Comprar casa com dinheiro por debaixo da mesa? Fiscalização falha

Foram registadas quase 2.500 operações de compra de imóveis em dinheiro acima do limite legal, movimentando 42 milhões de euros.
Compra de casas com dinheiro
Freepik

O número de casos de compra e venda de imóveis com pagamentos por debaixo da mesa tem vindo a multiplicar-se. Desde 2017 foram mobilizados 42 milhões de euros em dinheiro vivo acima dos limites legais previstos (3.000 euros). A falta de fiscalização nestas operações ajuda a explicar estes negócios imobiliários fora da lei. Mas não só.

Ao longo dos anos, a legislação tem sido apertada para controlar mais a compra e venda de casas no país, sendo necessário detalhar o valor e meio de pagamento às autoridades competentes. Além disso, a lei proíbe pagamentos em dinheiro vivo acima dos 3.000 euros desde 2017 para residentes no país (valor permitido sobe para 10 mil euros no caso dos cidadãos estrangeiros). E obriga ainda os profissionais do setor a reportar casos suspeitos.

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Mas será que a atual legislação é suficiente para evitar o pagamento de imóveis em dinheiro acima dos limites estabelecidos? Ao que tudo indica, não. O Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção (IMPIC) revelou ao Expresso que nos últimos seis anos foram contabilizadas quase 2.500 operações de compra e venda de imóveis em dinheiro acima de 3 mil euros, tendo movimentado cerca de 42 milhões euros em numerário acima dos limites legais.

Há várias formas de lavar dinheiro na compra e venda de casas, o que reclama maior fiscalização nas transações, explica Jorge Batista da Silva, bastonário da Ordem dos Notários, ao mesmo jornal:

  • Valor patrimonial tributário (VPT) dos imóveis baixo ajuda a fraudes: no caso de uma pessoa vender um imóvel acima do VPT, mas só declarar este valor e receber o restante em numerário;
  • Identificar meio de pagamento como cheque, mas não há fiscalização se o cheque foi mesmo depositado, podendo dar lugar ao pagamento em dinheiro;
  • Pagamento do imóvel a prestações não verificado pelas autoridades, podendo levar a casos de evasão fiscal ou branqueamento.

Como evitar pagamentos ilícitos de imóveis?

Fiscalização na compra e venda de imóveis
Foto de Alena Darmel no Pexels

Para garantir maior fiscalização nas transações imobiliárias e evitar pagamentos por debaixo da mesa, o IMPIC criou uma equipa específica que vai passar a pente fino os negócios e espera-se que haja resultados ainda este ano.

Já o Bastonário da Ordem dos Notários admite ao mesmo jornal que se tem de fazer mais nesta matéria, nomeadamente:

  • Criar um sistema de controlo digital eficiente (transações já têm comunicação eletrónica);
  • Alinhar a política fiscal com a da habitação;
  • Apostar mais no combate à corrupção;
  • Aproximar o VPT dos imóveis aos valores de mercado, como diz a lei.

Com o sistema de controlo digital seria possível ver, por exemplo, se no mesmo prédio houve um apartamento vendido por 100 mil euros e outro pelo dobro do valor e investigar o porquê da diferença. Na visão de Jorge Batista da Silva, este cruzamento de dados ajudaria a encontrar pagamentos de imóveis por debaixo da mesa. 

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