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Quando formos idosos, onde e como vamos viver? Conceitos inovadores em Portugal e lá fora

O mercado tem falta de respostas, mas há vários conceitos inovadores a serem testados e alguns já demonstraram ser um sucesso, em Portugal e no estrangeiro.

Photo by BBH Singapore on Unsplash
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Autor: Redação

Desde que saímos do "ninho", passamos a vida à procura da casa ideal, para cada fase da vida. Mas e para quando formos idosos o que se pode procurar? Onde e como vamos viver? A pandemia veio tornar ainda mais evidente que a oferta no mercado, a nível de equipamentos disponíveis, e as respostas sociais, são desajustados para as necessidades dos mais velhos, que cada vez são mais, vivem mais e de forma diferente. 

Mesmo com a pandemia, a esperança média de vida em Portugal deverá continuar a aumentar. Em 2018, era de 80,9 anos (78 para os homens e 83,5 para as mulheres). Em 2050, de acordo com o cenário central do INE, a esperança média de vida dos homens poderá atingir os 83,8 anos e a das mulheres 89,5 anos. O INE estima também que, em 2030, o Índice de Envelhecimento em Portugal será de 228 pessoas com ou mais de 65 anos por cada 100 jovens com menos de 15 anos.

A demógrafa Maria João Valente Rosa, citada pelo Jornal de Negócios, destaca que, além de viverem mais e com mais saúde, os idosos tendem cada vez mais a ser "pessoas escolarizadas, qualificadas e mais próximas das novas tecnologias". Por outro lado, acrescenta, no futuro, estas pessoas de cabelos brancos "vão contar com descendências menos numerosas" e, muito provavelmente, "os filhos e os netos não vão viver perto delas. Até podem estar a viver noutra parte do mundo". Só isso "já é uma mudança muito significativa que nos obriga a olhar para o futuro e a encontrar respostas", conclui.

"Envelhecemos todos de maneiras diferentes", diz por outro lado ao diário João Gorjão Clara, médico especialista em geriatria. "A ideia de que os idosos são todos doentes, dementes e dependentes é falsa."

A grande questão que se coloca é: que alternativa tem um idoso senão ficar na sua própria casa - onde viveu até então e sem estar devidamente preparada para esta etapa -, ir para casa dos filhos (se é que os tem), frequentar um centro de dia ou ser institucionalizado num lar? Se as respostas já não servem agora, como será daqui a 10 anos? Há vários conceitos inovadores a ser testados e alguns já demonstraram ser um sucesso, em Portugal e no estrangeiro, tal como conta o Jornal de Negócios.

Aldeias seniores

Nas Casinhas Autónomas do Pinhal, vivem 19 idosos. Esta é uma aldeia sénior com 10 casas pré-fabricadas. Em cada uma delas mora um casal ou duas pessoas do mesmo sexo. Construída num terreno da Associação Os Pioneiros, em Mourisca do Vouga (Águeda), a aldeia está rodeada por espaços verdes.

Neste aldeamento, os utentes são livres e têm sempre alguém com quem conversar. Fazem a sua vida de forma autónoma, mas contam com o apoio dos serviços e do pessoal da  Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), que fica mesmo ao lado. "Entre as 8h e as 20h, há sempre algum funcionário da IPSS a dar-lhes apoio. Leva-lhes as refeições, faz-lhes a cama. E têm médico na instituição até às 12h. É um ‘resort’!", diz entre risos José Carlos Arede, presidente da associação, citado pelo Negócios.

Este conceito, a que José Carlos Arede chama "pré-lar" ou "casinhas autónomas assistidas", ainda não é considerado como uma resposta social em Portugal. Por isso, ao contrário das outras valências da instituição, não é comparticipado pela Segurança Social. Como ainda não existe uma figura jurídica para este modelo, explica o jornal que a instituição teve de arrendar as casas aos idosos, que em média pagam uma renda de 486 euros por mês (o valor varia entre 137 e 850 euros, de acordo com os rendimentos de cada um).

Cada casa custou 40 mil euros. Mas o investimento valeu a pena, garante. O modelo é "barato e sustentável, porque não são necessárias equipas 24 horas por dia", que é o que encarece a operação nos lares. Mas, avisa, para ter sucesso, "tem de ser acoplado a uma instituição", de forma a aproveitar sinergias. Para este projeto a associação contratou quatro pessoas e José Carlos Arede afirma que há muitas IPSS interessadas em replicar o modelo.

Cohousing ganha força na Europa

Este é outro conceito que tem dado provas de sucesso lá fora e na prática resume-se a quando um grupo se junta para fazer um projeto de habitação em conjunto. "Existe sempre uma casa individual, autónoma e pequena, que é o espaço íntimo de cada família ou pessoa. E depois há uma casa comum, que tem lavandaria, uma cozinha coletiva e uma sala de refeições, para se fazer pelo menos uma refeição por semana em conjunto. Esse é o compromisso mínimo do ‘cohousing’", tal como explica ao jornal Nuno Cardoso, presidente e fundador da associação Hac.Ora Portugal, que está a trazer o conceito para o país.

O conceito implica a partilha dos custos e da gestão da casa. As pessoas podem decorar o seu espaço íntimo como quiserem, ter animais de estimação e, se houver um espaço exterior, até fazem uma horta.

Ainda não existe nenhum exemplo em Portugal de "cohousing", mas já há interessados à procura de terrenos para se constituírem como cooperativa, a forma jurídica encontrada para este modelo de habitação. Nuno Cardoso, ex-presidente da Câmara Municipal do Porto, defende que o conceito, válido tanto para a cidade como para ambientes rurais, deve ser intergeracional. No fundo, trata-se de trocar o espírito individualista por "um espírito mais ancestral, das antigas aldeias, onde as pessoas conviviam e cooperavam das mais diversas formas", porque, "é isso que dá qualidade de vida e que traz felicidade". 

A Suécia é um dos países onde o "cohousing" já se encontra implantado e onde estão a surgir outros modelos. Em Helsingborg, pequena cidade portuária no Sul do país, está a ser lançado um projeto-piloto de habitação social que tem por objetivo combater a solidão nos idosos e promover a inclusão. Chama-se SällBo e foi inaugurado em novembro de 2019. Trata-se de uma antiga casa de repouso que foi transformada em 51 apartamentos, divididos por quatro pisos.

Pouco mais de metade dos residentes têm acima de 70 anos, os restantes têm idades entre os 18 e os 25 anos, e entre eles estão dez jovens que receberam recentemente uma autorização de residência no país. O acordo para morarem naquele edifício é terem de passar pelo menos duas horas por semana a socializar com os vizinhos. Também aqui há espaços comuns, com jogos e um piano. O projeto é administrado por uma empresa de habitação sem fins lucrativos, financiada pela autarquia. Cada morador paga uma renda mensal entre os 450 e os 570 euros.

A experiência mostrou que a interação entre idosos e jovens está a resultar. Há pontos de interesse comuns e partilha de conhecimentos. Os jovens ensinam os mais velhos nas novas tecnologias. Existe um grupo de jardinagem e um clube de cinema, há ginásio, sala de ioga e biblioteca. O conceito está a ser replicado no país.