Muito tem mudado no mercado dos vinhos, sobretudo, desde o início do milénio. As novas gerações estão a beber diferente, procurando experiências únicas e sensações ímpares. “É por isso que, hoje, o enoturismo é considerado uma ferramenta absolutamente essencial no mercado do vinho [do Porto]”, assinala Jorge Dias, diretor-geral da Granvinhos, grupo que nasce da marca histórica Porto Cruz (1887). Em conversa com o idealista/news, Jorge Dias assume que, hoje, “a hotelaria e a restauração são experiências importantíssimas” neste mercado e ainda que “faz parte da missão recuperar património”. Levando o vinho do Porto no coração, o grupo já reabilitou vários edifícios no Norte transformando-os em três unidades hoteleiras. E tem novos projetos de enoturismo no Funchal e em Viana do Castelo.
Foram as mudanças sentidas no consumo de vinho do Porto – cujo negócio caiu 33% desde o ano 2000 - que levaram o grupo Granvinhos a reinventar-se. “O que estamos a fazer, com estas experiências que combinam enoturismo, restauração e hotelaria, é ir ao encontro das expectativas dos nossos consumidores”, explica o líder do grupo Granvinhos, que integra hoje várias empresas e marcas históricas de vinhos, sendo detido pela gigante francesa La Martiniquaise.
Ao nível da hotelaria, o grupo já detém três unidades: a Gran Cruz House (Porto), a Quinta de Ventozelo (Douro) e a recém-inaugurada Gran Cruz Apartments (em Vila Nova de Gaia). Todos estes edifícios turísticos foram comprados e reabilitados pela Granvinhos, que leva “muito a sério” a noção integeracional do negócio, não só nos vinhos, mas também ao nível do património. “Entendemos que era essencial fazer parte da nossa missão também a recuperar esse património e devolvê-lo à sociedade, para poder ser utilizado”, explica Jorge Dias.
O investimento imobiliário – focado na reabilitação – não vai ficar por aqui. O diretor-geral do grupo Granvinhos revela ao idealista/news que está a recuperar cinco edifícios históricos no centro do Funchal por cerca de 3.500.000 euros para criar um espaço de interseção e interpretação do vinho da Madeira. Além disso, “reabilitámos o edifício da Quinta de São Salvador da Torre, em Viana do Castelo, onde produzimos vinho verde. E, neste momento, estamos a estudar fazer um programa base e o anteprojeto para a possibilidade de virmos também a investir no enoturismo no Minho”, avança ainda o responsável pelo antigo grupo Gran Cruz que, há três anos, se reorganizou e mudou de nome para grupo Granvinhos.
O grupo Granvinhos tem construído um legado na hospitalidade há mais de 10 anos na zona do Porto. Por que motivo decidiram dar este passo?
O mercado dos vinhos tem evoluído muito nos últimos anos. Desde o início do milénio, o mercado tem vindo a exigir mais experiências dos produtores. É por isso que, hoje, o enoturismo é considerado uma ferramenta absolutamente essencial no mercado do vinho. A nossa primeira experiência foi precisamente com a abertura do espaço Porto Cruz, um espaço de receção e de interpretação do vinho do Porto e da própria marca Porto Cruz, com experiências à volta da gastronomia, dos cocktails, das novas formas de consumo, mas também das artes.
Depois, considerámos que tínhamos de aprofundar a nossa oferta. Embora não sejamos um grupo hoteleiro, achamos que a hotelaria e a restauração são experiências importantíssimas para os nossos consumidores. E, por isso, é que abrimos na Praça da Ribeira [no Porto], a Gran Cruz House, um boutique hotel com um restaurante de ‘fine dining’. Mais tarde, alargámos esta experiência ao Douro, à Quinta de Ventozelo, onde abrimos um hotel (com 29 quartos) também com a restauração e um centro interpretativo. E, finalmente, tínhamos estes dois edifícios e quisemos também alargar aqui a nossa oferta a este lado do Douro, a Vila Nova de Gaia, [com a Gran Cruz Apartments] e aproveitar também para recuperar e reanimar esta segunda linha, porque nenhuma cidade pode viver só com primeiras linhas, sendo preciso também que haja uma perfusão da recuperação do património para ruas mais recuadas.
"O segredo neste negócio é conseguirmos tocar indelevelmente quem nos visita"
Qual é o balanço que fazem da vossa aposta na hotelaria?
As 'reviews' que temos tido por parte dos clientes são ótimas. O segredo neste negócio é conseguirmos tocar indelevelmente quem nos visita. E se o conseguimos fazer, ganhamos um amigo e ganhamos um cliente fiel às marcas.
Que experiências diferenciadoras é que o grupo Granvinhos está a dar aos turistas? Como é que unem enoturismo, arte e tradição?
A expressão máxima que temos desta ligação é na Quinta de Ventozelo, onde temos uma Associação dos Amigos da Quinta da Ventozelo e desenvolvemos nos últimos anos um programa de artes e ideias.
Criámos um programa focam em ideias, porque considerámos que era necessário debater o Douro, que é a denominação de origem regulamentada mais antiga do mundo, mas é uma região que tem crises cíclicas. Hoje, estamos a atravessar uma dessas crises e, portanto, aquilo que fizemos nesse programa foi precisamente convidar os melhores de Portugal e alguns internacionais para nos ajudarem a debater e a pensar o Douro. E esse programa está agora a estender-se às principais fundações que apoiam a produção do conhecimento em Portugal (Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Francisco Manuel dos Santos, a SEDES e a Fundação La Caixa).
Nas artes, fizemos seis exposições alternando artistas consagrados com jovens artistas ‘under 40’ e, portanto, apoiámos exposições que começam em Ventozelo (no Douro) e depois são transferidas para o espaço Porto Cruz, em Gaia. E esta ligação da Porto Cruz às artes vem um pouco em linha com a campanha que a Porto Cruz fez em 2002, que a levou a ser a número um das marcas de vinho do Porto a nível mundial: a campanha da "Mulher de negro" (‘femme en noir’) com a assinatura “País onde o negro é cor”. Esta foi a maior campanha de Portugal no mercado francês, porque esta mulher de negro - que representava a Porto Cruz - contracenava com os azulejos do Palácio Marquês de Fronteira, com as cores quentes do Algarve e do Alentejo, com os moliceiros de Aveiro… contrastava com todas as cores de Portugal.
Também temos relação com a moda. Quando abrimos o espaço Porto Cruz, desafiámos três estilistas portugueses a reinterpretar o que era esta mulher de negro do século XXI – já que a campanha começou em 1985, há 41 anos, tendo sido relançada este ano. Desta vez, a campanha não tem uma mulher misteriosa que vemos em muitos cartazes e no átrio da Gran Cruz Apartments (da autoria de Tamara Alves, uma street artist de Lisboa), mas sim uma embaixatriz da marca, a Íris, que é a face desta nova campanha “Mulher de negro”, que simboliza a Porto Cruz.
Hoje, têm três hotéis na zona do Porto (Gran Cruz House, Ventozelo Hotel & Quinta e Gran Cruz Apartments). Fale-nos da recuperação dos edifícios e elementos que os distinguem.
O negócio do vinho é um negócio intergeracional - e no vinho do Porto, muito mais do que na generalidade dos vinhos. No vinho do Porto, estamos hoje a aproveitar muito aquilo que os nossos antecessores nos deixaram. E a nossa responsabilidade é produzir hoje os vinhos que daqui a 20, 30, 40 ou 50 anos hão-de perpetuar as nossas marcas no mercado.
Esta noção intergeracional levamos muito a sério, não só nos vinhos, mas também no próprio património. E consideramos que é também de responsabilidade social das empresas recuperar o património que têm, porque, ao fim ao cabo, andamos aqui muito pouco tempo. A Quinta de Ventozelo comprada em 2014 tem 520 anos, foi fundada em 1500 pelo abade do mosteiro de São Pedro das Águias, sendo património com espessura histórica. No nosso caso, adquirimos quase todos estes patrimónios e entendemos que era essencial fazer parte da nossa missão também a recuperar esse património e devolvê-lo à sociedade, para poder ser utilizado.
Qual foi o investimento associado à compra ou reabilitação dos edifícios que, hoje, estão ligados à hospitalidade?
Na Gran Cruz Apartments, investimos quase 1,8 milhões de euros na reabilitação destes seis apartamentos. A Quinta de Ventozelo foi um investimento de 10 milhões de euros na reabilitação do hotel, fora a aquisição da quinta.
Que experiências de luxo oferecem na Quinta de Ventozelo?
A Quinta da Ventozelo é um lugar mágico, é um lugar onde o tempo abranda, onde ainda se pode ouvir o silêncio e ver as estrelas. Abrimos a quinta uma semana antes da pandemia e fechámos uma semana depois. E quando reabrirmos, passado um mês e meio, percebemos que as pessoas estavam à procura deste espaço e do tempo que a quinta lhes podia proporcionar. Na altura do distanciamento social, fizemos uma campanha com o slogan: “Aqui cada cliente tem direito a dez hectares”.
A Quinta de Ventozelo, que tem 400 hectares, oferece várias atividades ligadas à natureza e ao mundo rural: passeios pedestres (temos sete trilhos com mais de 14 quilómetros), as vinhas, o património construído, as galerias ripícolas junto ao Douro ou à ribeira de Ervedosa. Há um programa de observação de espécies na quinta, onde temos cerca de 250 espécies de flora – muitas delas em vias de extinção – e ainda cerca de 120 espécies da fauna do Douro.
Há também um centro interpretativo que permite às pessoas perceberem esta espessura histórica da quinta com 500 anos, bem como a história do próprio Douro. Depois, temos o ‘core’ que são as provas de vinhos, as harmonizações, a gastronomia. No restaurante da quinta privilegiamos produtos locais, não só aqueles que produzimos nas nossas hortas, mas também a caça, os peixes do rio…. No fundo, os produtos que eram a base da alimentação no Douro, pois também queremos ser pedagógicos. Temos tido um belíssimo ‘feedback’, porque percebemos que é isso que as pessoas procuram. O novo luxo acaba por ser a simplicidade da própria experiência.
Quais são as vossas fontes de inspiração na decoração dos interiores das unidades hoteleiras? E como se sente a presença do vinho do Porto?
Na quinta, por exemplo, tentámos recriar um bocadinho o uso de cada espaço. Temos a Casa dos Cardanhos (onde antigamente os trabalhadores temporários ficavam a pernoitar), a Casa do Feitor (o responsável por orientar os trabalhos na quinta), os Balões (que são dois antigos depósitos de vinho). Ou seja, tentámos trazer sempre algo do que era o uso desse edifício para a própria decoração. Na maior parte dos quartos, tentamos fazer sempre algo diferente, para não ter um padrão para todos, seja em Ventozelo seja na Gran Cruz House, seja aqui nos apartamentos. A decoração destes espaços foi levada a cabo pela equipa nby, de Guimarães, que nos ajudou a definir os próprios conceitos. No Douro, onde não é luxo, quisemos ser um pouco puristas. O ambiente das quintas do Douro era um bocadinho até frugal e, portanto, tentámos manter essa frugalidade na decoração. Aqui, nos Gran Cruz Apartaments, pretendemos dar mais conforto num ambiente urbano, que se insere na zona histórica de Vila Nova de Gaia. Os protagonistas dos espaços são as marcas e as paisagens. Não queremos que a decoração seja o protagonista dos nossos espaços.
"O novo luxo acaba por ser a simplicidade da própria experiência"
Em que gama de preços está o alojamento de luxo que oferecem?
Na Gran Cruz Apartaments, os preços deverão rondar os 200-350 euros por noite. Na quinta, os preços por noite podem começar nos 200 e chegar aos 450 euros. Não entramos na loucura de preços que se andam a praticar nalgumas unidades hoteleiras, que achamos que são completamente irrealistas.
Qual é o perfil dos turistas que vos procura (nacionalidades, casais/famílias, eventos…)? O que mais valorizam?
Temos perfis de procura muito distintos. Enquanto na Gran Cruz House 55% dos nossos clientes são casais norte-americanos, em Ventozelo o nosso principal mercado é claramente o português, embora em segundo estejam também os norte-americanos. Isto está muito ligado à crise do Covid, porque na altura os jovens casais refugiaram-se no campo e em Ventozelo e, agora, alguns deles já levam os filhos, os pais e amigos. Uma das coisas que me enche de orgulho é, de facto, encontrarmos muitas repetições nos nossos clientes, não só a nível nacional, mas também internacional.
"Com estas experiências que combinam enoturismo, restauração e hotelaria, estamos a ir ao encontro das expectativas dos nossos consumidores"
Que impacto é que a Granvinhos quer deixar no turismo e economia do Porto?
O nosso peso na oferta é praticamente irrelevante. Aquilo que mais nos preocupa é deixar uma marca, sobretudo nos nossos clientes, e associar as nossas marcas e ao bem-estar, a uma boa experiência. Hoje, tudo se joga nas experiências, na restauração, na hotelaria, nos vinhos… Há dias li um artigo da Wine Enthusiast que dizia: “A geração Z não está a beber menos, está a beber diferente. Portanto, senhores da indústria do vinho adaptem-se, vejam o que é que esta nova geração está a beber se querem manter os vossos níveis de vendas”. É isso que estamos a fazer: com estas experiências que combinam enoturismo, restauração, hotelaria estamos a ir ao encontro das expectativas dos nossos consumidores. Ou seja, temos de nos preocupar com uma renovação e rejuvenescimento dos nossos consumidores. Aquilo que hoje que é comumente aceite como, de facto, as novas tendências de consumo é a mixologia e os cocktails. E é nisso que estamos a apostar com várias marcas, principalmente na Porto Cruz e Dalva.
A reabilitação de imóveis antigos em hotéis é tendência em Portugal? Porquê? Ainda há espaço para haver reabilitação na Invicta?
Acho que sim. Espero que seja tendência e não só para hotelaria, mas também para habitação própria e permanente. Porque este é o nosso património, a nossa memória. E uma das coisas que tentamos fazer sempre, quando conseguimos, é evocar sempre a memória do lugar. Foi o que fizemos no espaço Porto Cruz, onde, ao entrar, as pessoas podem perceber o que era aquele edifício e para que servia. Em Ventozelo, o próprio uso de cada um dos edifícios acaba por ser a memória do lugar.
Estamos neste momento a replicar – obviamente com as devidas adaptações – no Funchal, nas Justino’s Madeira Wine, um espaço também de interseção e interpretação do vinho da Madeira e das marcas do vinho que temos na Madeira. Estamos a recuperar cinco edifícios históricos no centro do Funchal, onde há lá uns dois ou três espaços que são a memória do lugar e do que eram aqueles edifícios.
"No Funchal, o investimento é de 3.500.000 euros, fora a aquisição"
Qual será o conceito que vai nascer da reabilitação desses edifícios no Funchal? Também para hotelaria?
É muito no conceito do espaço Porto Cruz, onde vamos ter uma loja, um restaurante, também no mesmo conceito criado pelo chef Miguel Castro Silva, que está connosco desde o início nesta nossa aventura pela hotelaria e restauração. No fundo, oferecemos às pessoas uma comida descontraída e com base portuguesa para partilhar. No Funchal, este conceito será adaptado à gastronomia madeirense.
Além do restaurante, haverá também um centro de interpretação do vinho da Madeira, salas de provas profissionais e salas de provas com frasqueiras, onde os turistas podem provar de uma forma mais descontraída. Tal como no espaço Porto Cruz, vamos ter um rooftop para novas experiências, destinado a um consumo mais descontraído e ambientes de festa. Não teremos hotelaria, pelo menos, para já.
O grupo Granvinhos tem o objetivo de abrir mais unidades hoteleiras em breve e a partir de reabilitações?
Estamos num processo que está mesmo no início. Reabilitámos o edifício da Quinta de São Salvador da Torre, em Viana do Castelo, onde produzimos vinho verde. E, agora, estamos a estudar fazer um programa base e o anteprojeto para a possibilidade de virmos também a investir no enoturismo no Minho. Enquanto no Douro temos um discurso, gastronomia e ecossistema mediterrânico, o Minho abre-nos a porta para um discurso e gastronomia mais atlântica. Há novos consumidores que procuram, hoje, esta nova tendência dos vinhos mais frescos e mais leves, que o Minho nos traz.
Quais são os investimentos associados às reabilitações no Funchal e em Viana do Castelo?
No Funchal, o investimento é de 3.500.000 euros, fora a aquisição. Portanto, só aquilo que são as obras e os conteúdos associados. E no Minho é, para já, extemporâneo, porque ainda estamos na fase de anteprojeto, na fase de estudo.
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1 Comentários:
Bardzo dobry pomysł ,połączenie biznesu z ratowaniem historycznych budowli a zarazem pokazanie młodemu pokoleniu jak piękne są zabytki i związana z nimi historia .Pozdrawiam Andrzej Witczak
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