Christine Lagarde vai deixar o BCE sem lançar o euro digital

As previsões apontavam para que entrasse em vigor este ano, mas isso só deverá acontecer, no mínimo, em 2029.
Christine Lagarde, presidente do BCE
Christine Lagarde, presidente do BCE Getty | Freepik

Christine Lagarde ainda tem um ano e meio à frente do Banco Central Europeu (BCE), mas vai deixar o cargo sem ter concretizado um dos seus grandes projetos como presidente: o euro digital.

Pouco depois de assumir a presidência, a instituição anunciou a intenção de lançar uma moeda virtual na zona do euro, para acompanhar a digitalização e criar uma nova ferramenta de pagamento gratuita, pública e rastreável. Em 2021, Lagarde estabeleceu um prazo de cinco anos para a entrada do euro digital no mercado, mas o projeto tem enfrentado obstáculos que empurram a sua implementação, pelo menos, para 2029.

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Especialistas ouvidos pelo idealista/news apontam que o euro digital tem pontos positivos e negativos. Apesar de poder trazer vantagens para os cidadãos, empresas e economia em geral, a sua implementação tem sido atrasada por questões técnicas, políticas e económicas. Além disso, alertam que a adoção não está isenta de riscos e que poderá não convencer grande parte da população, por não responder a uma necessidade social urgente.

O que é o euro digital?

O euro digital foi concebido para complementar o dinheiro em papel. Ou seja, não vai substituir notas e moedas, mas oferecerá uma forma de pagamento adicional.

O Banco Central Europeu será responsável pela emissão desta moeda virtual. E essa é a grande diferença face às criptomoedas: o euro digital será garantido pelo BCE (e, por extensão, pelos Estados da zona euro), tornando-se um ativo seguro, ao contrário das criptomoedas, que não têm garantias. Além disso, está planeado que possa ser usado tanto com ligação à Internet como sem ela, garantindo a sua disponibilidade mesmo em situações extremas, como catástrofes ou apagões.

O euro digital estará disponível para todos na zona euro. Ou seja, cidadãos e empresas poderão usá-lo nas operações do dia a dia, desde pagar um café até comprar uma casa ou um carro.

Para além das pessoas e empresas residentes na zona euro, também poderão usar euros digitais cidadãos que viajarem para a região por motivos pessoais ou profissionais, bem como empresas e entidades públicas fora da zona euro, desde que abram contas com fornecedores de serviços de pagamento autorizados.

Euro
Getty images

Luzes e sombras do euro digital

O euro digital promete ser universal e gratuito. Com a sua aceitação obrigatória, todos os comerciantes terão de aceitá-lo e os intermediários financeiros distribui-lo-ão. Além disso, garante segurança e privacidade: ninguém será identificado pelas transações, que só serão conhecidas por quem paga e quem recebe, com um nível de privacidade semelhante ao do dinheiro físico.

Esta moeda digital vai ampliar as opções de pagamento dos cidadãos e dar mais poder aos comerciantes na negociação de condições, reduzindo custos de transação. Para Francisco Rodríguez, diretor dos Estúdios Financeiros de Funcas, são três as grandes vantagens: “Para os cidadãos, será um meio de pagamento público, seguro e garantido pelo BCE, útil num mundo cada vez mais digital. Para empresas e comércio, reduz a dependência das grandes redes privadas e aumenta a concorrência”.

Outro ponto forte é diminuir a dependência de provedores de pagamento não europeus, como Visa ou Mastercard, reforçando a autonomia estratégica da Europa. “A nível macroeconómico, preserva o papel do dinheiro público num sistema dominado por soluções privadas e fortalece a soberania monetária europeia frente a alternativas estrangeiras”, explica Francisco Rodríguez.

Leopoldo Torralba, da Arcano Research, concorda: “Evitar uma maior dependência dos EUA em sistemas de pagamentos multinacionais e tornar as transações mais rápidas e baratas”.

O Banco de Espanha destaca que a queda do uso de dinheiro físico e a necessidade de uma solução pan-europeia de pagamentos justificam o euro digital, tornando o sistema mais resiliente em situações extremas, como inundações ou apagões.

Mas nem tudo são vantagens. Os especialistas alertam para os obstáculos técnicos, políticos e sociais. Francisco Rodríguez lembra que os benefícios são “potenciais, não automáticos”. A adoção dependerá do design final, dos incentivos para bancos e comerciantes, e, sobretudo, do grau de utilização pelos cidadãos, que muitas vezes já consideram os pagamentos digitais resolvidos.

Em Espanha, o cenário é complexo: população envelhecida, apego ao dinheiro físico e grande uso de pagamentos digitais privados (cartão, telemóvel), especialmente entre jovens. A paradoxal realidade é que quem mais precisaria de um euro digital enfrenta barreiras tecnológicas, enquanto os utilizadores digitais já não percebem vantagens claras.

O impacto inicial será limitado sem educação financeira, simplicidade de uso e coexistência real com dinheiro físico. O euro digital pode ser impecável tecnicamente, mas socialmente marginal.

O uso da moeda exigirá uma “carteira eletrónica” ligada à tua conta bancária, permitindo pagamentos em lojas físicas, entre particulares, online ou offline. Miguel Córdoba alerta que a adoção massiva será difícil: “Muitos ainda não usam cartão, não sabem usar um computador ou usam o smartphone apenas como telefone”.

Outro desafio é a segurança: o sistema precisa ser à prova de hackers, algo tecnicamente complexo e caro.

O Banco de Espanha esclarece que o cidadão poderá decidir livremente usar o euro digital; apenas os comerciantes terão obrigação de aceitá-lo. Nem os bancos centrais nem as administrações públicas saberão os saldos ou os donos das contas, e não haverá restrições de utilização. Os euros digitais não expiram e tu decides quanto ter e onde usar.

Os riscos que têm atrasado o euro digital

Christine Lagarde previa o euro digital para 2026, no final do seu mandato no BCE. Apesar do Eurosistema trabalhar no projeto desde 2021 e os preparativos terem começado a tomar forma em 2023, ainda não há uma data definitiva para a sua implementação.

Atualmente, está a ser elaborado o regulamento do sistema e selecionados os fornecedores que desenvolverão a plataforma e a infraestrutura necessárias. O próprio BCE aponta 2029 como ano de lançamento, desde que os legisladores da UE aprovem a legislação ainda este ano. Lagarde afirmou, em Davos, na Suíça, que o quadro jurídico poderá ser votado pelo Parlamento Europeu em maio ou junho.

Esta semana, o projeto deu um passo: o Parlamento Europeu apoiou o desenvolvimento do euro digital com 443 votos a favor, 71 contra e 117 abstenções. É um sinal político positivo, embora o processo legislativo formal ainda continue.

Depois de aprovado pelo Parlamento e pelo Conselho, caberá ao BCE decidir se emite ou não a moeda digital. A previsão atual é 2029.

Calendario de implantación del euro digital
Banco de España

Francisco Rodríguez, lembra que “o processo está numa fase decisiva, mas incompleta. O BCE avançou no design técnico, mas a implementação depende do enquadramento legislativo europeu. Mesmo no cenário mais otimista, não será uma implementação imediata”.

Mas por que tantos atrasos? Leopoldo Torralba aponta a burocracia europeia e o facto de o euro digital “não estar isento de riscos”, como crises bancárias em períodos de pânico económico.

O risco é que os cidadãos possam transferir depósitos dos bancos comerciais para o BCE, comprometendo a saúde financeira da banca tradicional. Por isso, é preciso definir limites de posse – atualmente fala-se em 3.000 euros digitais por utilizador – e controlar quanto dinheiro pode passar de contas bancárias para wallets digitais.

Juan Villén, do idealista/crédito habitação, acrescenta três incertezas principais: segurança do sistema, possíveis diferenças fiscais em relação ao dinheiro físico e o impacto nos depósitos bancários, que pode afetar os preços de crédito habitação.

A Federação Bancária Europeia já alertava em 2021 que um mau planeamento poderia desestabilizar o sistema financeiro: “É necessário controlar o ritmo de entrada de fundos na moeda digital para evitar perturbações nos negócios dos bancos e possíveis crises de pânico bancário”.

Roberto Andecochea, economista da  idealista/crédito habitação, alerta que isso pode encarecer o crédito, já que os bancos teriam menos depósitos baratos para financiar-se, obrigando a procurar recursos mais caros, refletindo-se em empréstimos e hipotecas mais caros ou com condições mais exigentes.

Miguel Córdoba acrescenta outra preocupação: “O que acontecerá aos euros nas wallets? O dinheiro nos bancos rende juros. Ter 20.000 euros numa wallet a 0% não faz sentido quando no banco se pode ganhar 2%. Além disso, os jovens pagam com apps rápidas como o mbway, mas os mais velhos e quem vive em zonas rurais continua a usar dinheiro físico. Tenho sérias dúvidas sobre o sucesso do projeto”.

Por seu lado, o diretor de Estudos Financeiros da Funcas explica que o atraso do euro digital não é só técnico, mas também político e económico. “O euro digital toca questões sensíveis: o papel dos bancos, a estabilidade financeira, a privacidade nos pagamentos e a relação entre dinheiro público e privado. Não há consenso entre países, nem dentro do próprio setor financeiro, sobre como o desenhar sem causar efeitos indesejados. Além disso, ao contrário de outras inovações, o euro digital não responde a uma necessidade urgente da sociedade. Não existe ‘fome’ de euro digital entre os cidadãos, o que obriga a um processo mais cauteloso. O risco de precipitação é elevado: um design mal calibrado poderia prejudicar o crédito bancário ou enfraquecer o ecossistema de pagamentos que hoje funciona relativamente bem”, conclui Francisco Rodríguez.

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