de apoio aos residentes permanentes nesses empreendimentos, a exploração turística das unidades e a promoção e a gestão de serviços de saúde e bem-estar e turísticos, como o golfe, desportos aquátios, de natureza etc. O turismo residencial são vários negócios e todos os nossos associados têm em medidas diferentes estes negócios.  

As estimativas que temos, desde que a crise iniciou, é que 2020 ficará até 75% abaixo do ano de 2019 [650 milhões de euros]. Se assim for, andará aí nos 130, 140 milhões de euros. A quebra do volume de negócios está a ser brutal e não pensamos que seja possível até ao fim do ano recuperar aquilo que já se perdeu. O turismo e o imobiliário são dois setores fundamentais em Portugal, porque o turismo representa qualquer coisa como 14,6% do Produto Interno Bruto (PIB), 9% do emprego nacional, e o imobiliário representa 12% do PIB. Representa ao todo 26%, um quarto do PIB. É fundamental proteger estas indústrias, pois pode estar em causa a sua capacidade de ajudarem eficazmente a economia, quando o país mais necessitar delas.

Houve empreendimentos que estavam a ser construídos cujas obras tiveram de parar?

Curiosamente, as obras não pararam, não me espantaria que uma ou outra tivesse abrandado um pouco, mas o investimento continua. O que está praticamente parado é a parte das vendas a clientes finais, porque uma grande parte são estrangeiros que, de repente, não podem visitar as propriedades, não vêm cá de férias. Além de que, no caso dos resorts dos nossos associados, todas as pessoas estão praticamente em lay-off.

A prorrogação do acesso ao 'lay-off' é, de resto, uma das medidas mais reenvidicadas pela APR. Há novidades sobre esse tema?

Temos vindo a falar com o Governo. Todas as segundas-feiras fazemos um ponto de situação sobre como as coisas estão a decorrer no terreno e uma atualização das medidas que propomos. As coisas têm corrido bem em termos de diálogo, em termos de resultado das medidas ainda é cedo para ver, mas algumas já foram implementadas.

"As retomas vão ser lentas, graduais, portanto é fundamental que existam mecanismos na legislação do lay-off simplificado que permitam alguma progressividade na saída de cena das medidas extraordinárias e na entrada em cena de uma atividade mais normal"

Relativamente ao 'lay-off', a maior preocupação é a progressividade dessa medida e a capacidade que vai ter, ou não, de ser paralela à retoma. Nas empresas na área do turismo não é expetável que, de um dia para o outro, se diga: “Acabou a crise e agora voltámos todos ao normal e os empregados têm de voltar e acabou-se o lay-off simplificado”. Isso não vai ser assim, porque não vai haver um dia da retoma, e muito menos num prazo de três meses. As retomas vão ser lentas, graduais, portanto é fundamental que existam mecanismos na legislação do 'lay-off' simplificado que permitam alguma progressividade na saída de cena das medidas extraordinárias e na entrada em cena de uma atividade mais normal.

O 'lay-off' é uma das medidas mais importantes que foram tomadas até agora, mas é fundamental que se mantenha durante muito tempo, não apenas três meses. É no mínimo até ao final do ano, mas idealmente por 2021 adentro. Mais importante do que fixar uma data de fim da medida é criar mecanismos legislativos dentro da medida, que permitam que esta acompanhe e apoie as empresas não apenas durante três meses, mas durante o tempo que elas vão precisar para recuperar efetivamente disto que está a acontecer.

Os associados da APR previam investir 1.200 milhões de euros até 2025. O otimismo mantém-se?

Os planos continuam e os investimentos vão acontecer, porque são coisas com prazos diferentes. Nós entendemos que o otimismo prossegue, sabemos que os investimentos vão continuar e que aquilo que dizíamos em finais de 2019, nomeadamente da estimativa que fizemos do levantamento dos nossos associados que iria haver nos próximos cinco anos cerca de 1.200 milhões de euros de investimento no setor, no turismo residencial, tudo isso se mantém, porque são prazos diferentes. Uma coisa é estarmos a falar do volume de negócios que temos ou não em 2019 ou 2020, e do maior ou menor tempo que vai demorar voltarmos a ter os empreendimentos com os turistas, residentes e investidores. Outra coisa é olharmos para a atividade no prazo de 5, 10 ou 15 anos. 

"Sabemos que os investimentos vão continuar e que aquilo que dizíamos em finais de 2019, nomeadamente da estimativa que fizemos do levantamento dos nossos associados, que iria haver nos próximos cinco anos cerca de 1.200 milhões de euros de investimento no setor, no turismo residencial, tudo isso se mantém, porque são prazos diferentes"

Há duas razões que sustentam esta visão. Uma é que Portugal tem uma quantidade de fatores diferenciadores únicos que não desaparecem: a situação geográfica, as infraestruturas, o clima, a hospitalidade... Tudo isso se mantém e são fatores que vão continuar a ser muito procurados pelos novos residentes e turistas. A outra razão é que Portugal continua a ser visto pelos mercados nossos clientes como um refúgio, um sítio certo para estar na era pós-Covid-19. A retoma vai demorar, mas vai voltar em força.    

O interesse por este tipo de imóveis, inseridos em resorts, abrandou com a pandemia, ou continua a haver manifestações de interesse?

A nível individual e particular não tenho informação de um empreendimento nosso associado cujo cliente tivesse cancelado as suas intenções de compra ou de investimento em imobiliário em Portugal. Há muitos que estão atrasados e outros que estavam à beira de fechar o negócio e não fecharam, porque não havia forma de o fazer. Quando a crise começou tínhamos muitos destes casos, de negócios em que faltava celebrar um Contrato de Promessa Compra e Venda (CPCV) ou uma escritura e não puderam ser fechados, mas uma das medidas que propusemos com maior urgência foi a possibilidade de se conseguirem fazer negócios à distância, escrituras e autenticações de documentos à distância, uma proposta que foi muito bem acolhida pela secretaria de Estado do Turismo e que foi aprovada em Conselho de Ministros na semana passada. É uma medida que vem trazer alívio.

Há agora mais pessoas a viver nas casas de segunda habitação em resorts? O paradigma pode mudar?

Uma das coisas muito curiosas que reparámos durante esta crise é que o número de residentes permanentes nos empreendimentos subiu bastante. Os empreendimentos estão com mais residentes permanentes do que em qualquer outra altura, o que é um sinal claro de que os proprietários das casas optaram por esse tipo de vida, de ambiente, de conforto, de qualidade, de serviço etc. para passar a sua quarentena. Confirmaram que, afinal, é fácil teletrabalhar num resort, e que o trabalho à distância passou a ser uma coisa corriqueira nas empresas e na sociedade. E, portanto, prevemos que muito mais gente vai viver para empreendimentos turísticos, portugueses e estrangeiros, igual. 

Há resorts cuja maioria dos residentes são estrangeiros, outros são portugueses. Achamos que vai haver mais procura e vai haver mais gente a usufruir das suas casas e das suas residências em empreendimentos turísticos de forma mais permanente.

"Os empreendimentos estão com mais residentes permanentes que em qualquer outra altura (...). Prevemos que muito mais gente vai viver para empreendimentos turísticos, portugueses e estrangeiros"

Hoje em dia tempos pessoas que compram casas, usufruem delas durante uma parte do ano e põem o resto do ano à exploração. Depois temos outro tipo de pessoas, que compram a casa e vivem lá o tempo todo. E temos ainda pessoas que compram a casa, aproveitam-na pouco e também não a põem à exploração. O que vai acontecer é que se calhar vamos assistir a uma subida dos proprietários que optam por passar mais tempo nas suas casas e uma descida relativa da exploração turística. 

Fale-nos um pouco sobre a plataforma Portugal Residential. Pertence à APR, certo? Que vantagens tem?

Sim, é 100% propriedade da APR. É uma plataforma desenvolvida por nós com o apoio do Compete e é uma porta aberta sobre o que Portugal tem de melhor para oferecer em termos de turismo residencial. Tem oferta imobiliária, além de ter informações úteis sobre como investir em Portugal e porque vale a pena fazê-lo. E tem também informações sobre o país em geral.

A plataforma está neste momento a ser revista, repensada, porque tem também de evoluir. Estamos a pensar fazer algumas alterações. É a nossa plataforma virada para fora, para o mercado.

A APR recebeu muitos contactos/manifestações de interesse  através da plataforma? 

A intenção é essa, ajudar à promoção e ao desenvolvimento. A plataforma está pensada para canalizar o mais rapidamente possível as perguntas e os pedidos de esclarecimento diretamente para os nossos associados, apesar disso temos alguns pedidos em que perguntam sobre assuntos genéricos. Mas o que é negócio é feito diretamente entre os nossos associados e os seus clientes, a plataforma é apenas um veículo de apresentação, uma espécie de cartão de visita onde as pessoas podem encontar contactos, ver fotografias e vídeos e escolher os seus destinos.  

Que mensagem gostaria de deixar ao setor do turismo residencial?

O setor está com três prioridades essenciais. A primeira é manter as forças de trabalho em elevado regime de prontidão. Estamos a recorrer ao 'lay-off' como medida de preservação do emprego e precisamos muito que este 'lay-off' nos acompanhe ao longo desta crise para ser possível repor estas pessoas, que são experientes e que estão especializadas, para repô-las no ativo o mais rapidamente possível. Outra prioridade é manter as estruturas em perfeito estado de funcionamento e de manutenção. Estamos a investir nisso, com ou sem clientes a manutenção é feita, tudo é preparado, e estamos em casa a preparar a casa daqueles que nos hão-de visitar em breve. A terceira prioridade é mantermos os clientes perto de nós, e manter uma relação de proximidade, intimidade, e isso as forças de vendas e marketing dos diversos empreendimentos têm feito um excelente trabalho, digital e à distância, de manter essa clientela confiante, tranquila, unida e de conseguir que não tenha havido até agora cancelamentos de negócios.