Há quem desenhe para a eternidade e quem projete para o impacto imediato. É neste segundo universo que encontramos Maria Tiago, arquiteta da Feeders, uma empresa de arquitetura efémera. Longe dos edifícios e das obras que marcam as cidades, Maria e a equipa da Feeders dominam em absoluto as marcas dos seus clientes e as suas linguagens para as traduzirem no espaço, em cenários e experiências, eventos e espaços.
Com formação em arquitetura e uma paixão que começou nas artes e na música, Maria encontrou na Feeders o terreno fértil para cruzar todas as suas referências. O que mais a fascina não é o betão armado nem as estruturas monumentais, mas sim o desafio de projetar espaços que se montam, se transformam e desaparecem, mas que "criam memórias".
Aqui, cada detalhe — seja uma luz, uma estrutura, um material inesperado — é pensado para gerar impacto, para amplificar a voz do cliente, em festivais, stands, pontos de venda, showrooms e escritórios pensados ao milímetro para comunicar valores, conceitos e emoções.
Na verdade, Maria Tiago confessa que nunca sonhou com grandes edifícios, igrejas ou metros. O seu sonho passa por criar cenários como os dos desfiles da Dior na Paris Fashion Week, onde a arquitetura temporária se eleva ao nível da arte e da experiência sensorial total.
Sempre quis ser arquiteta?
O meu percurso começou muito ligado à arte. No décimo ano, escolhi artes porque acreditava – e ainda acredito – que é isso que faz o mundo mexer: a música, o espetáculo, a expressão criativa. Sempre fui movida por essa dimensão sensível. E dentro das artes, comecei a perceber que o espaço, os ambientes, as experiências criadas através deles, me fascinavam. Lembro-me de um exercício em que tínhamos de intervir num espaço e pensar como criar algo ali. Foi aí que comecei a perceber: isto é arquitetura. E depois houve um momento-chave na faculdade: no terceiro ano, tive um professor que me fez apaixonar outra vez pelo curso, ao propor um abrigo para seis pessoas – uma proposta que me fez mergulhar na relação entre o corpo humano e o espaço.
Mesmo que os nossos espaços desapareçam fisicamente, eles ficam na memória das pessoas. E é isso que tentamos fazer na Feeders: criar espaços que impactam.
Como surgiu o interesse pela arquitetura efémera?
Curiosamente, embora tenha começado fascinada pela ideia da casa e da habitação, acabei por seguir um caminho onde a casa quase não existe. A arquitetura efémera entrou na minha vida quando surgiu a possibilidade de cruzar arquitetura com música. E aí tudo fez sentido. Um exemplo que me marcou muito foi uma experiência em Amesterdão: havia a ideia de que “memórias também são souvenirs”. Isso ressoou imenso comigo. Mesmo que os nossos espaços desapareçam fisicamente, eles ficam na memória das pessoas. E é isso que tentamos fazer na Feeders: criar espaços que impactam. Queremos que quem entra num festival, num stand ou numa loja, sinta algo que leve consigo.
Mas na prática, o que é que a Feeders constrói?
A Feeders deixou de fazer casas – fizemos no início – e hoje o nosso foco é construir espaços para marcas. Trabalhamos entre três pilares: major events (como a Volvo Ocean Race), onde desenhamos percursos, palcos, sanitários, entradas e saídas; stands (em festivais como o Alive ou o Rock in Rio, ou em feiras para diferentes marcas); e retalho e escritórios (lojas e espaços de trabalho que também têm, curiosamente, um carácter efémero, porque as marcas estão em constante reinvenção). A nossa arquitetura vive do agora – aquilo que comunica bem hoje pode mudar amanhã, e isso obriga-nos a estar sempre a redesenhar.
A marca é, portanto, o centro de cada projeto?
Sim. Tudo começa por ouvir o cliente e perceber o que aquela marca precisa de comunicar naquele momento. Mas na maioria dos casos, nem é só com o cliente direto que lidamos – são também as agências de comunicação que representam essas marcas, e que dominam o seu universo visual, verbal e emocional. A nossa missão é traduzir isso em espaço. Trabalhamos a fundo o "brand book", os códigos visuais, as impressões finais… tudo tem de ter coerência com a identidade da marca. A diferença para um atelier convencional é essa: não criamos apenas “ambientes bonitos”, mas experiências que causem impacto direto na perceção da marca.
A nossa arquitetura vive do agora – aquilo que comunica bem hoje pode mudar amanhã, e isso obriga-nos a estar sempre a redesenhar.
E como é isso na prática? Pode dar um exemplo?
Claro. Por exemplo, numa loja que desenhámos, propusemos um manequim com vídeo mapping, onde era possível projetar uma camisola, uma luva ou um emblema. Quando alguém entrava, a luz cobria-lhe o corpo com a identidade visual da marca. Quem via de fora percebia imediatamente: aquela pessoa está imersa na marca. É isto o que nos move – criar impacto, "brand awareness", experiências que sejam memoráveis, mesmo que sejam temporárias. Porque é isso que as marcas procuram: espaços que sejam um acontecimento.
Como tem sido, enquanto mulher, fazer este caminho numa área ainda dominada por homens?
Acho que as mulheres ainda enfrentam um caminho mais difícil na arquitetura, mas estamos a avançar, e diria até que a passos largos. Ainda há desigualdade na visibilidade e no reconhecimento, mas vejo cada vez mais mulheres incríveis à frente de projetos, de marcas, de equipas. No nosso caso, além da parte criativa, também acompanhamos licenciamentos, estruturas, montagens. Muitas vezes estou num contentor durante um mês, a coordenar projetos em obra – num ambiente maioritariamente masculino. E posso dizer que tenho tido experiências muito positivas, e que sou recebida com respeito. O que precisamos é continuar a ocupar esse espaço.
Por fim, há algum projeto de sonho que ainda gostasse de realizar?
Nunca tive o desejo de fazer edifícios monumentais, hospitais ou igrejas. O que me fascina é o lado sensorial e expressivo da arquitetura efémera. Por exemplo, adorava desenhar um desfile para a Dior na Paris Fashion Week. Aquilo não é apenas uma passarela, é uma experiência total. São pavilhões inteiros pensados ao detalhe: o cheiro, a luz, o chão, o som.
Acho que as mulheres ainda enfrentam um caminho mais difícil na arquitetura, mas estamos a avançar, e diria até que a passos largos.
Tudo comunica marca. Um ícone para mim é o Bureau Betak, que eleva a arquitetura efémera a um nível de excelência. Para mim, seria o sonho: desenhar um espaço que se vive como arquitetura, mas que também se respira como espetáculo.
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