O silêncio instala-se quase de forma inesperada. Num tempo marcado pela agitação permanente, pelo excesso de estímulos e pela urgência de não parar, entrar no Muzeu é entrar num lugar estranho ao nosso tempo, feito de pausa e respiração, um lugar que convida a parar e a pensar. A calma torna-se quase desconcertante, não conforta, mas desarma, num ritmo mais lento, denso e atento.
Foi no “Olimpo”, na sala inteiramente dedicada ao artista alemão Anselm Kiefer, que Helena Mendes Pereira, diretora e curadora do Muzeu, recebeu o idealista/news para uma conversa sobre o que inspirou a construção deste novo espaço, no coração de Braga. Um museu que não nasceu para ser só um museu e quer democratizar o acesso à arte, dos mais novos aos mais velhos, onde cabe pintura, escultura, mas também dança e música.
Da coleção privada de José Teixeira, presidente do dstgroup, nasceu este sonho agora tornado realidade: o Muzeu - Pensamento e Arte Contemporânea dst. O espaço ocupa o edifício que outrora albergou o antigo Tribunal da cidade, também conhecido como Palacete Vilhena Coutinho, e esteve quase licenciado para ser um hotel. Os planos mudaram e o responsável da construtora bracarense decidiu canalizar o investimento – que rondou os 40 milhões de euros – para a promoção do pensamento crítico, conhecimento, formação e cultura. Uma espécie de fórum aberto para a filosofia e para a arte, inaugurado no Dia da Liberdade, o 25 de abril.
Chegados ao Muzeu, e para até chegar ao “Olimpo”, foi preciso subir uma escada que liga os cinco pisos do edifício. O monolítico, desenhado pelo arquiteto José Carlos Araújo, representa a metáfora do infinito e mais além, num convite ao alcance do impossível. A semiótica da escada transporta-nos precisamente para o mote da exposição inaugural, “Sejamos realistas, exijamos o impossível”.
A frase tornou-se célebre nas ruas de Paris durante o Maio de 68 e carrega uma ideia muito importante, segundo Helena Mendes Pereira, a ideia de que “aquilo que parece impossível depende apenas do nosso poder coletivo”. “Era importante que esta primeira exposição recuperasse uma expressão de poder popular”, explica.
“As obras de arte tocam uma dimensão sublime, sem dúvida, mas constroem-se sobre uma base concreta: o trabalho das pessoas. Para mim, essa é a ideia central”, acrescenta a curadora. A ideia atravessa todo o Muzeu: um espaço onde a dureza estética do universo industrial convive com algo profundamente humano, íntimo e contemplativo. Quem o visita é convidado a desacelerar e a olhar para as obras, mas também para si próprio.
Pensado para servir a comunidade, oferece entrada gratuita todas as quintas-feiras, entre as 11h00 e as 23h00, num horário alargado que procura aproximar diferentes públicos da criação artística contemporânea. Mais do que um novo espaço cultural da cidade, o Muzeu quer afirmar-se como um lugar de pausa e pensamento crítico, um convite para entrar sem pressa e regressar vezes sem conta, porque “é preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já”, como escreveu José Saramago.
Existe uma dimensão simbólica muito forte em transformar um antigo tribunal num espaço de pensamento crítico e criação artística. O que significa hoje ocupar um lugar historicamente associado ao poder e à autoridade?
Quando falo deste edifício gosto sempre de recuar um pouco mais atrás, ao edifício original do século XVIII, projetado por Carlos Amarante, que era o Palacete dos Vilhena Coutinho. Esse palacete já tinha sido construído sobre memórias da cidade, nomeadamente sobre a muralha medieval — a mais relevante de Braga — e um poço medieval que vieram a ser descobertos. Mais tarde, o edifício transformou-se em tribunal e, no final dos anos 90, foi adquirido pelo grupo DST, sendo agora convertido em museu.
Um museu também é um lugar de exercício de poder. O poder pode assumir muitas formas e aquilo que queremos fazer aqui, exercendo o nosso poder, é transformá-lo num lugar de pensamento crítico. Um espaço que seja a voz pública daquilo em que acreditamos enquanto grupo: os valores fundamentais para uma sociedade mais democrática e mais livre.
Um museu também é um lugar de exercício de poder. O poder pode assumir muitas formas e aquilo que queremos fazer aqui, exercendo o nosso poder, é transformá-lo num lugar de pensamento crítico.
O que gostariam que as pessoas sentissem quando entram no Muzeu?
Há um texto logo na entrada que resume muito da visão do arquiteto e da nossa própria visão. Queremos que as pessoas sintam que tudo isto vem do chão de fábrica. Toda esta estética industrial que o arquiteto conseguiu transportar para o edifício serve para lembrar que este museu nasce do trabalho.
As obras de arte tocam uma dimensão sublime, sem dúvida, mas constroem-se sobre uma base concreta: o trabalho das pessoas. Para mim, essa é a ideia central. Que as pessoas sintam que estão num lugar com uma forte estética industrial, mas onde existe também qualquer coisa de profundamente humano e sublime.
A exposição inaugural chama-se “Sejamos realistas, exijamos o impossível”. Por que é que fez sentido começar por aqui? E o que é hoje “o impossível”?
Essa expressão, que se tornou célebre nas ruas de Paris durante o Maio de 68, e depois apropriada por Marcuse, carrega uma ideia muito importante: aquilo que parece impossível depende apenas do poder coletivo.
Era importante que esta primeira exposição recuperasse uma expressão de poder popular. Queríamos um título que viesse da rua, do Maio de 68 ou do 25 de Abril. A partir daí surgiu também a ligação à fotografia de Gérard-Aimé, que transformou esta frase num símbolo de uma geração que esteve na base da construção das democracias europeias modernas.
Hoje, acho que não existem impossibilidades. Não é impossível democratizar o acesso à arte e à cultura. E democratizar não significa apenas permitir que as pessoas contemplem as obras, mas também que as compreendam, dialoguem com elas e se sintam parte desse espaço.
Quando perceberam que o Muzeu não seria apenas um museu?
O Muzeu nunca nasceu para ser apenas um museu. Desde o início foi pensado como um espaço que ocupa um lugar na pólis, uma ágora de debate, discussão e pensamento crítico. Naturalmente, isso aproxima-se das novas reflexões da museologia contemporânea, que vê os museus também como lugares de ativismo social. Queríamos que este museu fosse a nossa voz pública, uma forma de ocupar espaço na cidade, criar influência e exercer poder pela positiva.
Queríamos que este museu fosse a nossa voz pública, uma forma de ocupar espaço na cidade, criar influência e exercer poder pela positiva.
Como se combate a ideia de que “a arte não é para mim”?
Os estudos mostram que as visitas a museus têm aumentado todos os anos, tanto em Portugal como internacionalmente. Ainda assim, sabemos que essa ideia persiste e, por isso, houve uma estratégia muito clara desde o início.
Começa logo pela forma como o museu funciona: abrimos mais tarde e fechamos mais tarde, temos um dia gratuito e uma noite semanal até às 23h00 – que é a quinta-feira. O Muzeu foi pensado para servir a comunidade e não apenas turistas ou públicos específicos e isso é estruturante na forma como tudo isto acontece.
Depois, ele não é pensado como um museu morto que tem uma exposição, mas como um museu que está em constante ebulição. Há toda uma programação paralela muito forte — música, dança, debates, atividades para famílias — que permite trazer pessoas que talvez não viessem inicialmente por causa da arte contemporânea. A ideia é dizer: a arte contemporânea pode não ser aquilo que te cativa à partida, mas há outros motivos para vires.
A isso junta-se todo o trabalho de mediação cultural, visitas guiadas e programas educativos que ajudam a aproximar os públicos das obras e das propostas dos artistas.
Depois, ele não é pensado como um museu morto que tem uma exposição, mas como um museu que está em constante ebulição.
Construir um museu desta dimensão em Braga também pode ser visto como um gesto contra a centralização cultural em Lisboa e no Porto?
Um projeto destes só podia acontecer em Braga. Há aqui uma ideia muito importante de devolver à comunidade aquilo que ela nos deu.
Além disso, a questão entre centro e periferia depende muito do ponto de vista. Braga tem uma forte ligação à Galiza, ao Norte de Espanha e ao interior do país. É uma cidade com enorme dinamismo industrial, uma universidade muito forte e uma enorme vitalidade.
Naturalmente, este projeto também afirma Braga enquanto centro cultural e sabemos que traz valor para a cidade, para a região e para a euro-região. Mas isso surge como consequência de um percurso que já vinha a ser construído.
Vivemos num tempo marcado pelas redes sociais, pela velocidade e pelo consumo instantâneo. Este museu parece propor exatamente o contrário: pausa, contemplação e pensamento. Isso também é um gesto político?
Acho que esse é talvez o verdadeiro ato político deste projeto. Vivemos numa cidade e numa região muito dinâmicas, marcadas pelo trabalho e pela rapidez. E, de repente, existe um espaço que convida precisamente ao contrário: parar, pensar, contemplar. Um espaço para vir sem tempo, ou para regressar e voltar a ver aquilo que ainda não foi visto, como dizia Saramago.
Isso é profundamente disruptivo nos dias de hoje. É quase um gesto “anti-like” nos dias que correm. Há uma frase de Carlos Drummond de Andrade de que gosto muito, sobre “o negócio da contemplação da nuvem”. A ideia de parar simplesmente para observar. O Muzeu também quer ser isso: um lugar no centro da cidade que convida ao silêncio, ao deslumbramento e à contemplação. E isso, hoje, é profundamente vanguardista.
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