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Os esquemas de Isabel dos Santos para construir uma fortuna de milhões - e os portugueses que ajudaram

Os dados foram revelados depois de uma longa investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ).

Isabel dos Santos e o marido, Sindika Dokolo / Gtres
Isabel dos Santos e o marido, Sindika Dokolo / Gtres
Autor: Redação

Mais de 715 mil ficheiros agora divulgados mostram como a mulher mais rica de África, Isabel dos Santos, acumulou uma fortuna estimada em mais de dois mil milhões de euros. O esquema financeiro montado pela empresária – e que envolve vários cúmplices portugueses – foi descoberto numa longa investigação levada a cabo por 34 órgãos de comunicação social pertencentes ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ). Tudo começa depois da filha do ex-Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, e da russa Tatiana Kukanova, ter sido nomeada para presidente da Sonangol.

O Consórcio Internacional - que integra vários órgãos de comunicação social, entre os quais o Expresso e a SIC - analisou, ao longo de vários meses, 356 gigabytes de dados relativos aos negócios de Isabel dos Santos entre 1980 e 2018, e que ajudam a reconstruir o caminho que levou a filha do ex-presidente angolano a tornar-se a mulher mais rica de África. Durante a investigação, denominada de “Luanda Leaks”, foram identificadas mais de 400 empresas (e respetivas subsidiárias) a que Isabel dos Santos esteve ligada nas últimas três décadas, incluindo 155 sociedades portuguesas e 99 angolanas.

Os dados divulgados mostram, por exemplo, um esquema de ocultação montado pela empresária na petrolífera estatal angolana Sonangol, que lhe permitiu desviar mais de 100 milhões de dólares (90 milhões de euros) para o Dubai entre maio e novembro de 2017 – o último terço do mandato de Isabel dos Santos frente à petrolífera.

As transferências, revela o jornal Expresso, foram justificadas como pagamento de serviços de consultoria prestados à Sonangol, e tiveram como destino uma conta bancária de uma companhia offshore, a Matter Business Solutions, controlada pelo principal advogado de Isabel dos Santos, o português Jorge Brito Pereira, sócio da Uría Menéndez, o escritório de Proença de Carvalho.

Vários nomes portugueses estarão envolvidos nos esquemas financeiros da angolana, nomeadamente o de Paula Oliveira, sócia principal da SDO, uma empresa de consultoria em Portugal e Angola criada em 2016; Mário Leite da Silva, gestor de negócios de Isabel dos Santos e diretor da Fidequity, empresa de gestão com sede na avenida da Liberdade; Jorge Brito Pereira, o advogado pessoal da empresária (como já referido acima); e Sarju Raikundalia, administrador financeiro da Sonangol.

O “desvio” para o Dubai

O dinheiro “aterrou” no Dubai já depois de empresária angolana ter sido demitida da presidência da Sonangol, a 15 de novembro – segundo o jornal, 57.831.213,54 dólares terão sido pagos em três transferências executadas a 16 de novembro de 2017. O montante terá sido tranferido a partir de uma conta da Sonangol em Lisboa no Eurobic (banco de que a empresária é a maior acionista). Todas as transferências, uma de 38,1 milhões, outra 15,3 milhões e mais uma de 4,35 milhões de dólares, foram assinadas por Isabel dos Santos e por Sarju Raikundalia.

Segundo a investigação revelada pelo Expresso as ordens de transferência tiveram como base um contrato de 10 de novembro em nome da Sonangol UK e foram suportadas por um conjunto de 63 faturas, enviadas ao gestor de conta do Eurobic (atualmente presidido pelo ex-ministro das Finanças, Teixeira dos Santos).

Isabel dos Santos fala em “racismo” e “preconceito”

A empresária angolana já veio reagir no twitter à investigação, utilizando a rede social para se defender. “A minha fortuna nasceu com meu caráter, minha inteligência, educação, capacidade de trabalho, perseverança. Hoje com tristeza continuo a ver o ‘racismo’ e ‘preconceito’ da SIC e Expresso, fazendo recordar a era ‘colônias’ em que nenhum africano pode valer o mesmo que um ‘Europeu'”, refere Isabel dos Santos.

“Os leaks são documentos autênticos? Quem sabe? Ninguém… estranho mesmo é ver a PGR de Angola a dar entrevistas a SIC – Expresso. #ataque político. Procurador Geral de Angola a dar entrevistas… a canais portugueses!”, escreve ainda na rede social.