A sala de estudo gratuita nasceu de uma ideia simples, mas poderosa: criar um espaço onde qualquer criança ou jovem pudesse aprender, independentemente da sua condição económica.
Fundado por Hugo Agria, o projeto começou como uma forma de apoiar a própria filha nos estudos e rapidamente evoluiu para uma iniciativa comunitária que, ao longo dos anos, tem transformado a vida de dezenas de alunos.
Aqui, não se trata apenas de melhorar notas, mas de formar cidadãos, dar voz aos mais novos e ajudá-los a assumir responsabilidades desde cedo.
Hoje, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais e das juntas de freguesia, a sala de estudo oferece acompanhamento gratuito, personalizado e inovador a inúmeros alunos, com base em métodos de coaching e um certo compromisso. E o modelo tem mostrado resultados.
Foi nesse sentido que decidimos falar com Hugo Agria, fundador do projeto. E este foi o resultado da entrevista.
Como nasceu a ideia da sala de estudo?
Foi mesmo uma coincidência que acabou por se transformar em algo maior. Em 2010, o mercado imobiliário abrandou bastante e ao trabalhar como consultor, fiquei com tempo livre.
Na verdade, tinha uma filha pequena a quem queria apoiar nos estudos, mas percebi que em casa não conseguia criar as condições ideais. Então, pedi ao presidente da junta de freguesia de Cascais uma sala onde pudesse ajudá-la fora desse ambiente.
Como tinha disponibilidade e energia, pensei: “Se vou ajudar a minha filha, porque não abrir o espaço também a outras crianças que não podem pagar explicações?”. Assim nasceu a sala de estudo.
No início foi quase uma ocupação de tempos livres, mas rapidamente cresceu e ganhou forma. Já passaram oito anos desde então e hoje continua a ser um projeto vivo.
Em que se diferencia esta sala de estudo dos outros métodos de apoio escolar?
Diria que há duas grandes diferenças. A primeira é que é totalmente gratuita, algo possível graças ao apoio da Câmara Municipal de Cascais e das juntas de freguesia que cedem os espaços.
A segunda é o processo de entrada, que é único: os alunos passam por uma espécie de “entrevista de emprego”, sem os pais presentes.
Nessa conversa, falam sobre as suas dificuldades, partilham as notas atuais e definem as metas que querem alcançar até ao final do ano letivo. No final, assinam um contrato de compromisso.
Para muitos, é o primeiro contrato que assinam na vida. Pode parecer simbólico, mas faz toda a diferença e eles sentem-se responsáveis, percebem que a decisão de estar ali é deles e não dos pais.
Portanto foi uma iniciativa mais pessoal que o levou a transformar esta ideia num projeto maior, certo?
Exatamente. Na altura, eu também estava envolvido na Direção da Associação de Pais da Escola Secundária de Cascais. Percebi que havia vários alunos cujos pais não podiam ou não queriam pagar explicações. Aos poucos, os miúdos foram-se inscrevendo.
A Câmara Municipal apoiou-nos, e as assistentes sociais começaram a encaminhar crianças para o projeto. Começámos com duas horas por dia, dois dias por semana, e foi assim que o projeto ganhou forma e se manteve ao longo do tempo.
Que métodos de aprendizagem os alunos vão encontrar neste espaço?
Nós trabalhamos muito com técnicas de coaching. Não damos as respostas de bandeja, fazemos perguntas que os obrigam a pensar e a encontrar soluções.
Se um aluno tem dificuldade em matemática, em vez de resolvermos o exercício perguntamos: “Como achas que podemos começar? Pelas somas ou pelas multiplicações?”.
Esse processo de raciocínio é o que os faz crescer. Além disso, evitamos que dois alunos da mesma turma fiquem lado a lado. Misturamos idades e anos de escolaridade para promover a entreajuda e a interação entre eles.
Também incentivamos a que não tenham vergonha de errar ou de perguntar. E claro, temos regras muito simples mas fundamentais. Durante o tempo de estudo não há telemóveis e todos participam.
Com isso, conseguimos algo extraordinário, pois os alunos não só melhoram as notas, como aprendem a comunicar melhor, a pensar de forma mais autónoma.
E quem fica responsável pela sala de estudo?
Esse é outro ponto que nos distingue: nenhum dos nossos monitores é professor. Procuramos pessoas que tragam perspetivas diferentes, antigos alunos, jovens recém-formados ou profissionais de várias áreas.
A ideia é criar um ambiente fresco, longe da rotina escolar, em que se fala não só de matérias, mas também de cultura geral, de política internacional ou até de acontecimentos atuais.
Já aconteceu estarmos todos a estudar e, de repente, começarmos uma conversa sobre uma entrevista que passou na televisão ou sobre um tema de relevância.
Os jovens adoram esse tipo de troca porque sentem que estão a ser tratados como pessoas capazes de discutir assuntos sérios. O nosso objetivo nunca foi apenas formar alunos, é formar cidadãos.
Sendo os voluntários uma peça fundamental deste projeto, como selecionam e preparam estas pessoas para que transmitam não só conhecimento, mas também motivação e novas formas de aprender?
A formação destes voluntários envolve uma imersão prática: passam uma semana nas nossas salas, observando e participando, aprendendo como aplicamos técnicas de coaching, como promovemos entreajuda entre alunos de diferentes idades e como incentivamos os jovens a pensar por si próprios.
O objetivo não é apenas ensinar conteúdos, mas criar motivação, estimular a curiosidade e mostrar que há formas diferentes de aprender e crescer.
E como é a dinâmica entre os alunos dentro da sala de estudo?
Como não deixamos que fiquem fechados em grupos ou apenas com colegas da mesma turma, acabam todos por interagir. Ou seja, é comum ver um aluno do 10.º ano a explicar algo a um do 6.º, ou mais novos a ensinarem truques que descobriram sozinhos. Esse espírito de entreajuda cria um ambiente muito positivo e ajuda-os a perceber que não há problema em errar ou em ter dúvidas.
Que impacto estas salas têm tido na vida académica e pessoal das crianças?
Os resultados têm sido muito positivos. Temos uma taxa de sucesso escolar de 99,5%, mas isso acontece também porque só fica connosco quem realmente quer estudar.
O mais importante, no entanto, não é apenas a evolução nas notas. O que vemos é que muitos crescem como pessoas, aprendem a relacionar-se melhor, a pensar por si próprios, a assumir responsabilidades. Temos casos muito inspiradores.
Alguns dos nossos antigos alunos já estão na universidade, outros no mercado de trabalho e até há quem já tenha casado.
Lembro-me, por exemplo, de um jovem que começou connosco com sérios problemas de disciplina e que estava a tomar medicação. Ao longo do tempo, ao ganhar voz e autonomia, conseguiu, com orientação médica claro, reduzir e depois deixar a medicação. Hoje tem uma vida completamente diferente. Para mim, histórias como essa são a maior prova de que este projeto faz sentido.
E como reagem os pais ao verem os filhos neste processo?
Muitas vezes ficam surpreendidos. Já tivemos casos em que os pais achavam que os filhos não tinham maturidade para certas conversas, mas depois percebem que, quando lhes damos voz e responsabilidade, eles surpreendem. É comum os pais dizerem: “O meu filho está diferente”.
Notam mudanças na forma de comunicar, deixam de usar calão, começam a estruturar melhor o pensamento e até a fazer perguntas sérias a políticos quando estes visitam a sala de estudo.
Para muitos pais, é quase um choque perceber o grau de maturidade que os filhos podem atingir quando não são tratados apenas como crianças.
Como imagina o futuro da Sala de Estudo?
Eu acredito muito que este projeto seja totalmente escalável. Para abrir uma nova sala de estudo, só precisamos de dois voluntários formados, um espaço disponível e um mínimo de financiamento.
Os custos existem (para seguros, formação e apoio aos voluntários) mas não são elevados. O que nos falta, de facto, é mais apoio, seja das autarquias, seja de empresas que queiram investir num projeto com impacto direto na comunidade.
Atualmente, nas três salas que temos, conto com quatro monitores fantásticos que conseguem gerir a sala sozinhos, e isso faz toda a diferença. O nosso projeto depende do apoio da Câmara Municipal, e confesso que gostava muito de ver o projeto crescer para mais freguesias, como Sintra, Leiria ou Lisboa, e até sonhar com uma expansão internacional.
Como serão os próximos meses depois do arranque do ano letivo?
Os próximos meses vão ser uma oportunidade de consolidar o que torna as nossas Salas de Estudo especiais. Continuaremos a tratar os jovens como pessoas, não apenas como números ou “alunos com dificuldades”.
Eles vão aprender matérias escolares, mas, acima de tudo, vão desenvolver autonomia, tomar decisões, comunicar melhor e ganhar competências desde o primeiro dia.
Além disso, estarei empenhado no meu livro Geração Sequestrada. Quero avançar com a edição e partilhar histórias e metodologias que fazem toda a diferença.
Estou à procura de uma editora que queira apoiar a publicação, porque este livro pode inspirar ainda mais pessoas e, ao mesmo tempo, contribuir para o crescimento e sustentabilidade da Sala de Estudo.








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