O antigo “bairro fantasma” de El Quiñón, a sul de Madrid, Espanha, renasceu e conta hoje com cerca de 4.000 habitações construídas e serviços essenciais, deixando para trás o estigma deixado pela "bolha imobiliária". Localizado a menos de uma hora de carro do centro da capital do país vizinho, esta zona residencial do município de Seseña tornou-se um exemplo paradigmático do boom imobiliário – e também da sua recuperação, ao contribuir para o aumento da oferta de casas para viver na região, num momento de crise no acesso à habitação, semelhante ao que enfrenta Portugal.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), Seseña tinha 30.907 habitantes em 2025, mais 40% do que há uma década. Este crescimento explica-se pela proximidade a Madrid e pelos elevados preços das casas na capital, mas também pelo aumento do teletrabalho e pela chegada de novos residentes. Ainda assim, há um fator que se destaca acima de todos: o conhecido macrocomplexo projetado por ‘El Pocero’.
O que aconteceu em El Quiñón, Seseña?
Tudo começou nos primórdios da "bolha imobiliária", quando Francisco Hernando Contreras, empresário do setor da construção civil em Espanha mais conhecido como "Paco El Pocero", lançou a construção de um novo bairro em Seseña, afastado do centro da cidade.
O projeto inicial previa cerca de 13.000 habitações em terrenos que não tinham os serviços públicos e infraestruturas essenciais para o dia a dia dos moradores. Ainda assim, este residencial, que o próprio empresário baptizou com o seu nome, avançou apesar do forte rejeição da opinião pública da altura.
Com a zona cheia de gruas, rebentou a famosa bolha imobiliária, deixando casas inacabadas, um mar de dívidas e, pior ainda, proprietários que tinham comprado uma casa num local que passou a ser conhecido, de forma coloquial, como “aldeia fantasma”.
Com a Espanha mergulhada na crise, os poucos vizinhos de El Quiñón enfrentavam a falta de infraestruturas e serviços. Além disso, a opção de vender a habitação e mudar-se para outro local evaporou-se com os anos, pois o excesso de oferta e a pouca procura afetaram diretamente o valor dos imóveis. Na altura, era possível encontrar apartamentos de três quartos e quase 100 metros quadrados (m2) por menos de 80.000 euros – algo que hoje seria praticamente impossível.
Como está atualmente El Quiñón?
Mais de duas décadas depois, este bairro conseguiu dar uma volta de 180 graus. A localidade já conta com todos os serviços essenciais, novas casas estão a ser construídas e praticamente todos os apartamentos de El Quiñón já foram vendidos. No entanto, há um dado importante: apenas um terço das 13.000 habitações inicialmente previstas foi construído, pouco mais de 4.000 imóveis, segundo confirmou o presidente da câmara de Seseña, Jaime de Hita García.
A equipa do idealista/news deslocou-se a Seseña para conhecer de perto a situação real do município e perceber a evolução de um bairro que parecia abandonado e que hoje tem lista de espera para arrendar uma casa.
De acordo com os dados do idealista, o preço da habitação à venda em Seseña atingiu o seu máximo histórico em janeiro passado: 1.574 euros por m2 (euros/m2), superando um valor que não se via desde maio de 2008 (1.548 euros/m2). O mercado de arrendamento segue a mesma tendência, com preços inéditos de 10,6 euros/m2.
Jaime de Hita García, que está no cargo há pouco mais de dois anos, destacou que o seu objetivo é que as pessoas “escolham” viver em Seseña pela localização e pelos serviços, e não por serem obrigadas a mudar-se para a periferia de Madrid devido aos preços elevados.
O presidente da câmara defende, ainda, um crescimento sustentável, com o plano de aumentar a oferta residencial em 200 unidades por ano, de forma a gerar um aumento controlado e evitar repetir os erros do passado.
Parte deste crescimento residencial está a ser conduzido pelo Grupo Egido, através do projeto "Novaseña", que prevê 800 habitações unifamiliares (30% já entregues) de tipologias variadas, com preços de mercado a partir de 250.000 euros.
David Castro, um dos responsáveis da promotora, afirma que, após sete das 25 fases concluídas, “houve uma mudança. Aqui já há vida e vivem famílias. Isso fez com que Seseña volte a estar na conversa de todos”. O promotor nota, ainda, que existe uma alteração no perfil dos clientes: “Temos muitas famílias com filhos a começar a sua trajetória, mas demograficamente a sociedade está a mudar e estamos a ver mais famílias monoparentais. Por isso, temos três tipologias, para responder às necessidades do mercado”.
Crescimento industrial
Um dos grandes focos de Seseña é apostar no crescimento industrial, com o objetivo de atrair investimento que crie empregos e, ao mesmo tempo, aproximar os habitantes do município, seja para viver ou para teletrabalhar.
No que diz respeito ao setor residencial, Jaime de Hita García destacou algo que considera fundamental: a “confiança”. “Estamos num momento espetacular para investir, tanto em habitação como em crescimento económico, especialmente em espaços comerciais. Lidl, Ahorramas e Consum vão abrir aqui algumas das suas lojas”, sublinhou.
Um problema em Seseña: a falta de ligação ferroviária
Quando se fala de Seseña, costuma-se dizer que está a uma hora de carro de Madrid. Isso deve-se à falta de ligação ferroviária, embora existam linhas interurbanas de autocarro. Perante esta situação, o presidente da câmara lamenta que, apesar de haver uma paragem de Cercanías, o comboio não pare no município. “Em 2007 mudaram-se os modelos dos comboios. Na altura havia menos habitantes e menos procura, e acho que houve um curto prazo político por não se investir nessa infraestrutura. Na minha opinião, foi um erro”.
O presidente recorda que a ligação ferroviária é da responsabilidade do Ministério dos Transportes e garante que já enviaram os pedidos necessários. Além disso, afirmou que vão construir um grande parque de estacionamento nos arredores da paragem e criar uma linha de autocarro que a ligue ao centro do município, já que esta se encontra afastada da cidade.
Nessa linha, David Castro lamenta que o município não tenha paragem ferroviária, embora espere que esta necessidade seja resolvida em breve. No entanto, sublinha a proximidade de Madrid: “Estamos a apenas meia hora da capital, há autocarros, e estamos muito perto de outros municípios que têm Cercanías, como Valdemoro ou Ciempozuelos. A comunicação é uma situação existente, mas a verdade é que encontrar uma oferta residencial como a de Seseña, a meia hora de Madrid, é muito difícil”.
Que futuro se prevê para Seseña?
O alcalde garantiu que ainda este ano vai ser entregue em El Quiñón uma nova promoção de casas, já totalmente vendida, e que será iniciada a construção de outra. Além disso, informou que há mais duas em processo de licenciamento, que espera que sejam formalizadas ao longo de 2026.
Jaime de Hita García antevê um futuro próspero para o município, destacando o investimento industrial e a chegada de novos residentes que trabalham em Madrid.
David Castro, por sua vez, sublinha a importância de oferecer habitação de qualidade a preços acessíveis, perto da capital, pelo que antevê um cenário favorável para os seus projetos residenciais. Tal como destacam os protagonistas, o que antes era o “povo fantasma” de ‘El Pocero’ ganhou nova vida devido à escassez de habitação. E, embora o presidente admita que “ainda há muito por fazer”, El Quiñón já se consolidou como um importante bairro residencial na periferia de Madrid.
Acompanha toda a informação imobiliária e os relatórios de dados mais atuais nas nossas newsletters diária e semanal. Também podes acompanhar o mercado imobiliário de luxo com a nossa newsletter mensal de luxo.
Segue o idealista/news no canal de Whatsapp
Whatsapp idealista/news Portugal
Para poder comentar deves entrar na tua conta