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O refúgio da Guerra Civil espanhola escondido debaixo de um colégio centenário de Madrid

Autores: @davidmarrero, @Jone, Luis Manzano

“As paredes do colégio começaram a encher-se de fissuras e humidade, algumas moviam-se apenas com um simples toque. Os bombeiros vieram várias vezes para sustentar as instalações e não sabíamos porque é que isto acontecia”. Rocío Núñez, antiga diretora do colégio CEIP San Isidoro, agora reformada, recorda como o que se supunha ser uma celebração especial, o centenário do espaço, se transformou num pesadelo.

“Os técnicos do município decidiram que era preciso mandar abaixo todo o interior do colégio e voltar a construi-lo de novo”, recorda Núñez aliviada, frisando que temia que a escola pública, localizada no centro de Madrid, não chegasse a celebrar 100 anos.  

O que ninguém pensou é que pudesse acontecer o que sucedeu posteriormente. “Ainda me lembro do dia em que o arquiteto do município nos informou que havia um túnel: ‘Não imaginas o que encontrámos aqui em baixo’. Nenhum professor, nem os mais antigos, sabia da sua existência, isto apesar do antigo porteiro comentar que havia uma espécie de túnel. Mas mesmo assim nunca passou pela cabeça de alguém que houvesse essa rede de galerias”, confessa.

Para Rocío Núñez, que em 2001 era diretora pedagógica, descer pela primeira vez a escadaria que de repente apareceu foi emotivo: “Estava tudo escuro, só se respirava a humidade e o cheiro da terra molhada. Pensar que aqui houve gente que foi vítima dos bombardeamentos da Guerra Civil foi surpreendente. O que eles viveram aqui quando estavam refugiados... não me saem as palavras”.

Durante a Guerra Civil, o colégio deixou de ter atividade docente, tendo servido de refúgio para quem morava na zona. Depois da guerra, decidiu-se tapar a zona das galerias subterrâneas com areia e voltou a haver aulas no colégio. O refúgio ficou esquecido durante mais de 60 anos. “Esta terra, com o passar do tempo e com a humidade, esteve na origem dos graves problemas estruturais do colégio”, afirma Octavia Tara, atual diretora do CEIP San Isidoro.

Após uma profunda reabilitação entre 2001 e 2002, professores e alunos puderam regressar ao edifício para celebrar o centenário da escola, em 2003. Os técnicos controlam agora o edifício para que a situação não se volte a repetir. “Em 2008 voltou a detetar-se humidades e terminou-se de esvaziar o túnel, que ficou como está agora, totalmente limpo e acessível”, refere Octavia Tara, salientando que alguns alunos – os mais velhos – podem agora visitar o túnel.

O CEIP San Isidoro foi mandado construir pela Rainha María Cristina para celebrar a maioridade do seu filho e o início do reinado de Alfonso XIII. Foi inaugurado em 1903 e foi projetado pelo arquiteto Enrique María Repullés y Vargas.

Com as alterações do regime político, o colégio passou a chamar-se Montesinos, tendo sido alvo de uma primeira reabilitação por parte de Bernardo Giner de los Ríos, em 1933. Posteriormente teve outro nome, “la Escuela del Congreso”, e depois da Guerra Civil (entre 1936 e 1939), período durante o qual não houve aulas, passou a chamar-se San Isidoro.