A Ponte 25 de Abril celebrou, no dia 6 de agosto, 60 anos a ligar Lisboa e Almada e continua a ser a travessia mais utilizada sobre o Tejo na capital, com cerca de 150 mil veículos e 174 comboios por dia. Para assegurar a fiabilidade desta infraestrutura, que serve mais de 100 milhões de utilizadores por ano, a Infraestruturas de Portugal investe, em média, 1,6 milhões de euros anuais em inspeção, monitorização e manutenção.
“Um dia histórico: inaugurou-se a Ponte”, noticiava em agosto de 1966 o Diário Popular, indicando que “a inauguração da grande ponte sobre o Tejo atraiu milhares e milhares de pessoas a todos os pontos altos de Lisboa e de Almada, desejosas de assistirem a esse momento histórico”.
Construída em pleno regime do Estado Novo, a primeira ponte sobre o Tejo em Lisboa foi inaugurada com o nome de Ponte Salazar, embora, segundo o livro “A Ponte Inevitável”, de Luís F. Rodrigues, o ditador não querer dar o seu nome à infraestrutura, tendo cedido à pressão “do ministro das Obras Públicas, engenheiro Arantes e Oliveira, corroborado pelo Presidente da República, Américo Thomaz”.
Com início de construção em novembro de 1962, a obra ficou concluída em menos de quatros anos, seis meses antes do prazo previsto, com um custo final de 4,49 milhões de contos, cerca de 22,39 milhões de euros.
A semelhança com a ponte Golden Gate, em São Francisco, não é uma coincidência já que ambas foram construídas pela empresa norte-americana American Bridge Company, mas, apesar de as duas serem pontes suspensas por cabos de aço em torres metálicas de cor alaranjada, a infraestrutura portuguesa tem já dois tabuleiros, tendo sido preparada para receber tráfego de comboios, o que só viria a acontecer cerca de três décadas após a inauguração.
Considerada “a maior obra pública” realizada até à data em Portugal, a construção envolveu cerca de 3.000 trabalhadores diariamente, 14 empresas de construção civil, das quais 11 portuguesas, e dezenas de milhares de toneladas de aço, fazendo desta infraestrutura uma referência internacional da engenharia.
A ponte destaca-se por ter um vão principal com mais de um quilómetro, uma distância entre amarrações que ultrapassa os dois quilómetros e torres principais que se elevam a 196 metros acima do nível da água, com o pilar sul a atingir cerca de 80 metros de profundidade abaixo do nível do rio.
Apesar das vantagens que trouxe à mobilidade entre as duas margens do Tejo, a sua construção não ficou livre de críticas devido ao impacto social em milhares de moradores do Vale de Alcântara que foram desalojados para a instalação dos acessos e pilares.
À época, o arquiteto Nuno Teotónio Pereira criticou o regime de Salazar pelas condições desumanas em que levou a cabo o processo de desocupação dos bairros de barracas, comuns em Lisboa nessa altura, bem como os realojamentos que denunciou terem sido apressadamente executados e mal planeados, provocando situações dramáticas.
No folheto clandestino sobre a transferência de populações do Vale de Alcântara para a Musgueira, o arquiteto apontou que, quando se começou a aproximar a data de inauguração, as operações de desalojamento assumiram a finalidade confessa de “limpar” paisagisticamente a envolvente da ponte.
Ao longo dos 60 anos da existência da ponte, o tráfego rodoviário foi aumentando, ano após ano, permanecendo 2005 como o ano recorde, com a circulação de mais de 57 milhões de viaturas, com uma média diária de 156 mil veículos, o que é justificado com a forte expansão demográfica e imobiliária da Península de Setúbal, como Almada, Seixal e Barreiro.
Os anos de pandemia da covid-19, nomeadamente 2020 e 2021, foram os que registaram menor tráfego rodoviário na Ponte 25 de Abril, com uma média diária de 115 mil e 124 mil, respetivamente, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) entre 1998 e 2024.
Em março de 1998 é inaugurada a segunda ponte sobre o Tejo na capital, a Ponte Vasco da Gama, ligando o município de Alcochete a Lisboa e Sacavém, no entanto a 25 de Abril continua a ser a mais movimentada, com mais do dobro do tráfego.
Atualmente, de acordo com a Infraestruturas de Portugal (IP), a ponte é utilizada diariamente por cerca de 150 mil veículos e 174 comboios, servindo, nas suas valências rodoviária e ferroviária, mais de 100 milhões de utilizadores por ano.
Desde a inauguração em 1966, foram aplicadas tarifas aos condutores para atravessar a ponte, inicialmente 10 escudos para um veículo de classe 1, tendo-se verificado sucessivos aumentos até aos atuais 2,25 euros, sendo que entre 1996 e 2010 não se pagou portagens no mês de agosto.
Esta medida surge na sequência do famoso “buzinão” em 1994 contra o aumento de 50% do valor das portagens, bem como do acordo de concessão com a Lusoponte, que explora a infraestrutura rodoviária desde janeiro de 1996.
Ainda este ano, houve um “buzinão” de protesto contra o aumento de 2,29% das portagens, organizado pela associação de utentes da ponte, que reivindicam o fim do pagamento.
Manutenção da ponte custa em média cerca de 1,6 milhões por ano
A manutenção e inspeção da Ponte 25 de Abril, custa em média cerca de 1,6 milhões de euros por ano à Infraestruturas de Portugal (IP), que assegura os “mais elevados padrões de segurança”.
A Ponte 25 de Abril, que liga Lisboa a Almada, “é objeto de inspeção e manutenção permanentes”, garantiu a IP, em resposta à agência Lusa, detalhando que existe “uma equipa interna exclusivamente dedicada” a estas funções.
“Estas atividades representam um investimento médio anual de cerca de 1,6 milhões de euros, abrangendo inspeções, manutenção, materiais consumíveis e equipamentos, bem como estudos, projetos e serviços de consultoria”, adiantou a empresa pública gestora das redes rodoviárias e ferroviárias.
Para a sua manutenção, a IP conta ainda com o apoio de entidades especializadas, como o ISQ – Instituto de Soldadura e Qualidade e o LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil, responsável pela monitorização estrutural da ponte, “incluindo o acompanhamento do comportamento global da estrutura, a monitorização geodésica e a implementação de planos de instrumentação, entre outros trabalhos especializados destinados a verificar o comportamento da infraestrutura em exploração face aos critérios adotados na sua conceção”.
Também o projetista original da ponte, a empresa norte-americana Parsons, continua a acompanhar o comportamento da estrutura e as principais intervenções nela realizadas, em articulação com a IP, apontou a entidade.
A mais recente empreitada de reabilitação e reforço estrutural foi concluída em março de 2024 e, atualmente, estão em desenvolvimento estudos para o projeto de pintura geral da ponte, para “assegurar a preservação e a durabilidade desta infraestrutura”, revelou a IP.
Em setembro de 2025, o eleito do Chega em Lisboa Bruno Mascarenhas afirmou, numa reunião da Assembleia Municipal, que a ponte “está num estado preocupante em termos da sua sustentação”.
Questionada pela Lusa, a IP garantiu que as atividades de inspeção, monitorização e manutenção realizadas “asseguram que a Ponte 25 de Abril continua a responder aos mais elevados padrões de segurança, fiabilidade e desempenho, preservando uma infraestrutura emblemática que, todos os dias, garante a travessia do rio Tejo a centenas de milhares de pessoas”.
Além desta infraestrutura, em 1998 foi inaugurada uma segunda ponte sobre o Tejo em Lisboa, a Ponte Vasco da Gama, estando atualmente prevista a construção de uma nova travessia rodoferroviária entre Chelas e Barreiro e uma ligação rodoviária entre Algés e Trafaria.
Relativamente à Terceira Travessia do Tejo, a IP disse que se encontra “a desenvolver, por incumbência do Governo, os estudos técnicos, económicos e ambientais necessários à concretização do projeto da nova travessia rodoferroviária”, prevendo-se a submissão do Estudo de Impacte Ambiental (EIA) à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) durante o terceiro trimestre deste ano, ou seja, até setembro.
Segundo a IP, a ligação rodoviária entre Algés e Trafaria é identificada como “projeto prioritário” pelo atual Governo, estimando-se que o concurso do Estudo Prévio e Estudo de Impacte Ambiental seja lançado até final do ano.
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