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Gestores trocam salários milionários por "comuna espiritual" no Alentejo em busca da felicidade

Photo by Louis Hansel on Unsplash
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Autor: Redação

Borja García Perona ganhava 120.000 euros ao ano como chefe de gabinete do diretor geral da Endesa no Chile, aos 32 anos. Tinha um motorista 24 horas por dia, várias regalias, mas decidiu mudar radicalmente de vida em troca de alguma tranquilidade. Agora, com 41 anos, vive numa “comuna espiritual” algures no Alentejo e diz estar “infinitamente mais feliz" do que nunca.

"Uma loucura? Louco seria voltar à minha vida anterior", diz Namdev – agora é este o seu nome - em entrevista ao El Confidencial. O homem abandonou a sua carreira profissional do dia para a noite e, em 2015, mudou-se para o Monte Sahaja, no Alentejo. Trata-se de uma comunidade espiritual, o “ashram”, com milhares de seguidores em todo o mundo.

Explica o jornal online espanhol que o movimento gira em torno de Mooji Baba, um guru jamaicano com rastas e barba de sábio oriental que, depois de peregrinar por meio mundo, decidiu instalar-se nesta região de Portugal em 2011 com um conjunto de fiéis. Oito anos depois, o terreno tem lagos com peixes de várias cores, palmeiras e eucaliptos, flores de lótus e plantas aromáticas.

“Quando eu estava na Endesa, eu encontrava-me todas as semanas com pessoas que ganham muito dinheiro”, conta Namdev. “Olhava para eles e via muita tristeza. Eram pessoas que estavam num avião todos os dias, com problemas de estômago ou ansiedade e com inteligência emocional mínima. Não me lembro de ninguém estar feliz. Passavam os dias a esforçar-se, zangados... e eu perguntava-me todos os dias se havia a possibilidade de converter-me na única pessoa feliz daquele lugar”, explica.

Na Endesa, Borja entrava às 7h30 e saía às 22h30. Certo é que agora, enquanto Namdev, chega a fazer 15 horas diárias, mas tudo é diferente. “A diferença é que o que faço aqui não me pesa. As coisas surgem espontaneamente, não são planeadas e eu não as considero um fardo ou uma obrigação. Não existe um mecanismo puramente racional que se organize a cada minuto do meu dia”, explica.

"O enorme preço psicológico do sucesso" e o "sentimento de insatisfação constante"

Borja é apenas um dos vários altos executivos internacionais que encontrou neste sítio do Alentejo o seu novo poiso de paz. 

Shree, Suzanne Montenegro na sua vida anterior, conta uma história semelhante. Foi uma das primeiras a chegar ao Monte e é agora a diretora geral da organização. Programadora, crescida no seio de uma família rica em Manhattan, olha para trás sem ressentimento.

“Gostei muito da minha vida de sucesso, de viajar pelo mundo em negócios, de cruzeiros, do desafio do meu trabalho, dos meus carros, da minha linda casa. Não regeno nada disso, nem acho que o dinheiro é uma coisa má. O que eu acho é que não é um ingrediente necessário para ser feliz ”, refere.

Shree considera que um dos problemas do estilo de vida que tinha em Nova Iorque era "o enorme preço psicológico" que era preciso pagar para mantê-lo. “Agora eu também faço coisas o dia todo. Eu gosto de trabalhar muito, mas aqui a vida é muito simples e as coisas são feitas pelo prazer de fazê-las", conclui.

E Chetan dá um testemunho ao jornal espanhol na mesma linha. Tinha uma carreira fulgurante desde muito novo e um nu no estômago permanente. Com 26 anos, e quando ainda se chamava Yared Hsellassie, foi promovido a sócio de uma gestora de fundos de investimento em Washington DC. (EUA) e no último ano que ali viveu ganhou 250 mil dólares.  

Conta que a sua vida girava nesse momento à volta do trabalho, do status social e do dinheiro. “Tinha um sentimento de insatisfação constante (...)", destacando que quando tomou a decisão de mudar-se sentiu-se "imensamente aliviado".

De Pulitzer ao yoga e meditação

O Monte Sahaja atrai muitas pessoas que procuram redirecionar as suas vidas após um processo de combustão pessoal e profissional. Chegam até ali de visita ou para participar em reuniões espirituais. Foi o caso da jornalista Mar Cabra, ex-funcionária do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) e uma das coordenadoras dos Panama Papers. Mar Cabra decidiu que seria a hora de parar em 2015 e, passados dois anos, em 2017, pôs fim a um processo que ela descreve como “emocionalmente doloroso”, já depois de ter recebido o prémio Pulitzer.

“Lembro-me de estar no topo da minha carreira profissional. Fui à televisão, viajei de um lado para o outro no mundo a dar palestras, colecionar prémios ... Toda a gente me deu os parabéns no Twitter. Mas então cheguei a casa e não tinha nada no frigorífico, ninguém para conversar. Senti-me muito sozinha (...) e sempre que ouvia ‘Pulitzer' eu sentia mais arrependimento do que felicidade. ”

Mar deixou o ICIJ e parou de procurar outro emprego. Agora vive perto de Almeria, num apartamento à beira-mar, a 50 minutos do “ashram” Soul Garden, localizado no deserto de Tabernas e que é dirigido por um guru alemão (Andreas Windisch). Costuma ir lá para meditar e participar em retiros, embora não tenha dado o passo de mudar-se definitivamente.

No “ashram” ela conseguiu encontrar a peça que faltava. “Sinto-me muito bem, calma e agora desfruto do silêncio no meu dia a dia (...)  Lá encontrei o meu verdadeiro eu”, diz ao El Confidencial.

Como é a vida neste lugar?

A comunidade – com um site dedicado ao projeto-  tem uma população estável de cerca de 200 pessoas (de 53 países diferentes) e capacidade para receber o triplo quando organizam retiros ou encontros.

Come-se três vezes ao dia, em silêncio, num recinto com janelas abertas para a natureza onde é servido um buffet preparado pela equipa de cozinha. Os pratos são lavados por outros elementos, que procuram economizar toda a água. O funcionamento da “comuna” é relativamente simples: há grupos de trabalho em que cada membro tem um papel bem definido. Em quatro anos, Namdev, por exemplo, já esteve na equipa de eletricistas e de construção, e agora é financeiro.

“O Monte Sahaja não é um ashram tradicional. Para algumas pessoas é como um mosteiro; para outros é um centro de retiro, local de peregrinação ou templo, mas nenhuma palavra define realmente o que é o Monte Sahaja. Não se encaixa em nenhuma classificação. A palavra 'Sahaja' significa o estado natural do ser. O Monte Sahaja é um lugar sagrado (...) lugar raro neste mundo, pois é inteiramente dedicado à realização completa do Eu”, lê-se no site de apresentação do projeto.

Embora existam torneiras para beber e lavar, espalhadas pelas colinas, as latrinas do Monte Sahaja não têm água. A maioria dos habitantes também dorme em tendas, mas também existem vários dormitórios partilhados, cabanas individuais e outros edifícios comunitários e de trabalho, incluindo uma serraria e uma carpintaria, sauna, dois cafés, uma biblioteca, uma estátua Buda, uma capela cristã e um templo hindu (de Shiva), além de um centro de reuniões onde são cantados mantras, é feito ioga ou  meditação em grupo.

A comunidade é financiada graças às contribuições dos próprios habitantes, às reuniões espirituais, doações e venda de merchandising. Uma das equipas mais importantes é precisamente a de Comunicação, onde os ensinamentos do "professor" são editados, transcritos e traduzidos para vários idiomas. Um grupo de participantes é responsável por gravar as suas palavras em qualquer contexto e convertê-las em vídeos, CDs, livros ou conteúdo para as páginas web do movimento espiritual. O guru vive dentro da comunidade, numa pequena casa de madeira.