Com uma assinatura inconfundível, a criadora luso-brasileira confia no poder da narrativa para "astofalizar" o mundo dos interiores de luxo.
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Entramos em casa de Joana Astolfi e pensamos que o mundo seria um lugar muito melhor que pudesse ser “astolfizado”. Até lá fica a vontade de que, pelo menos, o sonho desta artista, arquiteta e designer se concretize e que nasça um lugar em que todas as pessoas possam ter pequeninos pedacinhos "astolfianos", daqueles que dá para pôr no bolso ou levar para casa.

A assinatura da Joana sente-se: uma forma de fazer do espaço um lugar habitável, quente e humano. Não é surpreendente quando se percebe de onde vem: é filha de um arquiteto brasileiro e de uma galerista portuguesa, cresceu num contexto de criatividade e intercâmbio cultural, com churrascos, bossa nova e jazz, sempre com um 'sketchbook' na mão. Acompanhar o pai ao ateliê e às obras, fazer maquetes, viajar, observar, aprender a materializar ideias: foi aí que a arte e o espaço se juntaram. E as palavras do seu progenitor estavam certas, quando ela hesitava entre arquitetura e arte: “A arte já está dentro de ti, a arquitetura abre-te portas.” 

O território de Joana Astolfi, é o interior - de dentro para fora, onde um puxador de porta pode ser tão importante como uma planta e onde a iluminação pode “fazer ou destruir” um espaço. E a bagagem já está cheia "com muita história, com muita experiência, com muito projeto, com muito cliente que já passou", tal como partilha a designer de interiores formada em arquitetura que, além de Portugal, já viveu e trabalhou em Londres, Veneza, Munique e Los Angeles.

Responsável pela conceção das montras da Hermès em Portugal, conta, no seu portefólio de clientes, com nomes como o Grupo Avillez, Herdade da Comporta, Tranquilidade, Claus Porto, A Padaria Portuguesa, L’Oréal, CUF, NOS, Sonae, Teixeira Duarte, The Fladgate Partnership, Oceanário de Lisboa ou Viúva Lamego, entre muitos outros compradores privados.

Hoje, com o estúdio dividido entre o ateliê (com cozinha e vida partilhada) e a oficina (onde se suja, corta e experimenta), junto com a sua equipa, a criadora luso-brasileira que soma vários prémios - entre os quais "Best Luxury Interior Design Studio in Portugal’ ou ‘Best Visual Merchandising’ by Monocle Design Awards -, procura as muitas camadas de cada lugar. A dos objetos e das histórias que eles carregam, a do drama e pensamento humano, a da patina do tempo, a da curiosidade e do playfulness que faz as pessoas entrarem, quererem ficar e descobrir.

Nesta entrevista ao idealista/news, entramos nessa dimensão de alta sensibilidade e jogo: o que a forma, o que a move e o que ela ainda quer construir. Porque a Casa Astolfi - esse projeto em Marvila (Lisboa) onde se pode dormir, comer, estar, trabalhar, ouvir conversas e levar consigo pedaços do seu universo, não é só um desejo. É, na verdade, uma narrativa de promessa de dar a outros lugares o cunho de luxo que é ter peças únicas como estas, irreverentes e sofisticadas.

 

Casa Amarela Boutique
Casa Amarela Boutique Joana Astolfi

Começamos pelo início: que memórias de infância é que explicam que esteja aqui hoje?

Tenho um pai arquiteto e uma mãe galerista. Cresci muito embrulhada, mergulhada nas artes e, no geral, na criatividade. O meu pai é brasileiro, a minha mãe portuguesa: uma casa cheia de gente, artistas, artesãos, arquitetos, com churrascos e bossa nova. A minha mãe cantava também, jazz e tal. Portanto, cresci no meio de toda esta inspiração, deste mundo, deste input.

Eu sempre gostei muito de desenhar. Sou filha única e ia com os meus pais para todo o lado, literalmente, a todos os restaurantes. Adormecia à mesa, adormecia com eles nos bares, nos restaurantes, mas tinha sempre comigo os meus sketchbooks, os meus lápis, as minhas coisas. Era a minha forma de estar sozinha: o desenho, a pintura, etc.

Mas estava sempre a acompanhar o meu pai no ateliê dele, a ir ver as coisas a acontecer; ia com ele às obras, fazia maquetes com o meu pai. Então eu tinha essa sensação do desenho e da arte, mas também da fisicalização das coisas, do espaço. E as nossas casas sempre foram muito bonitas. O meu pai é um arquiteto, ele é dos anos 50, Ipanema, todo aquele lado modernista, muito ligado a Frank Lloyd Wright, Miss van der Root; as nossas casas eram muito bonitas.

E nós viajávamos muito, pelo mundo inteiro. O meu pai levou-me a ver muita coisa, a mim e à minha mãe, porque ele já tinha vivido fora, em muitos sítios, antes de casar com a minha mãe aos 40 anos.

E então eu estava muito dividida aos 15, 16, quando tive de escolher, porque eu estudei numa escola internacional inglesa e já sabia que ia fazer a minha universidade na Inglaterra. Mas estava muito dividida entre arquitetura e arte. Foi a única conversa mais séria que tive com o meu pai sobre esse tema. O meu pai nunca me quis puxar para a arquitetura. Ele disse que eu tinha a arte dentro de mim e que era artista na essência: “A arquitetura é uma coisa que eu vejo que tu realmente tens interesse, gostas, queres saber mais e estás curiosa. O meu conselho para ti é estudar arquitetura: segue arquitetura e a arte vai estar sempre contigo. Se quiseres parar com a arquitetura e voltar à arte, a arte já está dentro de ti.”

Então eu achei que isso fazia sentido e assim foi. E assim foi o meu curso: a arquitetura abriu-me muitas portas. Eu percebi logo. Eu tive seis anos nesse curso, entre Gales (Wales, Cardiff) e Londres. E, no meio disso, ainda fiz um ano de estágio em Munique, para ganhar um bocadinho mais do lado técnico, porque eu era muito mais para o lado criativo e de conceito e narrativa.

Mas percebi logo, através da arquitetura do meu curso e dos meus professores também, que a minha coisa era para os interiores: era de dentro para fora. Era tudo o que humanizava o espaço - os materiais, as texturas, as cores, os objetos, o mobiliário. Desenhar tudo ao pormenor, até ao puxador da porta, interessava-me muito mais do que desenhar em escala grande, prédios e aeroportos e coisas… Enfim, a escala urbana era muito menos interessante para mim. Era muito mais a escala mais apertada ali. E então, assim foi.

Quinta da Vacaria
Quinta da Vacaria Joana Astolfi

E depois...

E depois tive 12 anos fora de Portugal. Durante esse período foi o estudo e depois ainda fui para Los Angeles um ano, fui para Londres mais dois anos, estive em Veneza no final; depois ainda voltei a Lisboa um ano e depois estive em Veneza dois anos a trabalhar num grande spot que foi para mim talvez o mais imersivo de sempre, que foi a fábrica, o centro criativo da Benetton, em que aí éramos 60 jovens, de 25, 26, 27 anos, sem vícios criativos, a criar 12 horas por dia. Eu estava no departamento de space - de espaço, design, objeto e espaço, e ia criar com génios, miúdos que eram génios; e também fui para o Japão montar exposições para a fábrica. Eu fui a primeira portuguesa a ir para lá, na realidade. Eu sabia que tinha que estar naquele nível de desafio comigo própria, criativo. É levar ao limite, quase à exaustão, a criatividade.

Enfim, já são 20 anos que passaram. E a bagagem já está interessante, já está bastante pesada, in a good way, com muita história, com muita experiência, com muito projeto, com muito cliente que já passou. 

Como foi o regresso?

Quando voltei, pensei: bom, pode ser que agora fique, pode ser que não. Mas tinha saudade da minha terra e tinha saudade de estar perto dos meus pais, porque sou muito ligada a eles. Quando vim, já vinha com muita imprensa em cima de mim, a perguntar-me o que é que eu era. se era arquiteta, se era designer, se era artista. Já era uma fusão disso tudo na altura, isto há 20 anos. E aqui em Portugal ainda não havia essa fusão, mas para mim era muito claro.

Quando vim, já vinha com muita imprensa em cima de mim, a perguntar-me o que é que eu era. se era arquiteta, se era designer, se era artista. 

E então comecei a ter commissions para projetos: exhibition design, shop design, retail, art installations, peças de arte. Estava tudo muito híbrido nessa altura e, devagarinho, comecei com um espacinho no Bairro Alto, na Rua das Salgadeiras, que era tipo uma loja-estúdio, onde eu transformava objetos.

E daí, bom, entretanto, já lá vão mais dez ateliês depois disso, com uma equipa onde já devem ter passado cento e tal pessoas, mais, talvez, duzentas pessoas, pelo Estúdio Astolfi. Hoje somos uma equipa de vinte e já devemos ter realizado uns trezentos projetos ou mais.

Atualmente, o nosso estúdio é no Bairro Alto/Príncipe Real, ali na Rua Nova de Loureiro. Eu tenho sempre dois espaços. Sempre tive um espaço de ateliê, onde estão os arquitetos, os designers, os computadores, com uma cozinha sempre para nós cozinharmos e comermos juntos. Sempre uma sensação de casa. Sempre gostei que o meu ateliê tivesse esse home feeling

E depois há um espaço de oficina, um espaço de workshops, onde estão os artesãos, os artistas, onde fazemos montras. Fizemos, durante dez anos, as montras da Hermès, como vocês sabem, e trabalhávamos em vários materiais (desde metal, gesso, cerâmica, madeira, papel, todos os tipos de material) e precisamos de um espaço grande, um armazém, para poder sujar e cortar. É barulho, é um espaço com uma dinâmica completamente diferente. Essa oficina é na Graça.

A Joana fala dos interiores “de dentro para fora” e sei que gosta muito da palavra "narrativa" - como é que encontra a narrativa certa para cada espaço?

Para mim, o princípio de qualquer projeto, o primeiro desafio, é sempre contar a história. Que história é que vou contar com este projeto, com este problema para resolver? Porque cada projeto tem os seus obstáculos, as suas restrições, e isso torna-o cada vez mais desafiante. Mas, no fundo, é sempre uma história que eu vou contar: um storytelling, uma narrativa que também pode chamar-se um conceito. E essa narrativa está sempre cerçada, sempre baseada numa linguagem que se chama Astolfi. É uma linguagem que venho a construir há 20 anos; portanto, esse “alfabeto” já lá está. Depois vou buscar partes desse alfabeto para contar cada uma das histórias.

No fundo, é sempre uma história que eu vou contar: um storytelling, uma narrativa que também pode chamar-se um conceito. E essa narrativa está sempre cerçada, sempre baseada numa linguagem que se chama Astolfi.

Nós fazemos muitos projetos de design de interiores. Nos últimos tempos, têm sido muitos hotéis: hotéis rurais e urbanos, casas, lojas, bares, co-workings, stunts, mais efémero, menos efémero. Mas isso é um layer do projeto: o layer do design de interiores. Esse layer mexe com os materiais, com a palete cromática, a palete de texturas, a palete material, com a tensão entre materiais, e tudo isso para criar calor visual, aconchego.

E, ao mesmo tempo, há uma palavra que é muito importante na nossa linguagem: playfulness. Um lado divertido, um lado de explorar. O espaço não está ali flat; as pessoas entram no espaço e quase fazem uma viagem de voyeur, vão descobrindo coisas.

Depois entra o layer dos objetos, mas antes dos objetos ainda há a decoração ao nível de peças, mobiliário e iluminação. Estes dois layers são muito importantes. A iluminação é fundamental - makes it or breaks it, destrói ou faz um espaço. E eu gosto sempre de ter vários pontos de iluminação decorativa, mas depois também há a iluminação técnica, que vem de onde tu não vês a luz, não é?

Mas a humanização do espaço está, sobretudo, nessa camada. Para mim, o layer dos objetos é muito importante, porque são esses objetos, sejam objetos físicos, ou livros, ou peças de arte, tapetes, há tanta coisa, e esse cruzamento de cores, de materialidades, dessas patinas do tempo, da história que cada objeto vai contar, que realmente personaliza o espaço. Isso é o que conta a tua história. Se for a tua casa, é a tua história. Se for a casa de outra pessoa, então é sempre um trabalho muito interessante que eu faço com o cliente: tentar perceber que tipo de objetos fazem sentido. E muitas vezes pedem-me também curadoria dos objetos para a casa, que é uma coisa muito pessoal; eu tenho de chegar muito perto do cliente.

Casa Amarela Boutique
Casa Amarela Boutique Joana Astolfi

Este processo é muito diferente quando falamos num cliente mais amplo, como num hotel?

Num hotel é diferente. Num hotel, sendo um espaço público, eu sei qual é a história que estou a contar, como foi na Quinta da Vacaria ou na Casa Amarela, por exemplo, e vou buscar objetos para contar essa história.

Na Casa Amarela foi giro porque é um hotel em Beja, rural, de 10 quartos, numa casa antiga no centro histórico de Beja, e nós temos um cabine de curiosidades: uma coisa que eu comecei a fazer há 10 anos em São Lourenço do Barrocal, no hotel, no restaurante, num cabine enorme. Eu não tinha de fazer um cabine; o José António simplesmente pediu-me uma peça que contasse a história do Barrocal. E eu, no meio das minhas pesquisas, pelas casas da mãe dele e tal, encontrei tanta coisa incrível para fazer… Como é que eu vou mostrar isto tudo? E pensei: vou fazer um cabine de curiosidades. E aí começou. Desde então, tornou-se uma marca, um trademark: Estúdio Astolfi.

E na Casa Amarela fizemos um só com objetos com patina amarelada. Foi muito giro - de todos os géneros de materiais: cerâmica, metal, têxtil, papel, tanta coisa. Mas sim: essa parte da humanização do espaço é um layer fundamental.

E há muitos espaços onde esse layer não é feito. Eu sinto que, quando entro nesses espaços, normalmente é mais em hotelaria. Em casas eu nem vou opinar, porque é uma coisa muito pessoal. Agora, a hotelaria é a home away from home: é uma grande responsabilidade. Nós queremos que as pessoas se sintam mesmo em casa, mas esse layer, muitas vezes, não está trabalhado. E fica sempre aquele espaço meio flat, meio pouco humanizado, pouco personalizado. E eu acho que isso é muito importante. Eu acho que isso diferencia muito o nosso trabalho.

Nos seus projetos sente-se uma assinatura muito clara. O que é que define essa linguagem Astolfi?

Sem dúvida. Mas era isso de que eu falava: a questão da linguagem, essa linguagem que, hoje em dia, eu adoro ver reconhecida. E vou até dizer uma coisa divertida: os meus amigos, que já me conhecem melhor, começaram a usar uma palavra para isso. Às vezes vamos almoçar a um restaurante, ou entramos num espaço qualquer, e um deles diz: “Este espaço está ok, mas o que precisava mesmo era de uma astolfada.”

Então “uma astolfada” passou a ser um adjetivo: essa transformação do espaço com características muito minhas. E é giro, porque às vezes as pessoas ligam-me e perguntam: “Foste tu que fizeste?” E eu digo: “Sim, fui.” “Vi logo.” E eu adoro isso, porque é exatamente o que eu quero deixar neste layer, nesta vida, quando eu for: quero deixar essa linguagem e que ela seja perpétua, que continue para sempre, que seja eterna.

Como dizia o Vinícius, que ela seja eterna enquanto dure, que fique, e que a minha equipa possa continuar. Enfim, gostava muito, gostava muito que isso continuasse e que não morresse comigo.

Taberna LX
Taberna LX Joana Astolfi

É possível manter a linguagem com qualquer orçamento?

Isso é um tema muito importante também. Eu já fiz grandes milagres com budgets muito apertados, mais no passado do que hoje em dia. Claro: o estúdio vai crescendo e os fees, os honorários, também vão crescendo, e é diferente. E, na verdade, nós temos vindo a trabalhar sempre para um nicho de mercado muito específico, como é óbvio.

Estamos a fazer, por exemplo, uma casa no complexo Costa Terra, em Melides. É uma casa em que estamos a trabalhar há três anos e estamos a desenhar tudo ao pormenor: até as portas são painéis de arte em madeira, desenhados por nós, e vão ser carved, com geometrias esculpidas; cada porta é quase uma obra de arte. Só para perceberem o nível de detalhe e o quanto o cliente gosta de explorar esse nosso lado da personalização das coisas, de ir ao fundo dos pormenores. É maravilhoso. O cliente abraçou mesmo isso e tem budget ilimitado para fazer o que nós quisermos, juntamente com ele, como é óbvio. É uma troca muito grande e isso dá-me muito prazer.

Alguns dos hotéis que fizemos também tiveram uma situação muito interessante ao nível do budget, como na Quinta da Vacaria, também é uma escala muito grande: é um hotel de quase 40 quartos, com dois restaurantes. Também houve um budget interessante ali.

Quando o budget aperta, há que usar a criatividade. Eu também, com budgets muito apertados, às vezes hoje em dia não faço o projeto, porque não consigo expressar. Não é pelos materiais; é pelas horas de trabalho da minha equipa, que hoje têm um rating

Depois há projetos que eu faço simplesmente porque eu quero. Na verdade, nunca é pelo dinheiro, na realidade; isso é uma consequência porque somos um pequeno-grande negócio. Mas eu faço porque me dá prazer, ou porque é uma coisa mais social, ou porque é uma coisa que vem do coração. Então eu faço because I want to, for passion, purely for passion.

Astolfi Palm Bags
Astolfi Palm Bags Joana Astolfi

Sem “favoritos”, que projetos mais a marcaram?

Uma colaboração com a Associação Passa ao Futuro, que promoveu um plant-based residency. Eram cinco designers a trabalhar com cinco artesãos, artesãos mais velhos e uma planta. Eu fiquei com a palma e trabalhei com a Sónia, uma senhora de 70 anos incrível. Estive em Loulé, em residência; saí do meu mundo, fui para lá, para o Algarve. Todos os dias, de manhã com ela, até ao final da tarde. E foi maravilhoso porque eu queria fazer coisas e ela dizia: “Não sei se isso vai ser possível, deixa-me experimentar. Eu nunca pensei — eu trabalho com isto desde que nasci — mas eu não sei se isso é possível.” E eu disse: “Bora experimentar.” Então fomos as duas a puxar, a levar mais ao limite. E foi muito interessante. Para ela, foi… ela até hoje me diz que houve ali uma mudança, um shift. E para mim também. E, no fim, o resultado são estas malas que nós criámos juntas: ela executou, eu criei.

A outra situação foi a minha colaboração com a Bordalo. Foi um convite que eu fiquei muito honrada por receber. Worldwide Bordalianos. Acho que fui a 15.ª designer a ser convidada. Carta verde para criar um objeto que não tem de ter função.

Eu pensei muito: o que é que eu vou fazer? Isto é um mundo, isto é o meu playground. E eu sei que adoro peões; sempre adorei peões. Eu gosto do objeto, mas o que é que o peão simboliza? O movimento, o rodopio, o playfulness, a parte divertida, a parte da criança que eu ainda tenho muito dentro de mim. Então eu sinto mesmo que o peão é um objeto que me simboliza. E eu disse: “Ok, vou fazer um peão.” Aliás, a Bordalo não tem um peão.

Então fiz, desenhei, eles fizeram um molde. Depois: habitar o peão com o universo bordaleano. Fui procurar o que é que eu tinha de usar: moldes de coisas que já existiam. O que é que pode funcionar com o peão? Que história é que eu vou contar neste movimento, nesta dança? Então fui às serpentes, fui buscar os moldes, fui metendo as serpentes a habitar o peão, quase como se a serpente substituísse a corda. Eu queria figuras, porque eu gosto sempre de ter alguma coisa humana nas peças e a escala. Então encontrei um paliteiro antigo que tinha um touro com um forcado em cima. E o forcado era a figura. Eles ficaram: “Ninguém nunca foi buscar isto.” E eu disse: “É isso, é isso.”

Os forcados estavam a enfrentar as serpentese é isso que gerava o movimento do pião, esta dança entre a serpente e o homem. As provas de autor foram incríveis. Foi muito bonito. O processo da fábrica é incrível. Adorei. E pronto, está aí o resultado: são 140 peças, edição limitada. Quando acabar, acabou. E, para mim, é um dos objetos mais bonitos que eu já criei.

Mas há outros projetos. A Quinta da Vacaria, como hotel, também me marcou muito. Foi um projeto muito umbilical. Criei uma relação de amizade muito profunda com o meu cliente também, com o Manel. Ele só me disse assim: “Joana, eu quero o hotel mais bonito do Douro. Faz o que quiseres, dá-me o hotel mais bonito do mundo.” E eu disse: “Ok, Manel, I will do it.”

Há um trabalho de terapia muito profundo que nós fazemos com o cliente. É muito interessante, é muito dinâmico; cansa muitas vezes também, mas vale a pena. É correr por paixão, na realidade. 

Rodopio, Bordallo Pinheiro
Rodopio, Bordallo Pinheiro Joana Astolfi

E, se não for já para começar com uma Casa Astolfi, que seja começar com uma Loja Astolfi: pequenininhos pedacinhos astolfianos, que dê para pôr no bolso ou levar para casa.

Falou da vontade de criar algo totalmente seu.

Toda a vida fiz projetos para outros. E são filhos, são partos. Eu adoro depois voltar lá: visitar, dormir quando é um hotel, comer quando é um restaurante. E começo logo a ver: “Isto aqui a gente podia ter feito diferente.” Isso é sempre normal.

Mas eu fiz sempre projetos para outros e tenho muita vontade de fazer um projeto para mim. Já há algum tempo que tenho vontade de criar a Casa Astolfi.

Se fosse em Lisboa, gostava que fosse um palacete, um pequeno palacetezinho. Se fosse fora de Lisboa, por exemplo em Maiorca, que é um sítio que eu adoro, gostava que fosse uma finca, uma casa grande em pedra; grande, quer dizer, com alguma escala.

E eu gostava que essa casa tivesse um pouco de todo o mundo à Astolfi. Portanto: dormir, 15, 20 quartos, comer, que tivesse um bistrô, que tivesse essa experiência de dining, com aquele tipo de ambiente que eu gosto de criar, que tem movida, que tem visual warmth. Que tivesse uma loja à Astolfi, porque agora estou cada vez mais a voltar aos objetos. Inclusive, fizemos há pouco tempo, agora no Natal, o nosso primeiro trial do quiosque Astolfi, em que eu voltei a produzir objetos e vou refazer o quiosque com outra versão, agora talvez com azulejos, vestido a azulejos, numa colaboração com a Viva Lamego na Lisbon Design Week. 

Portanto, estou desse lado dos objetos, pedaços da Astolfi que não sejam só projetos que muita gente nem tem budget para conseguir comprar. Às vezes as pessoas só querem ter um objeto, está ótimo. E eu adoro objetos; a minha grande paixão é objetos. Mais do que espaço, até. Eu adoro espaço, mas o projeto tem aquela escala. That’s really me.

Eu gostava de criar esta Casa Astolfi com esta linguagem minha, com este vibe meu, para que as pessoas pudessem realmente transitar entre relax, eating, sleeping, working, shopping, que pudesse haver workshops, ou alguns eventos, alguns talks, de temas que têm a ver com o meu mundo, com este mundo do playfulness, desta liberdade de criar espaços, de arriscar, de errar e conseguir dar a volta. 

Esse é o projeto que eu tenho mais vontade, neste momento, de concretizar. E, se não for já para começar com uma Casa Astolfi, que seja começar com uma Loja Astolfi: pequenininhos pedacinhos astolfianos, que dê para pôr no bolso ou levar para casa.

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