"Não é preciso paredes laranja. Mas a cor dá conforto e identidade à casa"

Duas arquitetas criaram em Lisboa uma escola para tirar o medo da cor aos profissionais e ajudar a mudar as casas portuguesas.

A escola é o lugar onde se aprende e cria. E aqui o objetivo não podia ser mais evidente, Luísa e Sissi juntaram-se e lançaram a Escola da Cor. O manifesto do projeto é claro: quebrar a uniformidade das tendências em projetos de design de interiores e na decoração dos espaços, valorizando a individualidade e a expressão através da cor, dentro de casa e fora dela. "Colorir para viver."

As mentoras são ambas arquitetas de formação base, mas com perfis distintos e complementares. Luísa Martínez é professora no ensino superior, investigadora com publicações científicas sobre a influência da cor no comportamento organizacional e do consumidor, e foi presidente da Associação Portuguesa da Cor entre 2022 e 2025. Sílvia Louro Santos, para quem a cor entrou na sua vida também como processo de cura, é arquiteta especializada em decoração, com certificação internacional em consultoria nesta área.

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A Escola da Cor tem um espaço físico em Lisboa, nos Olivais. Uma curiosa reconversão cromática de uma talho, para um espaço de formação especializada, um estúdio de consultoria e um ponto de encontro comunitário, com oficinas abertas a crianças e a idosos, onde os tons e matizes funcionam como ferramenta de expressão e de bem-estar.

Entre um hospital que use o potencial da cor e um museu dedicado a esta temática, todos os sonhos poderão ganhar forma, e até lá teremos um mundo muito mais colorido.

Escola da Cor
Escola da Cor

Começamos pela arquitetura. Há memórias de infância que já apontavam para este caminho?

Sissi: O meu pai, apesar de não ser arquiteto, era desenhador técnico, que era o que se usava na altura. Cresci numa casa inspirada em Frank Lloyd Wright, uma casa muito fora do comum, com uma sala redonda, uma casa de banho redonda toda revestida a vermelho, tetos muito modernos. Isso, sem dúvida, marcou a minha estética. O início da arquitetura foi convencional, mas o que eu gostava mesmo era dos interiores. Apesar de me ter formado em arquitetura, foi para os interiores e para as vivências que me virei. Aquela parte de como é que a casa abraça as pessoas e as impacta, de como torna as vivências mais fluídas, mais interessantes, de como se torna como uma segunda pele. Era o que mais me fascinava.

Luísa: No meu caso, não tive ninguém na família ligado à arquitetura, nem muito ao meio artístico. A minha família vem do lado do pai empreendedor, com negócios próprios, e do lado da mãe pela educação, no ensino primário. Andei sempre um bocadinho à procura do meu propósito e só decidi ir para arquitetura mesmo no fim do secundário. Curiosamente, antes disso, a primeira ideia foi dedicar-me à ilustração. Não sei bem de onde me veio. Depois surgiu a arquitetura de interiores, que na altura nem sabia bem o que implicava, mas gostava da ideia de trabalhar interiores. Foi por indicação do meu professor de geometria descritiva que acabei por optar por arquitetura, pela abrangência que o curso me dava: podia depois fazer interiores ou outra especificidade. Essa possibilidade agradou-me. E o lado de arte com técnica também, porque acho que funciona mesmo assim, um lado artístico combinado com um lado mais racional.

Quando começamos a falar da importância da cor, no espaço que habitamos ou na roupa que usamos, conhecemo-nos melhor. A simpatia ou antipatia por uma cor revela muito de nós e da nossa relação com outras dimensões da vida.

E a cor? Como entrou nas vossas vidas e como vos juntou?

Sissi: A minha ligação com a Luísa veio menos da arquitetura e mais da cor. Conhecemo-nos através da Associação Portuguesa da Cor e trabalhámos juntas na direção da associação. Percebemos que funcionávamos bem em conjunto, e a paixão pela cor e o propósito de colorir mais a vida das pessoas fez-nos juntar neste projeto da Escola da Cor.

Escola da Cor
Escola da Cor

Luísa: O meu interesse pela cor não está ligado especificamente à arquitetura ou à construção. Sempre fui muito sensível ao ambiente que me rodeia. Ao ambiente físico, não só à cor, mas ao facto de estar organizado ou não, ao cheiro, à luz. A dada altura senti que também era muito sensível às cores, na arquitetura mas igualmente na roupa, em se eram cores vividas ou não. Essa sensibilidade foi-se desenvolvendo ao longo do tempo, não por causa de uma obra ou de um arquiteto. Hoje é o propósito que me move, levar a cor à casa e à vida em geral. Foi por isso que eu e a Sissi nos juntámos. E sinto que esse conhecimento acaba por ser uma ferramenta de autoconhecimento. Quando começamos a falar da importância da cor, no espaço que habitamos ou na roupa que usamos, conhecemo-nos melhor. A simpatia ou antipatia por uma cor revela muito de nós e da nossa relação com outras dimensões da vida. As pessoas mais próximas chegam mesmo a agradecer-nos por essa tomada de consciência, e só isso já torna o trabalho muito gratificante.

Hoje olhamos para uma casa comum é igual à outra, todas muito neutras, sem transparecer a personalidade da família que ali mora. Mas acredito que estamos numa fase de mudança. As pessoas começam a querer que a sua casa não seja igual à da Maria, da Francisca ou da Joana, que tenha a sua cara, e começam a procurar profissionais mais à vontade com a cor para conseguir transmitir essa personalidade.

Porque é tão urgente colorir os espaços, e as pessoas que neles vivem?

Sissi: Senti na pele um desafio que a vida me trouxe e percebi o quanto a cor é impactante nas nossas emoções. Depois de estudar muito, e sabendo que o impacto positivo ou negativo das cores está cientificamente provado, percebi que era um propósito de vida ajudar a colorir através dos espaços, como arquiteta mas também de outras formas. E percebi uma coisa: mais importante do que colorir através dos meus projetos era criar uma comunidade. Formar outros designers de interiores e arquitetos para deixarem de ter medo da cor e usufruírem do potencial que ela dá aos espaços. Tem sido muito gratificante sentir essa comunidade de arquitetos a largar um bocadinho esses medos e a abraçar mais a cor.

A dada altura instalou-se a ideia de que o neutro é mais sofisticado. Como olham para isso?

Sissi: Criou-se a ideia de que os ambientes mais descoloridos, os chamados neutros, eram mais apetecíveis, por tendência e porque a cor começou a ter conotações de algo mais barato, de menos qualidade. Tudo o que era com menos cor ganhou um ar mais sofisticado, mais luxuoso. Até nas marcas de moda, o preto, os brancos, os cinzentos andavam todos associados a essa conotação mais elegante, mais rica. Isso tornou-se transversal a toda a gente. Hoje olhamos para uma casa comum é igual à outra, todas muito neutras, sem transparecer a personalidade da família que ali mora. Aflige-me profundamente. Mas acredito que estamos numa fase de mudança. As pessoas começam a querer que a sua casa não seja igual à da Maria, da Francisca ou da Joana, que tenha a sua cara, e começam a procurar profissionais mais à vontade com a cor para conseguir transmitir essa personalidade.

Dizem que as casas estão todas iguais. Porquê?

Sissi: Quando um construtor convencional termina uma casa, ela fica como uma coisa em branco, em todos os sentidos, porque ainda não sabe que família vai receber. Qualquer comum mortal consegue pegar numa bela lata de tinta branca, mas nem toda a gente consegue algo tão impactante como usar a cor. Por isso o profissional passa a ser ainda mais importante, para saber conjugar e dar personalidade. Só que os próprios cursos de arquitetura não dão essas bases, pelo menos na minha formação, e continuo a ouvir o mesmo de arquitetos recém-formados. O foco está muito na volumetria, na luz, na sombra, nos materiais. A cor vem no fim da linha, e nós queremos que comece a estar mais no início, para deixarmos de ter estas casas todas brancas. Até as madeiras se foram perdendo, as casas tornaram-se muito frias, e isso pesa emocionalmente na vida das pessoas. Precisamos de materiais naturais, do calor e da textura da madeira. Ninguém tem de ter uma parede cor de laranja ou um teto azul em casa, mas pode ter o conforto que a cor traz.

Para quem quer arriscar e fugir do branco, por onde se começa?

Luísa O processo é sempre muito individual. Cada um tem a sua forma de agir, e o que funciona para uns não funciona para outros. Mas a curiosidade conta, e o mais óbvio é começar a ler sobre o assunto. A simbologia da cor, a psicologia da cor, costumam despertar esse interesse. Depois, para experimentar e ver um efeito em casa, vale começar pelos quadros, pelos objetos de decoração, por almofadas mais coloridas, e reparar em como nos sentimos com essa transformação. É importante perceber até onde conseguimos ir. Eu gostar muito de um laranja forte não significa que consiga usá-lo, posso estar num momento da vida em que ainda não lido bem com isso. Há quem me diga: "há dez anos adorava vestir amarelo torrado ou laranja vivo, agora não consigo." Quando tentamos perceber porquê, a pessoa acaba por identificar acontecimentos do seu percurso que explicam essa reação à cor. O mesmo vale para a casa. Começa-se por uma almofada, por uma tela pequenina, e com o tempo a transformação vai acontecendo.

Nos cursos de arquitetura o foco está muito na volumetria, na luz, na sombra, nos materiais. A cor vem no fim da linha, e nós queremos que comece a estar mais no início, para deixarmos de ter estas casas todas brancas. As casas tornaram-se muito frias, e isso pesa emocionalmente na vida das pessoas.

Escola da Cor
Escola da Cor

Cada cor tem um efeito certo, ou depende de cada pessoa?

Luísa: As duas coisas são verdade. É possível generalizar e dizer que uma determinada tonalidade de azul nos traz calma e tranquiliza. Mas, para além dessa verdade geral, há sempre uma componente individual a ter em conta. Tem a ver com os nossos fatores biológicos, com a nossa história de vida, com o que nos marcou pelo caminho. Pode estar ligada à casa onde vivemos, aos ambientes da infância e às memórias que eles trazem, boas ou menos boas. Essa relação com a cor vai-nos acompanhando muitas vezes sem termos consciência, e é uma das coisas que faz com que, mais tarde, tenhamos empatia ou antipatia por determinadas cores.

Que projetos vos marcaram, enquanto Escola da Cor?

Sissi: Tivemos a sorte de já ter duas obras coloridas que toda a gente pode visitar, dois restaurantes. Na restauração e nos serviços é mais fácil usar cores mais vívidas. É um bom cartão de visita e uma forma de mostrar o nosso processo criativo. Serve-nos também nas formações, para explicar com um caso prático: fizemos assim, construímos assim, este é o nosso método. Quem faz formação connosco pode levar isso para si e adaptar à sua forma criativa de trabalhar. A parte da formação tem sido fundamental.

Escola da Cor
Escola da Cor

E o futuro? Um projeto que adorassem agarrar?

Sissi: Gostávamos muito de colorir um espaço de saúde. Como a cor impacta emocionalmente, e há provas disso, acreditamos que os espaços de saúde podiam beneficiar de uma paleta cromática que trouxesse esses benefícios emocionais.

Luísa: É um objetivo que partilhamos, por causa dessa componente terapêutica tão grande. Mas eu tenho um sonho maior, que é criarmos em Portugal um museu da cor. E acho que a Escola da Cor podia ser uma das entidades base para o criar.

A relação com a cor vai-nos acompanhando muitas vezes sem termos consciência, e é uma das coisas que faz com que, mais tarde, tenhamos empatia ou antipatia por determinadas cores.

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